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Análise: Confrontar Bolsonaro sobre a Amazônia foi “presente para Macron”

Emmanuel Macron e Jair Bolsonaro, durante a cúpula do G20 em Osaka, no Japão.
Emmanuel Macron e Jair Bolsonaro, durante a cúpula do G20 em Osaka, no Japão. Clauber Cleber Caetano/PR

O conflito diplomático entre a França e o Brasil, na sequência dos números alarmantes sobre o desmatamento na Amazônia, despertou uma guerra de versões sobre as motivações do presidente francês, Emmanuel Macron, ao confrontar o brasileiro Jair Bolsonaro e ameaçar a assinatura do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Para analistas franceses, a ocasião se revelou um verdadeiro “presente” para as pretensões do líder francês, que busca protagonismo global na questão ambiental e na defesa do multilateralismo.

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“Com a questão da Amazônia, Bolsonaro oferece um presente para Macron, ao ser ainda mais provocativo que Donald Trump”, resume o cientista político Philippe Moreau-Defarges, especialista em geopolítica do Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri), de Paris. “Macron pensa ter uma missão, um pouco como um Jesus Cristo, de alguém que surgiu nada e rapidamente se tornou presidente. Defender a proteção dos povos indígenas e esse bem comum da humanidade, que é a floresta amazônica, entra perfeitamente nesse objetivo.”

O fundador do Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas, Pascal Boniface, complementa: a defesa ambiental é uma das maiores tradições da diplomacia francesa contemporânea. Desde os discursos marcantes de Jacques Chirac até o Acordo de Paris sobre o Clima, o país assume uma liderança mundial no tema – portanto, Macron tem quase a obrigação de cultivar o protagonismo exercido pela diplomacia do país.

Bolsonaro comparado a líder da Coreia do Norte

Além disso, destaca Boniface, os insultos “inaceitáveis” do presidente brasileiro à esposa do francês, feitos pelo Twitter, não poderiam passar em branco. O coordenador do Iris afirma que a postura de Bolsonaro chega a lembrar o líder da Coreia do Norte, Kim Jong Un.

“Estamos acostumados às polêmicas entre os chefes de Estado, mas acho que no mundo ocidental e entre as democracias, jamais houve um insulto como esse, da parte de um chefe de Estado em relação à esposa ou de outro chefe de Estado. O único equivalente que eu lembro são os disparates ditos pelo líder norte-coreano – o que não seria uma comparação honrosa para o presidente do Brasil”, indica Boniface.

Moreau-Defarges não tem dúvida de que a política interna francesa também explica, e muito, a decisão de Macron de ir para o embate com Bolsonaro, apesar da profunda e antiga relação diplomática amistosa entre a França e o Brasil. A crise dos coletes amarelos leva o presidente francês a buscar legitimidade junto à ala mais à esquerda do seu eleitorado e seu governo – e o confronto à figura de Bolsonaro é perfeito para isso.

“Ele pensou: ‘se, durante o G7, eu consegui domar o bicho-papão que é o Trump, por que deveria me calar diante de uma figura bem mais fraca’?”, ironiza Moreau-Defarges.

Bloqueio de acordo com o Mercosul é erro político de Macron

No entanto, ressalta o analista do Ifri, a decisão de suspender a aprovação do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia se revela um erro político de Macron, ao ir de encontro com a sua ambição de líder do multilateralismo, num mundo em que os nacionalistas ganham cada vez mais espaço.

“Questionar o acordo não é muito inteligente, e ele não poderá ir muito longe nisso, porque o acordo envolve a União Europeia inteira. Se amanhã Macron for a Bruxelas dizer que a França não ratifica o acordo, os multilateralistas europeus ficariam furiosos com ele”, analisa Moreau-Defarges, que considera a decisão um ato “impulsivo” do presidente francês, na qual ele será obrigado a recuar.

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