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Brasil

Visão de Bolsonaro sobre “nazismo de esquerda” é “um insulto aos judeus”, afirmam pesquisadores na França

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, defendeu em Israel sua tese de que o nazismo foi um movimento de esquerda.
O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, defendeu em Israel sua tese de que o nazismo foi um movimento de esquerda. Debbie Hill/REUTERS

A declaração do presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, de que o nazismo foi um regime de esquerda repercutiu na França, país que foi ocupado pelo exército nazista alemão de 1940 a 1944, durante a Segunda Guerra Mundial. Vários sites franceses de notícias reproduzem a constatação do pesselista, realizada na terça-feira (2), após visitar o Museu do Holocausto (Yad Vashem), em Jerusalém.

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"Não há dúvida, não é? Partido Nacional Socialista da Alemanha", disse Bolsonaro, referindo-se ao nome do partido de Adolf Hitler. O presidente respondia a um jornalista que o questionou sobre a opinião do ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, que recentemente escreveu em seu blog que o nazismo foi de esquerda.

A afirmação do presidente brasileiro surpreende um dos maiores especialistas em extrema direita da França, Jean-Yves Camus, cientista político e pesquisador associado do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas (Iris). “É um insulto aos judeus que morreram no Holocausto”, diz, em entrevista à RFI.

Para Camus, não há dúvidas que a constatação de Bolsonaro “é evidentemente falsa”. Segundo ele, as razões são simples: “nem Hitler, nem as pessoas que o seguiram jamais tiveram atividades políticas na esquerda”.

À RFI, o cientista político explica que toda a história do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães - também conhecido como Partido Nazista - nasceu da extrema direita alemã após a Primeira Guerra Mundial. Segundo ele, alguns fatores contribuíram para a formação do movimento: “a necessidade de vingança após a derrota da Alemanha no conflito, a ascensão do nacionalismo, a vontade de extensão territorial da Alemanha e a noção de supremacia racial, que é absolutamente específica ao Partido Nazista e que não é compartilhada nem pelo Partido Comunista, nem pela social-democracia alemã”.

“O que diz o presidente Bolsonaro é completamente descabido porque no programa do Partido Nazista há a vontade de exterminação do povo judeu que é uma intenção consequente do racismo da legenda. Nunca encontramos esses elementos na social-democracia alemã ou no Partido Comunista alemão”, frisa.

Contra a memória do Holocausto

A historiadora Mônica Schpun, do Centro de Pesquisa sobre o Brasil Colonial e Contemporâneo, da Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais da França, é autora do livro “Justa – Aracy de Carvalho e o Resgate dos Judeus: Trocando a Alemanha Nazista pelo Brasil”. A obra resgata a história de duas jovens na década de 1930, a brasileira Aracy de Carvalho e a alemã Maria Margarethe Bertel Levy, que ajudaram judeus perseguidos pelo nazismo a se refugiarem no Brasil.

Para ela, a reafirmação de Bolsonaro da tese sustentada por Araújo sobre o “nazismo de esquerda” é “gravíssima”. A opinião “é contra a memória do Holocausto e a memória das vítimas”, diz a pesquisadora.

A atitude do presidente e do ministro ao tentar revisar um dos períodos mais obscuros da humanidade “é fruto de uma grande ignorância, não só sobre o que o foi o nazismo, mas também sobre o debate historiográfico, a pesquisa, sobre o que é um consenso absoluto”, reitera.

A historiadora considera que a polêmica é inexistente e foi propositalmente criada pelo atual governo do Brasil, “por oportunismo e má-fé”. “O nazismo era completamente contra os comunistas, matou e perseguiu militantes de esquerda e sindicalistas, provocou uma grande emigração da Alemanha de comunistas, socialistas, sociais-democratas, porque o nazismo era um movimento da direita radical. Portanto, essa polêmica não existe.”

Sobre a confusão de Bolsonaro sobre o adjetivo “Socialista” presente no nome do partido de Hitler, Mônica Schpun afirma que o mais importante é levar em consideração o caráter nacionalista da legenda. “É totalmente falso. O mais importante no título do partido é o ‘Nacional’. Eles eram radicalmente nacionalistas e queriam criar uma nova ordem social na Alemanha, uma ordem totalitária, que não era de nenhum modo socialista".

Camus está de acordo. “Não é possível se deixar enganar pelas palavras”, afirma. De acordo com o pesquisador, “o socialismo dos nazistas era simplesmente a vontade de concentrar nas mãos do Estado a totalidade das ações sociais” e não implementar um regime socialista em si, que, lembra: “é a propriedade coletiva dos meios de produção e que nunca foi colocada em prática pelo Partido Nazista”.

Origem da ideia do “nazismo de esquerda”

Camus afirma que a narrativa que atribui à esquerda movimentos radicais de direita não é nova e é registrada até mesmo entre políticos e movimentos da extrema direita na Europa. “Isso permite a eles recusar em bloco todas as acusações de pertencer ao campo fascista”, afirma. O pesquisador também lembra que Benito Mussolini, líder do Partido National Fascista italiano, integrou o Partido Socialista da Itália até a Primeira Guerra Mundial, o que pode estar na origem da tese revisionista sobre o “nazismo de esquerda”.

Outra possibilidade para explicar a confusão sobre a orientação política do partido de Hitler pode estar, segundo Camus, no fato de que o nazismo conseguiu conquistar eleitores de esquerda. Eles foram enganados, convencidos de que a justificativa de sua insatisfação com a crise econômica da época era de natureza racial”. Uma estratégia classificada pelo historiador como “perversa”.

“O nazismo soube vender seu programa a pessoas que eram vítimas de uma grave crise econômica explicando a elas que o motor da vida e da História era a raça e o combate dos arianos contra os judeus. Então, alguns militantes e eleitores de esquerda se deixaram enganar por essa retórica. Mas isso não faz do Partido Nazista um movimento de esquerda”, afirma.

Já Mônica Schpun diz desconhecer quem são os novos historiadores e correntes, citados por Ernesto Araújo em Israel, em entrevista à imprensa brasileira, que, segundo ele, têm estudado o nazismo como um movimento de esquerda. Para a pesquisadora, a tese defendida pelo ministro é uma tentativa de desviar da polêmica que veio à tona recentemente envolvendo seu pai. Em 1978, o então procurador-geral da República durante a ditadura militar no Brasil, Henrique Fonseca de Araújo, se opôs à extradição do austríaco Gustav Franz Wagner. Subcomandante do campo de concentração nazista de Sobibor, na Polônia, ele foi responsável pela morte de 250 mil pessoas entre 1942 e 1943.

Wagner chegou ao Brasil em 1952 e fixou residência em Atibaia (SP). Foi descoberto em 1978 por um sobrevivente do Holocausto em uma festa onde comemorava o aniversário de Hitler. Temendo ser capturado pela Mossad israelense, entregou-se às autoridades brasileiras.

Na época, o pai de Ernesto Araújo analisou quatro pedidos de extradição, vindos da Alemanha, da Áustria, da Polônia e de Israel, e emitiu parecer negativo a todos eles. Alguns dias depois que a revelação sobre a proteção do nazista pelo governo brasileiro veio à tona, o ministro das Relações Exteriores defendeu Henrique Fonseca de Araújo em seu blog, afirmando que a decisão do pai “não visou a defender um foragido nazista, e sim o estado de direito, pois o que apontava eram as insuficiências processuais no pedido de extradição, sem qualquer contestação dos crimes cometidos pelo acusado”.

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