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França / Velhice / Amor

Tinder, barco e até bilhetinho: como os sêniores franceses reconquistam o amor na terceira idade

Na França, os sites e aplicativos de paqueras para pessoas “acima de 50 anos” sofreram uma verdadeira explosão nos últimos anos.
Na França, os sites e aplicativos de paqueras para pessoas “acima de 50 anos” sofreram uma verdadeira explosão nos últimos anos. Getty images/Steve Cole

Jean-Pierre, 86, deparou-se com seu grande amor no ônibus 46, que faz a rota norte-leste de Paris. Joséphine, 62, encontrou seu novo marido num site de relacionamento, compraram um barco e agora decidiram dar a volta ao mundo. Márcia, 64, redescobriu o amor na França ao lado de Jean-Yves, 61, e mudou completamente sua vida para dar continuidade a esse encontro. Eles são os chamados sêniores e, ao contrário de gerações anteriores, jogaram tudo para cima e deixaram os preconceitos exatamente de onde nunca deveriam ter saído: na lata de lixo. Tudo em nome do amor.

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O caso ficou famoso na semana passada em Paris, e inspirou programas de rádio e televisão franceses: Jean-Pierre Meston, 86, apaixonou-se perdidamente durante o curto trajeto que faz diariamente no ônibus 46, na capital francesa. Mas, detalhe essencial, ele desceu do transporte sem perguntar o nome nem trocar telefone com a "jolie dame", a "linda senhora" que havia conhecido.

Desesperado e sem nenhum tipo de acesso à internet, ele lançou mão de um recurso à moda antiga: um longo bilhete escrito à mão, do qual tirou cópias e espalhou perto dos pontos do ônibus 46. Com a ajuda de jovens vizinhos, que fotografaram o bilhete e colocaram nas redes, a artimanha de Jean-Pierre viralizou, e ele reencontrou sua amada. O caso fez a França suspirar e programas de rádio entrevistaram o senhor, que nesta quarta-feira (4) reclamava da incessante "romantização" do assunto e insistia: "e o sexo?", enfiando mais um preconceito no armário. Sim, os velhos transam e vão muito bem, obrigado.

Na França, os sites e aplicativos de paqueras para pessoas “acima de 50 anos” sofreram uma verdadeira explosão nos últimos anos, inspirando grandes matérias e longos depoimentos da imprensa local. Com nomes sugestivos como “Nossos melhores anos”, “Digamos amanhã”, “Senior Friend Finder” e “Elite Senior”, as plataformas são geralmente ilustradas com imagens de senhores e senhoras grisalhos, sorridentes e “de bem com a vida”. Será?

Singrando os mares, vendendo os móveis

Uma pesquisa de um site de relacionamentos francês mostoru que, depois dos 50, os sêniores solteiros não possuem forçosamente vontade de viverem ao lado das pessoas por quem se apaixonam.
Uma pesquisa de um site de relacionamentos francês mostoru que, depois dos 50, os sêniores solteiros não possuem forçosamente vontade de viverem ao lado das pessoas por quem se apaixonam. Getty images/Comstock

Para Joséphine*, 62, não foram necessários mais do que seis meses no site Elite Senior até que um "senhor charmoso" clicou na sua foto. "Vi a dele e, pouco tempo depois, quis um encontro. Notei que ele escrevia bem. Quando ouvi a voz dele no telefone, senti que havia algo". O quê? Bom, "algo", essa pequena faísca que faz a voz "tremer" e os olhos "brilharem". Ironia da história, Joséphine estava a ponto de abandonar o site, porque a maioria dos homens com quem conversava moravam "muito longe". "No dia em que tentei cancelar minha inscrição, eles renovaram automaticamente por mais três meses, e, bem, no dia seguinte ele me escreveu", lembra.

Para esta francesa, saindo de um casamento com um "perverso narcisista", o recomeço não foi tão fácil, apesar das aparências. "Demorei seis anos para me curar até voltar a procurar um novo parceiro. Queria estar inteira para um novo relacionamento", conta. A espera deu frutos: o casal, natural da região da Bretanha (noroeste da França), comprou um barco, está vendendo todos os móveis, carros e excessos, e se prepara para dar a volta ao mundo a partir de 2020. "Vim dirigindo o barco de Lorient até o sul da França, atravessei o estreito de Gibraltar. Sei dirigir o barco, mas o Rémy* conhece muito mais de barco do que eu", diverte-se.

O casamento anterior de 23 anos deixou uma filha, já adulta, que, segundo Joséphine, se relaciona super bem com os dois filhos adultos de seu novo companheiro. "Decidimos até comprar um barco maior, para que as crianças possam nos acompanhar. Elas nos apoiam em tudo", diz. "Quando me inscrevi no site, uma amiga, muito mais velha do que eu, me disse: Joséphine, atenção. Não deixe os anos e as oportunidades irem embora", lembra.

De um casamento de mais de 20 anos a um barco singrando o Mar do Norte, será que a mudança não dá medo? "Não tenho absolutamente medo nenhum. Vendi meus lindos móveis e vou improvisar um brechó onde venderei várias outras coisas. Deixo minha casa alugada. O plano é retornar em terra firme daqui a 10 anos. Quando já tivermos feito a Europa do Norte, e o Sul. Planejamos morar durante três meses no barco em Londres, por exemplo", conta.

