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Brasil/França

Discussão sobre “ideologia de gênero” nas escolas do Brasil suscita debate na França

Historiadores, sociólogos, antropólogos, filósofos e políticos participaram do debate sobre a questão de gênero no Brasil.
Historiadores, sociólogos, antropólogos, filósofos e políticos participaram do debate sobre a questão de gênero no Brasil. RFI

Praticamente no mesmo momento em que o presidente brasileiro Jair Bolsonaro anunciava seu projeto de proibir o que qualifica como ensino da “ideologia de gênero” nas escolas, o assunto era tema de debate em uma universidade francesa. Pesquisadores vindos dos dois lados do oceano passaram boa parte do dia discutindo a atualidade do Brasil a partir do prisma da política de gênero. Os universitários criticaram a posição do chefe de Estado, mas também lembraram que essa não é uma especificidade brasileira, mesmo se o caso nacional mescla vestígios históricos que tornam a questão ainda mais complexa.

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O Laboratório de estudos de gênero e de sexualidade (LEGS na sigla em francês) da Universidade Paris 8, na periferia da capital francesa, organizou nesta terça-feira (3), no âmbito de um programa de pesquisas franco-brasileiro, uma jornada de estudos intitulada “Gênero ameaçador / Gênero ameaçado: A atualidade política do gênero no Brasil”. Coincidência do calendário, o debate aconteceu no mesmo dia em que Bolsonaro informou pelas redes sociais ter determinado ao Ministério da Educação (MEC) a preparação de um projeto de lei que “proíba a ideologia de gênero no fundamental”. Segundo as palavras do chefe de Estado, a inciativa parte do “princípio da proteção integral da criança”.

“Ao falar de gênero, nós falamos da sociedade”, rebate o sociólogo francês Eric Fassin, autor de vários livros sobre o assunto e um dos organizadores do debate, em conjunto com a antropóloga Anna Uziel, da UERJ. “Os ataques à teoria do gênero – como é chamada na França – são a confirmação de que esse tema incomoda, assim como os ataques contra a Filosofia ou as Ciências Sociais. Nós constatamos que essas questões, que poderiam parecer marginais, têm uma função política importante. Na verdade, estão atacando todas as maneiras de se pensar a sociedade”, insiste o sociólogo.

Tema favorito dos governos autoritários

Prova disso, “a questão de gênero constitui um tema favorito dos governos autoritários ou ultraconservadores”, frisou a reitora da Universidade Paris 8, Annick Allaigre, lembrando na abertura do evento que “os estudos de gênero foram ameaçados da mesma maneira em países como a Hungria ou a Rússia”. No entanto, o que emerge do debate realizado na Universidade Paris 8, instituição conhecida por sua tradição de resistência e contestação, é a complexidade do assunto, que dificilmente se discute de forma isolada.

Todos os participantes mostraram que falar de gênero vai bem além de uma questão de diversidade sexual ou de “azul para menina e rosa para menina”, frase da ministra brasileira da Mulher, Família e Diretos Humanos, Damares Alves, citada por Annick Allaigre. Impossível, mostraram os palestrantes, abordar a questão de gênero, principalmente no Brasil, sem falar de raça e classe.

Por essa razão, alguns universitários reunidos no evento passaram mais tempo falando do impacto na sociedade brasileira da mudança da legislação sobre a remuneração das empregadas domésticas – a maioria mulheres e negras, como bem lembrou a antropóloga catarinense Miriam Grossi. Ou ainda da tradição militar – “extremamente ideológica e viril” –, que alimenta parte da retórica do presidente Jair Bolsonaro, como ressaltou a historiadora francesa Maud Cherio.

O Brasil sempre foi um país conservador?

Será que o Brasil que sempre foi conservador, mas agora se sentiu mais livre para falar o que pensava, adubado por declarações provocadoras dos líderes políticos?, questionou Maud Cherio. Ou o país estaria apenas assistindo a uma onda de reações a avanços recentes da sociedade, como o aumento de ataques homofóbicos, na esteira da legalização do casamento gay?

Em meio a tantos questionamentos sem respostas, o testemunho de Roseli Barbosa dos Reis destoou no evento. A jovem professora paulista, formada na Universidade Paris 8, não fazia parte do programa oficial, mas quis contar a história de sua irmã, Luana. Negra, lésbica e pobre, ela foi morta em 2016 pela polícia em Ribeirão Preto. “Ela reunia todas as características”, desabafou Roseli, em um relato que resumia o que os teóricos chamam de interseccionalidade, ou seja, essa soma de várias formas de opressão que engrossa as estatísticas da violência no Brasil. Um testemunho que, à sua maneira, defendeu a educação sobre a questão de gênero nas escolas brasileiras.

Participaram ainda do debate a historiadora francesa Armelle Enders e o fotógrafo Eric Batistelli. Do lado brasileiro estavam presentes o documentarista Boca Migotto, a historiadora Silvia Capanema, a antropóloga Larissa Pelúcio, o sociólogo Jessé Souza, o psicólogo Diego Paz e a filósofa Márcia Tiburi.

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