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Protestos no Chile

Manifestantes chilenos são os “coletes amarelos” latinos?

Uma barricada em chamas bloqueia uma rua enquanto manifestantes protestam contra o governo do Chile em Concepción, Chile, 6 de novembro de 2019.
Uma barricada em chamas bloqueia uma rua enquanto manifestantes protestam contra o governo do Chile em Concepción, Chile, 6 de novembro de 2019. REUTERS/Jose Luis Saavedra

Protestos violentos, prolongados no tempo, sem liderança definida – e com uma profunda rejeição dos partidos políticos -, para pedir a demissão do governo e a refundação do sistema. As semelhanças não são poucas entre o movimento dos coletes amarelos, prestes a fazer um ano na França, e os manifestantes que ocupam as ruas do Chile desde meados de outubro.

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“A comparação salta aos olhos. O contexto nos dois países é bastante diferente, mas até a resposta do governo chileno tenta se parecer com a de Emmanuel Macron na França”, afirma Franck Gaudichaud, historiador especialista no Chile contemporâneo e professor da universidade francesa de Toulouse 2 – Jean Jaurès.

A exemplo do líder francês, Piñera lançou uma consulta popular para ouvir as demandas prioritárias da população diante dos protestos, que se iniciaram contra o aumento da tarifa da passagem de metrô e se ampliaram para uma série de demandas, em especial por mais igualdade social no país.

Transportes: estopim da insatisfação

Na França, o estopim foi semelhante – um imposto sobre os combustíveis. Na sequência de uma contestação social que teve o ápice em dezembro de 2018, o governo promoveu três meses de debates em centenas de localidades, para ouvir a população e acalmar as ruas. Até hoje, porém, os coletes amarelos manifestam.

Manifestantes se abrigam durante protesto contra o governo do Chile em Santiago, Chile, em 6 de novembro de 2019.
Manifestantes se abrigam durante protesto contra o governo do Chile em Santiago, Chile, em 6 de novembro de 2019. REUTERS/Pablo Sanhueza

O cientista político chileno Daniel Grimaldi, professor da Universidade Central de Santiago e doutor pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS), da França, ressalta que os discursos e as demandas que emanam dos protestos são distintos, já que as realidades sociais e econômicas de Paris e Santiago são diferentes. O Chile é um dos países mais desiguais do mundo: 1% da população concentra 33% das riquezas nacionais.

Distante da revolução

Porém, Grimaldi observa que, em comum, os dois movimentos contestam o regime representativo e seus dirigentes políticos e econômicos. Os coletes amarelos pediam o fim da 5ª República francesa, enquanto os chilenos querem uma nova Constituição.

“Muita gente ligou essa desigualdade a uma arquitetura institucional prevista na Constituição. Uma mudança constitucional poderá representar uma mudança de sistema”, afirma o professor chileno. “Isso é algo que vai se definir a médio prazo. Por enquanto, não é claro que alguma coisa vá mesmo mudar. Ainda é cedo para falar em revolução”, frisa.

Pessoas fogem de gás lacrimogêneo em protesto contra o governo do Chile em Santiago, Chile, 6 de novembro de 2019.
Pessoas fogem de gás lacrimogêneo em protesto contra o governo do Chile em Santiago, Chile, 6 de novembro de 2019. REUTERS/Henry Romero

Na França, Gaudichaud concorda. “É um exagero falar em revolução. Há uma revolta social, confrontos urbanos, um grande movimento, bastante radical, mas não é uma revolução no sentido literal”, argumenta o pesquisador, que estuda o Chile há mais de 20 anos e, em 2015, já escrevia sobre as fissuras do neoliberalismo no país.

“Não creio em uma transformação completa do Estado, do sistema político. O Chile ainda está muito longe disso – sequer sabemos se haverá uma nova Constituição”, afirma.

O cientista político destaca que grupos de cidadãos de direita chilenos tentaram se apropriar do imaginário dos coletes amarelos: adotaram a vestimenta para proteger suas propriedades contra o vandalismo dos protestos. “Ou seja, o que fizeram não teve nada a ver com os verdadeiros coletes amarelos franceses”, sublinha Grimaldi.

Sinais de insatisfação desde 2006

Os dois especialistas consideram que os sinais de uma ruptura do modelo liberal em vigor desde Pinochet começaram a ficar evidentes em 2006, com uma forte greve dos mineiros. A contestação voltou em 2011, com intensos protestos estudantis. Nas eleições de 2017, que resultaram na posse do conservador Sebastián Piñera, as insatisfações com as desigualdades estavam tão latentes que a coalizão de esquerda obteve o resultado inédito de 20% dos votos, atrás do segundo colocado de centro-esquerda, Alejandro Guillier, apoiado pela ex-presidente Michele Bachelet.

“Há uma classe política, para não dizer uma casta política, extremamente desconectada da sociedade. Qualquer estudioso que observa o Chile via que o país estava à beira da explosão”, avalia Gaudichaud.

A última pesquisa de opinião sobre as manifestações, divulgada nesta terça-feira (5), mostrou que, apesar da violência, os atos recebem um forte apoio da população: 87% dos chilenos pensam que é bem-vinda a instalação de uma Assembleia Constituinte.

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