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Agressões contra lésbicas registram aumento de 42% na França

Segundo a associação SOS Homophobie, 50% das agressões registradas contra lésbicas foram manifestadas sob forma de comportamento ou declarações preconceituosos, seguidos por 39% de insultos verbais (difamação, assédio moral ou ameaças).
Segundo a associação SOS Homophobie, 50% das agressões registradas contra lésbicas foram manifestadas sob forma de comportamento ou declarações preconceituosos, seguidos por 39% de insultos verbais (difamação, assédio moral ou ameaças). Pixabay

O último relatório da ONG francesa SOS Homophobie aponta para um aumento inédito de casos de lesbofobia no país. De acordo com o documento, se os gays ainda são o principal alvo das agressões homofóbicas na França, as lésbicas viram episódios de violência aumentar em 42% apenas no intervalo de um ano, entre 2017 e 2018.

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“O que vocês estão fazendo é sujo. Se vocês estivessem em um país muçulmano, nós amarraríamos vocês em uma árvore e mataríamos vocês a pedradas para irem para o inferno.”

A jovem francesa Sabrina Askelou ouviu essa frase de um homem, num shopping center de Lyon, no centro da França. Ela e a namorada passeavam de mãos dadas no local quando começaram a ser perseguidas por um indivíduo que as ameaçou. “Em países muçulmanos, a mão de vocês seria arrancada”, repetiu o homem várias vezes.

Segundo a jovem, vice-presidente da associação de apoio às pessoas LGBTQ+ Le Refuge, esse tipo de ataque é comum, assim como comentários homofóbicos que podem culminar em ameaças de estupro e morte. “Caminhar de mãos dadas se tornou impossível para a gente”, afirma a militante cuja homossexualidade foi rejeitada até mesmo pela família.

“As pessoas me chamam de safada, dizem que eu sou lésbica porque ainda não encontrei o homem certo. Quando estou com minha namorada me perguntam quem é o homem e a mulher da relação”, contou à RFI. Segundo ela, o preconceito contra as lésbicas é tão banalizado que apenas as agressões físicas são consideradas graves e registradas na polícia.

De fato, segundo o relatório da SOS Homophobie, 50% das agressões registradas contra lésbicas foram manifestadas sob forma de comportamento ou declarações preconceituosos, seguidos por 39% de insultos verbais (difamação, assédio moral ou ameaças), violências físicas (9%) e agressões sexuais (1%). Em 2018, a associação registrou 365 casos de lesbofobia, uma média de um por dia.

Entretanto, para a co-autora do relatório, Joce Le Breton, esse número é apenas uma pequena amostra da violência que as lésbicas vivem em seu cotidiano na França. “Esses dados dizem respeito somente às pessoas que nos telefonam e denunciam esses atos à SOS Homophobie. Então, o relatório é apenas uma pequena parte da realidade. Sabemos que há um grande número de vítimas que não registram essas violências junto às associações ou à polícia”, afirma.

Na França, a homofobia foi introduzida no Código Penal como crime ou delito desde 2003. Em caso de discriminação, a Justiça pode estabelecer penas de até três anos de prisão e € 45 mil de multa (cerca de R$ 195 mil). Desde 2002, cinco dos 14 assassinatos de homossexuais foram punidos com penas de 12 a 20 anos de prisão.

Dificuldade de denunciar agressões verbais

A designer francesa Tania e a namorada são constantemente alvo de agressões verbais, mas nunca prestaram queixa. “Como mulheres, não somos levadas a sério pelos policiais. Eles são os primeiros a nos olharem atravessado ou até mesmo a assoviar quando nos percebem na rua”, afirma.

O espaço público, aliás, é palco das violências verbais cujos autores são, na maioria dos casos, homens, muitas vezes jovens em grupo. “Nos chamam de ‘vagabundas’, ou nos perguntam: ‘quem faz o papel de homem neste casal?’. Um motoqueiro quis nos atropelar em uma passagem para pedestres, depois tentou nos agredir com seu capacete, e nos insultou. Um agente imobiliário nos falou que não podia considerar eu e minha namorada como ‘um casal normal’ e recusou que visitássemos um apartamento disponível para aluguel. Em um bar, um rapaz nos disse que não éramos verdadeiras mulheres porque, segundo ele, as verdadeiras mulheres apreciam cantadas de homens”, contou à RFI.

