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França/Visa d'Or

Reportagem que revelou uso de armas francesas no Iêmen vence festival de fotojornalismo

Parte da equipe do site Disclose recebe o prêmio Visa D'Or de informação digital. 05/09/2019
Parte da equipe do site Disclose recebe o prêmio Visa D'Or de informação digital. 05/09/2019 Foto: Anthony Ravera / RFI

A reportagem "Made in France", que revelou o uso maciço de armas francesas na guerra do Iêmen, venceu o prêmio – Visa D’Or de informação digital– do Festival de Fotojornalismo Visa pour l’Image de 2019, realizado atualmente em Perpignan (sul). Seis fotógrafos assinam o trabalho publicado pelo site de investigação Disclose.

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Enviado especial a Perpignan

A reportagem premiada mostra a crise humanitária provocada pela guerra no Iêmen, que já deixou milhares de civis mortos nos últimos cinco anos. Os jornalistas Mathias Destal, Geoffrey Livolsi, Lorenzo Tugnoli, Michel Despratx, Aliaume Leroy e Tom Flanery assinam o trabalho de investigação. O site Disclose revelou documentos confidenciais que confirmam o uso de armas francesas no conflito. Paris sempre negou a utilização de seu material militar contra civis no país árabe, um dos mais pobres do Oriente Médio.

“A ONU disse que essa investigação não tinha provas, e publicou alguns dias atrás um relatório sobre a guerra no Iêmen e neste documento estima que a França, os Estados Unidos e a Inglaterra são cúmplices de possíveis crimes de guerra que acontecem atualmente no Iêmen. A transferência de armas para a Arábia Saudita e para os Emirados Árabes Unidos é potencialmente ilegal. O governo (francês) não pode então dizer que 'vendemos armas mas elas não são usadas contra civis'. Esta é uma vitória também para todas as pessoas, Ongs, que se mobilizam para que essa guerra não seja mais invisível e que o Estado francês assuma suas responsabilidades”, disse Livolsi durante a cerimônia de entrega do prêmio.

O ministro da Cultura francês, Franck Riester, estava na plateia do evento.      

Guerra de muitas crises

O italiano Lorenzo Tugnoli, que integra a equipe de investigação, expõe no Festival um trabalho paralelo sobre a situação no Iêmen.

Ele viajou duas vezes no último ano ao país mais pobre da península arábica, acompanhado de um repórter do jornal americano The Washington Post.

Juntos percorreram durante cerca de dois meses diversas regiões de um país mergulhado no caos e atravessando uma crise humanitária que não poupa a população civil e se tornou um desafio para a ONU e organizações não governamentais.

De acordo com cálculos das Nações Unidas, a guerra civil, que se transformou num conflito geopolítico, lançou 14 milhões de iemenitas na fome. Dados de 2015 contabilizavam mais de 10.000 mortos no país.

Na exposição “A crise do Iêmen”, que integra a programação do principal festival de fotojornalismo, Lorenzo retrata as diversas faces do conflito que se tornou geoestratégico.

Apoiado por uma coalizão internacional liderada pela vizinha Arábia Saudita, o governo reconhecido oficialmente pela comunidade internacional, enfrenta diferentes milícias e os rebeldes huthis, apoiados pelo Irã.

Diante da complexidade da situação local, ele optou por exibir seu trabalho de maneira cronológica e dividida pelas regiões que frequentou.

A fotógrafo italiano Lorenzo Tugnoli explica para os visitantes da exposição "A crise no Iêmen" o trabalho realizado no país.
A fotógrafo italiano Lorenzo Tugnoli explica para os visitantes da exposição "A crise no Iêmen" o trabalho realizado no país. Foto: Elcio Ramalho/RFI

Durante a visita guiada pela exposição, Lorenzo explicou ter chegado ao Iêmen pela primeira vez quando as forças governamentais avançavam do sul para reconquistar Hodeida, importante cidade portuária no leste, controlada pelos rebeldes.

A ofensiva provocou a retirada de muitos moradores, que migraram em direção à Aden, grande cidade do sul. Lorenzo captou as dificuldades encontradas pelos migrantes que passaram a se abrigar em campos de refugiados ou locais improvisados e sem infraestrutura.

A foto que abre a exposição mostra uma mulher solitária em uma casa parcialmente destruída por bombardeios. Na sequência, uma série de registros revela as condições precárias de moradia para os que são obrigados a fugir dos combates.

 

Moradores em um acampamento de refugiados depois de fugirem dos conflitos em Hodeida.
Moradores em um acampamento de refugiados depois de fugirem dos conflitos em Hodeida. © Lorenzo Tugnoli / The Washington Post / Contrasto - Réa

“As condições foram muitos difíceis porque, além da dificuldade de entrar no país, é complicado se deslocar dentro do Iêmen. É preciso negociar o tempo todo com as diferentes milícias para ter acesso a muitos lugares”, explicou o fotógrafo.

Nestas regiões controladas pelos milicianos, Lorenzo diz que a situação é extremamente perigosa para seu trabalho. As diferentes milícias lutam contra tropas do governo, mas também entre si. Estar no fogo cruzado é uma risco constante.

Em uma ocasião, o italiano testemunhou o ataque aéreo a uma festa de casamento, que deixou 20 mortos. O governo diz não ter visado os civis.

No norte do Iêmen, Lorenzo registrou homens fortemente armados com equipamentos vindos dos Estados Unidos e também da França. A região era controlada pela célula local da rede terrorista Al-Qaeda até 2014.

Segundo Lorerno Tugnoli, poucos pescadores saem ao mar devido ao medo de ataques aéreos.
Segundo Lorerno Tugnoli, poucos pescadores saem ao mar devido ao medo de ataques aéreos. © Lorenzo Tugnoli / The Washington Post / Contrasto - Réa

Drama humanitário

A dificuldade do acesso da população aos cuidados médicos é um dos temas centrais da exposição. Além da pouca estrutura de hospitais e clínicas, como a de Aslam, no noroeste do país, há falta de material e medicamentos. Muitos pacientes devem esperar do lado de fora devido à falta de leito e esses desafios não escaparam das lentes do fotógrafo.

Nas regiões rurais, o drama de famílias inteiras comoveu visivelmente o fotógrafo. Bebês e crianças morrem de desnutrição, relata.

Uma das fotos mostra uma menina de 5 anos sendo atendida por um médico. "Ele disse que o problema da criança era comida e não de doutor", contou.

Em Aslam, Abdo, um menino de três anos, pode morrer de desnutrição.
Em Aslam, Abdo, um menino de três anos, pode morrer de desnutrição. © Lorenzo Tugnoli / The Washington Post / Contrasto - Réa

Pais muitas vezes têm que optar por alimentar os filhos com mais chances de sobrevida, deixando os mais frágeis pelo caminho.

Na capital Sanaa, Lorenzo constatou que não falta comida nas feiras livres e supermercados. Mas sem dinheiro e por causa da inflação alta, os moradores não têm condições de comprar alimentos.

“Já trabalhei em muitos conflitos, mas o que mais me impressionou foi a extensão da crise humanitária. Estive, por exemplo, no Afeganistão. Mas o nível de problemas no Iêmen, como a fome, a falta de saúde e a má nutrição realmente não tem comparação com nenhuma outra região do mundo”, assegura Lorenzo, que fica baseado em Beirute.

O fotógrafo pretende voltar ao Iêmen para uma nova fase de investigação sobre a situação do país mais pobre da península arábica, mas ainda aguarda o visto de entrada.

A exposição “A crise no Iêmen” pode ser vista até o dia 15 de setembro no 31° Festival de Fotojornalismo de Perpignan.

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