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Eleições europeias

“Extrema direita é uma grande falácia”: Estrasburgo abre os microfones aos europeus

O Parlamento Europeu de Estrasburgo realizou neste domingo (19) a sessão Portas Abertas, a uma semana das eleições europeias.
O Parlamento Europeu de Estrasburgo realizou neste domingo (19) a sessão Portas Abertas, a uma semana das eleições europeias. RFI/Marcia Bechara

Na manhã deste domingo (19), uma chuva persistente ameaçava atrapalhar a sessão anual de Portas Abertas do Parlamento de Estrasburgo, no extremo leste da França. Que nada: com ou sem sol, uma fila quilométrica se impunha desde as 10h da manhã na entrada do parlatório, onde legislam, para um mandato de 5 anos, que termina agora em 2019, os 751 deputados eleitos em todo o continente. Europeus e não-europeus de todas as idades e origens vieram conhecer de perto a principal casa legislativa da “capital da Europa”. A iniciativa, que é anual, e tenta aproximar a população dos deputados, ganhou esse ano um clima mais tenso, a uma semana das eleições europeias. Os microfones, no entanto, continuaram abertos, com direito à invasão dos “coletes amarelos” e a disputas ideológicas entre parlamentares.

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Enviada especial a Estrasburgo

“Senhora, gostaria de saber porque os ingleses querem se separar de nós.” A pergunta, inocente e direta, faz a sala lotada do Parlamento Europeu de Estrasburgo explodir em risadas. A pequena Emma, uma francesa de 9 anos, está preocupada com o Brexit. “Ah, que excelente pergunta, minha jovem. Isso é o que todos nós aqui gostaríamos de saber”, responde bem-humorada a deputada alemã Ingeborg Gräßle, cristã-democrata do CDU, o partido de Angela Merkel. Gräßle comanda o orçamento parlamentar europeu.

A resposta da deputada conservadora alemã tem uma reação imediata de Dominique Bilde, parlamentar francesa da Reunião Nacional, o partido de Marine Le Pen no Parlamento Europeu, membro do grupo ENL, que representa a extrema direita em Estrasburgo. “As pessoas têm o direito de não estarem satisfeitas, Emma”, responde Bilde, claramente isolada dos outros deputados na tribuna europeia. As cartas estão na mesa, e durante toda a sessão plenária extraordinária deste domingo, uma discreta mas clara disputa de poder se passará durante o jogo de perguntas e respostas dos deputados.

Classificada como “populista” pela jornalista que realiza a mediação da conversa, que tenta explicar ao público as cores políticas de cada representante, a aliada de Le Pen não se deixa abater: “Populista vem de povo. E nada que vem do povo pode ser ruim.” O silêncio sepulcral que se segue à declaração demonstra que, mesmo se tem apoio de parte da sociedade europeia, a extrema direita ainda pena a conquistar aplausos em praça pública. Ao menos, na casa dos deputados da União Europeia.

A iniciativa de abrir os microfones para adultos, jovens e crianças é levada a sério pelos parlamentares, que se esmeram em responder com precisão de detalhes as perguntas de seus concidadãos. Não é para menos: as eleições europeias batem à porta na era das fake news, onde o contato presencial pode fazer toda a diferença. E Estrasburgo parece saber disso, pertinentemente.

Simon, de 11 anos, quer saber o que pode ser feito para digitalizar cédulas de voto, que gastam muito papel, “não é bom para o meio ambiente”. Sentada nas fileiras da frente, uma senhora argelina vestida com o véu islâmico pronuncia um discurso bem estruturado, onde louva a revolução dos argelinos contra [o presidente deposto] Bouteflika, denuncia a corrupção dos que “ainda estão no poder” e quer saber o que a União Europeia ainda pode fazer pelo seu país.

“Somos solidários, mas respeitamos o princípio de soberania argelino. Não podemos interferir”, responde a deputada socialista alemã Evelyne Gebhardt. “E o que vocês andam fazendo para garantir a paridade entre homens e mulheres?”, pergunta Julie, de 10 anos. “Voilà uma boa pergunta”, encanta-se Gebhardt, sob os risos da plateia.

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Uma francesa pede a palavra e a mediadora avisa que não poderá tolerar a leitura das três páginas de discurso, em respeito às outras pessoas do público, que também desejam fazer perguntas. “Vou ser rápida, você vai ver.” A resposta soa mais como ameaça do que desculpa e em alguns minutos a desconfiança é esclarecida: “Sou mãe de família, moro num vilarejo de 300 pessoas e não consigo viver mais nas condições em que nos encontramos. Sou um ‘colete amarelo’ desde novembro de 2018, e brigo por nossos direitos. Se os deputados desta casa não conseguem resolver os problemas europeus, isso tudo não passa de uma grande hipocrisia”, diz, alterada, enquanto veste um colete amarelo de sinalização, ao lado de outros manifestantes. A guerra está declarada e a segurança do Parlamento sabe disso.

Enquanto alguns agentes tentam cortar o microfone e retirar os “coletes amarelos” de dentro da plenária, a maioria mulheres, outro grupo feminino invade o hemiciclo. Torso nu, pintadas de amarelo, uma alusão às estrelas da bandeira europeia, elas derramam tinta vermelha no chão e são arrastadas pelos seguranças.

A deputada alemã Ingeborg Gräßle deplora a “falta de comunicação”. “É claramente uma ação pensada para fazer buzz nas redes sociais, e eles atingirão seu objetivo. Mas é uma iniciativa autoritária, que não se presta ao diálogo, nenhum deles ficou aqui para discutir conosco”, diz.