Além de agressões verbais, Tania também relata os olhares indiscretos, os julgamentos e a frequente rejeição da sociedade. Segundo ela, esse comportamento é fruto da herança católica e do ultraconservadorismo de uma parte da população francesa. “Essas pessoas se sentem em perigo, até mesmo atacadas, como se conceder direitos a uma minoria perseguida pudesse tirar os direitos deles. Eles são contra igualdade porque são privilegiados, e têm esse tipo de reação tanto em relação à população LGBTQ+ como a qualquer outra medida progressista”, avalia.

Desabafo nas redes sociais

Se as lésbicas francesas resistem a denunciar as agressões verbais ou preconceito que vivem junto às autoridades, nas redes sociais, os depoimentos se multiplicam. Páginas no Facebook e no Instagram de associações que lutam contra a homofobia publicam diariamente depoimentos, mas a maioria deles ainda é anônimo.

Segundo a co-autora do relatório da SOS Homophobie, a popularização de movimentos feministas nas redes sociais, como o #metoo, também favoreceram a liberação da palavra das lésbicas. “Há uma espécie de revelação das violências que até hoje eram ignoradas e minimizadas pela sociedade. Espero que essa tendência faça parte de uma onda ainda maior, de reivindicação, para o empoderamento das mulheres homossexuais”, afirma.

Le Breton lembra que, por outro lado, é na internet e nas redes sociais que boa parte do ódio contra a população LGBTQ+ é propagada facilmente. “É provável que esse fenômeno de difusão sem freios e sem limites da homofobia online incentive a passagem ao ato na vida real”, considera.

Conscientização sobre a igualdade de direitos

Para Le Breton, o debate e a conscientização sobre a igualdade de direitos é uma das formas de lutar contra a homofobia. As ações de prevenção e sensibilização devem começar já na escola e se concentrar em setores onde esse trabalho é pouco presente, como na área da saúde. Segundo ela, a falta de evolução sobre questões como o acesso à Procriação Médica Assistida (PMA) a casais homossexuais deixa a população LGBTQ+ ainda mais vulnerável a discriminações.

Já a vice-presidente da associação LGBTQ+ Le Refuge faz um apelo para que as vítimas de violências homofóbicas denunciem as agressões às autoridades e que não recuem diante do despreparo das delegacias ou das burocracias jurídicas. Também lembra a importância da sensibilização contra a homofobia desde a infância.

“Uma criança não é preconceituosa por si só; é a sociedade que torna as pessoas preconceituosas, afirmando que no mundo só há espaço para famílias formadas por um homem e uma mulher, dizendo que foi assim com Adão e Eva, que as meninas são princesas e os meninos são príncipes. Quando, mais tarde, essas crianças começarem a perceber que existem pessoas que não correspondem a esses modelos impostos, elas vão desenvolver uma forte rejeição contra as diferenças e até mesmo se tornarem violentos”, salienta.

A designer Tania afirma que boa parte das agressões tem relação com a falta de informação da sociedade, que leva os indivíduos a construírem imagens estereotipadas ou desvalorizantes. Por isso, para ela, o preconceito pode ser combatido dando mais visibilidade às pessoas LGBTQ+.

“É preciso continuarmos participando das manifestações, nos aliarmos, promovermos talentos LGBT+ nos festivais, nos museus, nas escolas. É preciso ensinar às pessoas o que significa o termo ‘queer’, mostrar verdadeiras lésbicas no cinema e na televisão e não caricaturas heteronormativas. É preciso destruir o patriarcado. É preciso mostrar às pessoas que pluralidade cultural é sinônimo de riqueza cultural e que o amor sempre vencerá”, conclui.

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