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Reportagem

Morte de estagiário chama atenção para abusos no mercado financeiro

Áudio 04:40
O estagiário Moritz Erhardt, que morreu após trabalhar 72 horas seguidas em Londres.
O estagiário Moritz Erhardt, que morreu após trabalhar 72 horas seguidas em Londres. Reprodução Youtube

A morte de um estudante da Universidade de Michigan, que fazia estágio no Bank of America-Merrill Lynch em Londres, chamou a atenção para os esforços sem limites dos estudantes em busca de uma oportunidade profissional em um ambiente profissional altamente competitivo. As circunstâncias da morte ainda não foram esclarecidas, mas Moritz Erhardt faleceu após 72 horas consecutivas de trabalho, provavelmente após um ataque epilético.

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As jornadas intermináveis de trabalho são conhecidas por serem a regra para quem opera nas bolsas de valores. Mas a psicóloga e orientadora em comportamento financeiro, Patrícia Rezende, observa que só aceitam esta condição de vida aqueles que têm um nível de exigência pessoal bastante elevado.

“Provavelmente ele já tinha propensão a isso. Não foi o mercado financeiro que causou isso nele”, destaca Rezende. “A questão da pressão externa existe, sim, mas o principal é que o individuo se cobra. É da pessoa, e é o que a mantém em um clima tenso de trabalho.”

O estudante alemão estava na última das sete semanas de estágio no banco. Ele recebia um salário de 3.156 euros mensais.

A psicóloga econômica Vera de Mello Ferreira, autora de livros como A Cabeça do Investidor, avalia que a falta de percepção sobre os limites do próprio corpo é um dos fatores que levam alguns profissionais ao esgotamento no trabalho. “A dificuldade de autopercepção sobre os próprios limites é uma característica comum a todos os seres humanos”, explica. “E tem também a questão do comportamento de manada: se um olha para o outro e vê que ele está fazendo uma coisa parecida, ele pensa: “’eu não posso ficar de fora’”, afirma Ferreira.

O administrador Gustavo Brunetto fez carreira no mercado financeiro e lembra quando, no início da profissão, não contava as horas diante do computador, tudo para atrair a atenção dos chefes. E eles fingiam não perceber que os estagiários ultrapassavam a carga horária.

“Quando a gente é novo e quer entrar no mercado de trabalho, a gente se predispõe a isso. Eu me sentia assim. Nunca me disseram que eu tinha que fazer, mas eu sentia que eu precisava mostrar serviço”, relata. Nesta época, os almoços em apenas 15 minutos eram comuns, e ele chegou a ficar cinco anos sem férias.

Hoje, Brunetto é sócio-diretor de uma das corretoras onde começou como estagiário. Ele conta que, mesmo que quisesse, não poderia impor um ritmo de trabalho desenfreado aos seus estagiários, depois que a legislação trabalhista se tornou bem mais rígida no Brasil. “É ilegal, não pode. O estagiário não pode sentar na mesa de operações de uma corretora e sair comprando e vendendo”, diz.
 

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