"Planilha de excel"

Jean-Yves (61) e Márcia (65) curtindo juntos mais um verão em Paris. Eles se conhceram no Tinder e foram se apaixonando "pouco a pouco".
Jean-Yves (61) e Márcia (65) curtindo juntos mais um verão em Paris. Eles se conhceram no Tinder e foram se apaixonando "pouco a pouco". Arquivo pessoal

Mochila nas costas e sonhos na mão, eles deixam para trás os estereótipos de relação amorosa e os preconceitos do ageísmo contra o amor na terceira idade. No país de Brigitte Macron, 66, cujo marido e presidente da França, Emmanuel Macron, é 24 anos mais jovem, bons exemplos não faltam para inspirar sêniores de todas as idades.

É o caso de da historiadora e escritora Márcia Camargos, 64, que após 23 anos de casamento e dois filhos adultos, decidiu largar o marido e viver novas experiências na França, onde um amigo costumava lhe emprestar sua casa durante o inverno. "Aqui é o paraíso dos aplicativos [de paquera]", diverte-se ela, que tem mais de 20 livros e alguns prêmios no currículo. "Eles funcionam, diferentemente de quando estou no Brasil, onde os homens da minha faixa etária querem menininhas de 25 anos. Aqui, não. Aqui eles estão abertos para acolher mulheres da mesma idade que eles", diz.

"Eu brinco que eu tinha uma planilha de excel para poder administrar todos os candidatos", conta Márcia, que admite ter vivido "todas as fantasias e histórias que você puder imaginar", antes de finalmente se decidir por Jean-Yves, com quem havia tido alguns encontros. "Era um paraíso. Não só na França, mas em outros países da Europa. Alguns querem ser amigos, outros querem sexo, mas eles são muito honestos", diz. "Tive tanto aventuras românticas quanto eróticas. Era o momento em que eu pude fazer tudo o que tinha curiosidade, e que nunca tinha tido coragem ou oportunidade de fazer", conta.

"Realizei todas as minhas fantasias após os 60 anos, e foi bem gratificante. Você está madura, foi extremamente prazeroso. Até que, num determinado momento, encontrei meu atual marido, ele começou a apostar todas as fichas nessa relação", lembra Márcia, que, a princípio, não procurava necessariamente uma relação estável e usava essencialmente aplicativos como Tinder e o Happn. "A gente teve um entendimento bom e pensei que ou eu dizia para ele que 'estava na pista' e que ele era 'mais um' ou então eu teria que encarar isso".

A brasileira decidiu encarar o namoro. "Fomos nos apaixonando aos poucos. Fomos construindo essa paixão. Não foi paixão à primeira vista. Ele queria casar depois do segundo mês, para que eu pudesse ficar aqui, já que não tenho cidadania europeia e eu disse para esperar e ver se a gente se gostava primeiro", conta. Depois de um período-teste de férias de dois meses no Brasil, a historiadora voltou decidida a retomar a história com o francês, entregou o apartamento em Montreuil, nos arredores de Paris, e se mudou para a cada de Jean-Yves, no 12° distrito da capital francesa.

Amigas trocadas por "duas de 25"

No Brasil, no entanto, a escritora vê uma situação completamente diferente da França. "Todas as minhas amigas lá foram trocadas por 'duas de 25'. Antes de ser trocada, eu percebi que meu casamento havia acabado e quis me separar. Não foi fácil na época, foi bem duro. Fiquei um tempão jogada às baratas. Na época em que me separei, ainda não havia essa facilidade dos aplicativos", avalia.

"Existe um preconceito enorme contra mulheres mais velhas no Brasil. Sobretudo se você é culta, intelectual. Parece que você amedronta. Você atrai homens mais jovens, com quem você pode sair, dar uma transadinha, mas para por aí, não há como entabular uma relação", diz. "Aqui na França, os homens sabem o querem, vão atrás. As mulheres têm muito mais facilidade de achar um companheiro na sua faixa etária que não se sinta ameaçado se elas forem bem-resolvidas, financeiramente independentes, muito pelo contrário", afirma.

"Achei interessante, porque o que mais chamou a atenção do meu atual marido no Tinder, sobre o meu perfil, foi, segundo ele, a minha "aura de escritora". No Brasil, seria 'peitinho empinado e bundinha dura'. Lá, ser a mais gostosa do quarteirão é mais importante do que ter 28 livros publicados", analisa Márcia.

Segundo dados da ONU, a quantidade de pessoas com mais de 60 anos no mundo é atualmente de 962 milhões: um número que tende a aumentar nas próximas décadas. Em 2030, serão 1,4 bilhão de idosos em todo o planeta. Na França, segundos dados atualizados pelo site de encontros Meetic, os sêniores são cerca de 9 milhões na França.

O mercado parece ilimitado num mundo que envelhece com maior expectativa de vida, principalmente em países considerados desenvolvidos. Se 'combinar direitinho', como diz o famoso meme que circula na internet brasileira, 'todo mundo se arranja'. Ou pelo menos transa, o que, num mundo de bits & bytes, não parece assim ser uma coisa ruim.

*nomes fictícios a pedido dos entrevistados

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