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França/Brasil

“Viramos motivo de chacota”, diz brasileira sobre a imagem do Brasil na França

Jair Bolsonaro e o filho Flávio Bolsonaro após votarem no primeiro turno da eleição presidencial brasileira, em 7 de outubro de 2018.
Jair Bolsonaro e o filho Flávio Bolsonaro após votarem no primeiro turno da eleição presidencial brasileira, em 7 de outubro de 2018. MAURO PIMENTEL / AFP

A reportagem da RFI ouviu vários brasileiros que moram na França para saber como está a imagem do Brasil no exterior desde a chegada de Jair Bolsonaro ao poder. Todos apontam um desgaste na visão que os franceses têm do país nos últimos meses.

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Ana* é brasileira e mora na França há mais de três décadas. Neste mês de setembro, ao voltar de férias do Brasil, para onde vai quase todos os anos, se surpreendeu com o número de pessoas que vieram procurá-la, na sua empresa, para comentar as declarações recentes do presidente Jair Bolsonaro. “Antes, as pessoas queriam ver fotos, perguntavam sobre o que fiz nas férias, agora, todos vêm falar de política”, conta ela.

“Pessoas que eu mal conheço vieram me perguntar se era isso mesmo, se o presidente do Brasil tinha dito aquilo mesmo – eles se referiam às frases sobre Brigitte Macron, entre outras – ou se tinha sido um erro de tradução”, diz ela, concluindo: “O Brasil virou o assunto da pausa para o cafezinho”.

A empresa (francesa) em que Ana trabalha tem 200.000 funcionários e está presente em cem países, entre eles o Brasil. Ana encara com naturalidade o fato de ser procurada por colegas de trabalho para “esclarecer a situação”, já que o assunto saiu das páginas de política internacional dos jornais e programas especializados e ganhou a mídia de massa, principalmente a televisão.

“Eu passei a semana dizendo que é isso mesmo, é horrível, mas que nós, brasileiras, reagimos a isso e até entregamos um abaixo-assinado no Palácio do Eliseu em solidariedade a Brigitte Macron”.

Vivendo na França há 30 anos, o professor de Literatura Brasileira na Sorbonne (Paris IV), Leonardo Tonus, define como “lamentável” a imagem que o Brasil atual passa para o exterior. Ele explica que o país sempre teve uma representação forte. “Hoje a imagem continua sendo forte, todo mundo conhece o Brasil. Mas a ambiguidade viria pelo fato de o Brasil gozar agora de uma imagem de um país violento, racista, genocida e ecocida”.

Segundo Tonus, ainda é cedo para medir o impacto dessa mudança. “Acho que este impacto vai ser melhor percebido no próximo ano, se houver, por exemplo, boicotes a produtos brasileiros, ações da população que colocam em questão a imagem do Brasil. No meu caso, como professor, se houver uma diminuição no interesse cultural pelo país, do interesse de estudantes que queiram estudar o português para ir para o Brasil, como era antigamente”.

“O que eu posso dizer é a partir da minha experiência. No meu dia a dia, em Paris, a primeira coisa que as pessoas me perguntam é: como e por que o Brasil está atravessando esta crise atual. As pessoas não conseguem entender. Estes comentários se desdobram muitas vezes em comentários de pêsames pelo estado em que se encontra o país atualmente. E o fato de amigos e conhecidos franceses, que tinham por hábito ir ao Brasil com frequência, se recusarem a voltar para o Brasil enquanto não houver uma mudança no projeto governamental”, conta Tonus.

O professor de Literatura Brasileira da Sorbonne, Leonardo Tonus.
O professor de Literatura Brasileira da Sorbonne, Leonardo Tonus. RFI/Paloma Varon

Diplomacia e soft power

“Amazônia, meio ambiente, populações ameríndias, mulher, minorias, negros, homossexuais... a lista de razões para não voltarem ao Brasil é longa. É isso que ajuda a deteriorar esta imagem que levou 30 anos para se construir na França e fora do país”, explica Tonus.

De acordo com Tonus, a representação de um país nunca é estática e ela pode variar no decorrer do tempo. “Ela pode ir mudando graças a uma política estratégica implantada pelo país, o que foi o caso do Brasil desde os anos 90, por meio de duas coisas, principalmente: diplomacia cultural e soft power”.

Para ele, a visão de um país no estrangeiro é fruto de diversos fatores. “Políticas públicas, sociais e ambientais, o turismo, questões econômicas, exportação, eventos internacionais, culturais, esportivos e políticos, relações culturais e acadêmicas que se estabelecem entre os países, compromissos políticos e estratégicos, na questão do desenvolvimento social, redução da pobreza, das desigualdades, combate ao racismo, ao feminicídio, à homofobia, engajamento em instituições bilaterais. São estes elementos que vão contribuir para a construção da imagem de um país”.

“Ao mesmo tempo”, lamenta Tonus, “são eles também que têm participado do processo de destruição da imagem do Brasil desde o golpe de 2016, já com o governo Temer, mas ele se acentua e se torna explícito no governo Bolsonaro. Se a gente pensar nas catastróficas políticas sociais implantadas no Brasil, na crise ambiental que atravessa o Brasil por conta, justamente, da política ambiental implementada pelo atual presidente. Até o turismo tem sofrido. Sem falar, é claro, das políticas cultural e de pesquisa acadêmica, inexistentes no atual governo. São ações que vêm destruir o que se construiu ao longo de tantos anos. O impacto exterior é muito grande”.

Tonus relembra a história da reconstrução da visão do Brasil na França no período da redemocratização. “No momento da transição democrática, houve uma vontade de se criar um projeto de cooperação bilateral entre o Brasil e a França tendo como elemento de alavanca a cultura, o Projeto França-Brasil, que foi assinado pelo François Mitterrand ainda com o Tancredo Neves, embora tenha sido o Sarney que o recebeu no Brasil em 1985”.