“Sem a Europa, nenhum país europeu vale grande coisa”

Mas nem tudo é happening e performance nos corredores de Estrasburgo. O camaronês Abulai Amidou, morador de Estrasburgo, acaba de sair de uma das muitas atividades coletivas da sessão Portas Abertas para “conhecer o Parlamento Europeu”. “Eu me interesso cada vez mais pela Europa e pela política europeia. Acredito que, sem a Europa, nenhum país europeu vale grande coisa”, analisa.

“Na geopolítica atual, com a força da China que ganha cada vez mais terreno e os Estados Unidos que não dão o braço a torcer, a Europa é necessária. Nenhum país sozinho, seja a França ou a Alemanha, não conseguiria existir”, diz o africano, que mora no leste francês “há mais de 20 anos”. “Esta é a segunda vez que visito o Parlamento”, diz o técnico em informática.

Na cafeteria do Parlamento, encontramos Ella, uma menininha da República Tcheca de apenas dois anos, que corre em direção à reportagem, balançando sua bandeira da União Europeia, um presente a cada visitante deste domingo. Ella mora com seus pais há um ano em Freiburg, na Alemanha. Sua mãe, uma professora em licença-maternidade, revela que a pequena família decidiu cruzar de fronteiras europeias em busca de melhores condições de trabalho. O pai, que conserta telhados, brinca: “eu sou de esquerda. Ela não”, diz, provocando a esposa. No entanto, ambos concordam com a possibilidade de uma Europa sem fronteiras, onde o acesso ao trabalho seja menos restrito.

“Extrema direita é uma grande falácia”

Do lado de fora do Parlamento, ao lado da longa fila de visitantes, encontramos Thierry, aposentado que veio de Besançon, também no leste da França, próximo à fronteira com a Suíça, para participar das Portas Abertas do Parlamento Europeu. Ele milita num movimento pelo direito dos estrangeiros no continente europeu.

“Precisamos de uma política migratória solidária na França”, diz. Thierry carrega uma placa no pescoço "contra Dublin". “Foi esta regulamentação que levou [o populista Matteo] Salvini ao poder na Itália. Defender os estrangeiros faz parte da tentativa de salvar a Europa. A migração faz parte da vida dos seres humanos deste planeta.  Todos os países foram habitados através de múltiplas migrações, até o Brasil, a Argentina”, diz.

“Esse movimento é uma riqueza. Querer bloquear fronteiras arbitrariamente é uma aberração. Com a globalização, precisamos aprender a construir outra coisa além de guerras. Mas guerra dá dinheiro, estamos convencidos de que os Estados preferem pilhar recursos naturais de outros países pela guerra”, afirma.

“A força desse movimento pela Europa é que ele é transnacional, ele ultrapassa nacionalismos. O que vemos com esse movimento de extrema direita aqui na Europa é uma grande falácia”, diz Thierry. “Quando Viktor Orban na Hungria diz que não quer estrangeiros, ao mesmo tempo ele deseja resolver a baixa demográfica em seu país obrigando os húngaros a fazerem hora extra, na falta de mão-de-obra. Eles serão ‘talvez’ pagos por estas horas suplementares, ‘nos próximos três anos’. O mal que é feito aos estrangeiros e migrantes recai diretamente sobre seu próprio povo. Essas experiências com estrangeiros já aconteciam com Pinochet, no Chile, depois com os Chicago boys, nesse mundo ultraliberal financeiro”, conclui o advogado aposentado, às vésperas de eleições europeias que convivem com o fantasma das políticas nacionalistas, em plena era neoliberal.

77% dos jovens não votarão nas eleições europeias

Ophélie Omnès é uma jovem advogada de 28 anos, presidente da União Federalista Europeia (UFE), movimento que congrega politicamente a juventude do continente desde 1946, com o fim da Segunda Guerra Mundial. “Nosso movimento foi criado pela Resistência no pós-guerra. Eles disseram: isso não pode mais acontecer, é preciso haver uma irmandade de nações, é preciso recomeçar. Robert Schuman se encontra entre os nossos fundadores”, diz Omnès.

“Precisamos não apenas de uma cooperação política, mas de uma integração. Afinal, o Parlamento Europeu encarna a primeira experiência supranacional no mundo, administrando temas como a Defesa ou o Meio Ambiente. Não podemos ficar isolados. No terreno comercial, por exemplo, uma França não significa nada, na frente dos Estados Unidos ou da China”, defende.

“O que está em jogo é a democracia europeia. Podemos escolher a política que será adotada na União Europeia, é preciso votar”, diz a francesa, lembrando que uma pesquisa Ifop encomendada pela UFE revelou que cerca de 77% dos jovens europeus afirmam que não votarão em 26 de maio.

E por que a geração mais nova não se interessa pelo pleito? Segundo Ophélie, uma das causas seria porque “ainda temos um corpo político que representa mal a juventude. Existem poucos jovens, a diversidade é mal representada, temos a impressão de estarmos cara a cara sempre com o mesmo velho rosto político. Para os jovens, isso dificulta a identificação”, afirma a advogada, que foi estudante do intercâmbio europeu Erasmus e hoje mora em Luxemburgo.

“Tenho talvez uma visão política diferente da dos meus pais, mas devo lutar para defendê-la. Afinal, em 40 anos ainda estarei aqui, sofrendo as consequências das minhas escolhas”, diz.

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