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Teatro/França/Brasil

Célebre diretora do Théâtre du Soleil, Ariane Mnouchkine inicia conversas para produzir artistas brasileiros na França

A diretora Ariane Mnouchkine, às portas do mítico Théatre du Soleil, em Paris, fazendo uma das coisas que mais aprecia: receber o público na entrada do teatro, há mais de 50 anos.
A diretora Ariane Mnouchkine, às portas do mítico Théatre du Soleil, em Paris, fazendo uma das coisas que mais aprecia: receber o público na entrada do teatro, há mais de 50 anos. Divulgação

Aos 80 anos, Ariane Mnouchkine não para quieta. Entre o fim da temporada brasileira de As Comadres, as apresentações previstas ainda este ano na Europa e a retomada de Une Chambre en Inde (Um quarto na Índia, em português) em seu mítico Théâtre du Soleil, em Paris, a diretora francesa concedeu entrevista exclusiva à RFI direto do Japão, onde se encontra num ritmo alucinantes de viagens desde agosto. Mnouchkine está no país para receber o Prêmio de Kyoto, condecoração concedida a criadores como Pina Bausch e Peter Brook, que visa premiar contribuições importantes ao desenvolvimento civilizatório em diversas áreas, mas também para realizar pesquisas para seu próximo espetáculo. No cardápio do papo com a diretora francesa, a nova peça de inspiração japonesa, a função do teatro nos tempos atuais, a censura velada denunciada por artistas de teatro no Brasil e o futuro de sua trupe na França.

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A resposta veio inesperada, mas certeira: mesmo com as dificuldades encontradas pela enorme diferença de fuso (7h), Ariane Mnouchkine se dispôs prontamente a falar sobre a recente escalada de cancelamentos e adiamentos de espetáculos teatrais no Brasil, que vêm levantando entre a classe artística a suspeita de censura.

“Estou muito inquieta e tenho relatos frequentes de artistas brasileiros sobre a situação de censura, causada pela chegada desta personalidade [Jair Bolsonaro] ao poder. O Brasil mudou radicalmente para uma espécie de nacionalismo louco, estou triste e horrorizada”, afirma Mnouchkine, diretora que encena e produz teatro há mais de 50 anos na França.

“A tomada de poder por Bolsonaro segue uma metodologia específica, que é a mesma do Brexit e dos movimentos comandados pelo [ex-conselheiro de Trump] Steve Bannon no mundo. No entanto, guardo um profundo otimismo e acredito que os povos vão acabar se rebelando contra este tipo de autoritarismo”, diz ela. “É terrível, essa máquina de mentiras funciona muito bem, mas os artistas - e essa deve ser a nossa principal função -, devem trabalhar para encontrar um antídoto”, pontua.

Para ajudar os artistas brasileiros em dificuldades, Ariane Mnouchkine começou por iniciativa própria a procurar grandes diretores e programadores de teatro de Paris e do resto da França, para pensar formas de fornecer “uma ajuda material e artística”, um “sopro de renovação” aos atores e diretores deste país que ela conhece tão bem, e com quem possui uma relação privilegiada.

As conversas ainda se encontram em seu começo, mas a lista dos diretores contatados impressiona, trazendo nomes como Catherine Marnas, diretora do Teatro Nacional Bordeaux Aquitaine (TNBA); Emmanuel Demarcy-Mota, um dos nomes mais importantes do teatro em Paris, diretor do Théâtre de la Ville e do Festival de Outono; Thomas Quillardet, diretor de teatro, organizador da leitura de “Cartas a Lula”, e um dos programadores do teatro Monfort, na capital francesa, além de Sarah Jamaleddin, do coletivo Musée Sauvage, em Argenteuil, que recebeu recentemente a trupe Labirinto Teatro, de São Paulo.

Japão

Sobre o Prêmio de Kyoto, Ariane se mantém modesta: “é o resultado de um longo trabalho”. “O Japão é um país onde sempre quis passar mais tempo, e é chegada a hora. É preciso passar pelo Japão para se sentir japonês”, brinca a diretora, que recebe a honraria entre os dias 9 e 11 de novembro na cidade homônima, famosa pelos numerosos templos budistas e palácios imperiais.

Mas Mnouchkine é uma diretora que não para, e confessou que aproveita para fazer in loco pesquisas para seu próximo espetáculo. “Não posso contar do que se trata ainda. Posso apenas dizer que é um trabalho que usa o Japão como metáfora, mas não é sobre o Japão”, antecipa.

Papel do teatro

Venho de uma geração que acreditou que a democracia estava conquistada”, diz Mnouchkine, testemunha e integrante do famoso Maio de 68 na França. “Venho de um mundo antigo. Mas vemos bem que mesmo democracias velhas, como a da França e a da Itália, sofrem com ataques internos e externos”, avalia.

“O papel do teatro hoje é essa busca incessante da verdade, no meio dessa paixão pela mentira, vinda de todas as cores políticas, não apenas da direita, como também da esquerda. O trabalho do artista é a busca de um justo equilíbrio entre duas verdades. Não existe apenas uma verdade”, completa Ariane.

Sobre o futuro do histórico Théâtre du Soleil, ela diz que “ainda não sabe”. “Ainda não pensei seriamente sobre isso. Mas é algo muito presente em nossas conversas atualmente, quem deverá me substituir etc, mas ainda não definimos nada, é algo a ser pensado, a sucessão”, conclui Mnouchkine.

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