O então presidente francês foi o primeiro chefe de Estado a visitar o país assim que ele saiu da ditadura.

“Isso fez com que houvesse uma série de eventos culturais, exposições, diversos shows, a criação de uma cátedra de História Brasileira na Sorbonne. Uma série de medidas que aproximaram os dois países não só pelo aspecto econômico, mas sobretudo pelo cultural. Colóquio de imagens recíprocas entre o Brasil e a França. Um projeto a longo prazo para remodelar a imagem de um país que deixa a ditadura e se torna um país democrático”, continua.

“Isso vai num crescendo que chega ao Ano do Brasil na França (2005), ao Ano da França no Brasil (2009), e à presença de autores brasileiros nas feiras de livros aqui na França...”, relembra Tonus, ele mesmo curador do Salão do Livro de Paris, em 2015, que homenageou o Brasil, e contou com a presença de 48 autores brasileiros.

“Tudo o que foi feito, principalmente a partir dos anos 90 era para reduzir a imagem exótica, redutora, que limitava o Brasil ao país do futebol, das praias, do Carnaval ou então da violência, para mostrar um país que tinha então um poder de crescimento econômico, um poder de combate à pobreza. Isso até 2016”, cita.

Tonus acha que os franceses sempre souberam fazer esta divisão entre o povo e os governantes. “Eles sempre tiveram um carinho pela população brasileira. E um governo que não representa esta população. Mas é claro que vai haver um momento em que vai haver uma escolha da população francesa em relação a isso. Apoiar atualmente economicamente o Brasil é apoiar o governo, então eu acho que isso, infelizmente, vai gerar uma posição mais crítica ainda e eu acredito em possíveis boicotes a produtos brasileiros, inclusive de produtos culturais, o que para mim seria uma perda lastimável”, conclui.

De país promissor a motivo de chacota

Patrícia Enderlé mora há 15 anos na França e acha que “a imagem do Brasil mudou bastante”. “No início, quando cheguei aqui, muitas pessoas ainda me faziam perguntas simples como: no Brasil tem telefone celular? Muitas pessoas tinham uma ideia de um país bonito, com pessoas gentis, mas bem precário. Logo em seguida, a França conhecia a crise europeia e o Brasil estava em plena ascensão, era um país promissor e emergente. Sou engenheira e quando cheguei tive a oportunidade de começar a trabalhar para uma escola de línguas que pedia uma pessoa que falasse português especificamente do Brasil para formar expatriados que iriam em missão, a trabalho por meses ou anos”.

“Muitas pessoas que tinham chegado na França antes de mim voltavam a viver no Brasil nessa época porque as condições de trabalho eram favoráveis. Apesar da corrupção existente, Fernando Henrique e Lula construíram um mercado brasileiro muito favorável. Desde o impeachment e da campanha do Bolsonaro 2016 já começaram os burburinhos. Afinal o Trump foi eleito quando parte não acreditava que ele seria. E o Bolsonaro começava a ser conhecido aqui como o novo Trump. Ele foi eleito, e como é superpolêmico, desde então vejo sim, uma mudança”, afirma.

“No meu trabalho e com as minhas relações, isso não me afeta. Mas acho que pode sim haver hostilidades entre franceses e brasileiros que vivem aqui”, avalia Patrícia.

Patrícia Enderlé mora há 15 anos na França.
Patrícia Enderlé mora há 15 anos na França. Arquivo pessoal

A professora Jeaninne Santos, no entanto, conta ter sentido mudanças na vida dela e dos brasileiros expatriados ao seu redor. Para ela, que chegou à França há quatro anos, a eleição e os primeiros meses do mandato de Bolsonaro afetam não só a imagem do país na França como a vida dos brasileiros que vivem aqui. “Com esta eleição, os brasileiros se tornaram na visão internacional um povo ignorante. Multicultural, mas que flerta com centenas de preconceitos ou simplesmente motivo de chacota”.

“O comentário sobre a esposa do presidente francês mostra, além de desrespeito, uma grande imaturidade que não coincidem com o cargo de um presidente de uma nação. Isso afetou a mim e muitos conhecidos, viramos motivo de piadas, silêncios desagradáveis entre colegas ou passamos por momentos embaraçosos quando os franceses nos assinalam a falta de respeito do presidente brasileiro, e eles veem com esse novo governo como o povo brasileiro é ignorante”, fala.

Na França há 25 anos e trabalhando em uma grande multinacional, Flávia* teve experiência semelhante à de Patrícia. “Nesse meio tempo acompanhei duas mudanças no olhar dos franceses em relação a nós: primeiro a imagem era simpática, mas bastante ‘exótica’, caricatural: samba, praia, futebol, Carnaval. Com a chegada do Lula ao poder a imagem foi mudando de forma bastante positiva, e as perguntas eram sérias, do tipo ‘Como posso fazer pra trabalhar lá?’. Não era mais aquela coisa folclórica, quase condescendente”, relata.

“E desde a eleição do Bolsonaro, sabendo que desde que cheguei trabalho na mesma empresa, me conhecem bem e gostam de mim e do meu trabalho, o que acontece mais são umas curtidas com a minha cara, do tipo ‘Viu a última do seu presidente?’. De vez em quando me perguntam como uma eleição dessas foi possível. Pouco a pouco, estamos voltando a ter uma imagem folclórica, mas no sentido de termos botado um fascista no poder”, finaliza Flávia*.

Ana* e Flávia* preferiram não dar os seus nomes verdadeiros, para não se exporem nem as empresas nas quais trabalham.

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