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O Mundo Agora

O Iraque é cada vez menos um país soberano e cada vez mais um campo de batalha

Áudio 04:56
O Governo iraquiano perdeu o controlo de Falouja, cidade tomada por combatentes ligados à Al-Qaida.
O Governo iraquiano perdeu o controlo de Falouja, cidade tomada por combatentes ligados à Al-Qaida. AFPPHOTO/STR

A invasão americana do Afeganistão e do Iraque foram dois tremendos pontapés no formigueiro do Oriente Médio. Mas a retirada das tropas do Tio Sam transformou a região numa sangrenta guerra de todos contra todos. Temos que encarar a verdade: sem a presença americana e ocidental não há condições de manter um mínimo de estabilidade entre o Golfo e o Líbano. A ocupação da cidade de Fallujah, na província sunita de Ambar no Iraque, por uma organização guerrilheira ligada aos terroristas da Al-Qaeda, é o símbolo máximo da desagregação de qualquer forma de instituição política na região.

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A falta de tutano das grandes potências ocidentais para tentar resolver a guerra civil na Síria e o cinismo do apoio de Moscou ao regime de Bachar Al-Assad abriram a caixa de Pandora. O conflito na Síria está se espalhando para o norte do Líbano e para o Iraque, com grupos sunitas guerreando contra xiitas, terroristas sunitas da Al-Qaeda atacando organizações sunitas mais moderadas, e curdos avançando silenciosamente para tentar constituir o primeiro Estado curdo da história. O Iraque é cada vez menos um país soberano e cada vez mais um imenso campo de batalha, testemunhando o fracasso completo do governo do xiita Ali Al-Maliki. A Síria implodiu completamente e praticamente acabou. Enquanto que o Líbano está revivendo a onda de atentados que no país sempre podem anunciar a volta da guerra civil. Quando os gatos são omissos, as ratazanas aproveitam. De tanto não fazer nada, com medo de dar trela para os extremistas islâmicos, os Ocidentais criaram todas as condições para que os mesmos proliferassem na região inteira. E pior ainda, as potências regionais, diretamente ameaçadas pelo caos, não podiam deixar de intervir para defender seus interesses imediatos.

Em vez de terem que aturar americanos, ingleses ou franceses, a região agora tem que aturar o jogo sujo do Irã, da Arábia Saudita ou da Turquia. Cada um buscando impedir que outro ganhe espaço estratégico pela manipulação das organizações e grupos violentos que se digladiam nesses territórios empapados de sangue e percorridos por milhões de refugiados sem rumo.

Ninguém sabe mais quando a região poderá voltar a um mínimo de estabilidade, nem qual será a sua nova configuração política. Os Estados que a compõem ainda existirão daqui a dez anos? Mistério. Uma coisa é certa: esta situação absolutamente trágica vai durar e já está transformando radicalmente a geopolítica regional.

A novidade mais espetacular é a lenta melhoria das relações entre os Estados Unidos e o Irã e o consequente mal humor da Arábia Saudita, tradicional aliado e cliente dos americanos. E não é só a abertura das negociações entre Washington e Teerã sobre o programa nuclear iraniano.

Para o espanto geral dos governos sunitas, os Estados Unidos e o Irã acabam de oferecer uma ajuda militar ao governo xiita iraquiano para combater os djadistas que tomaram Fallujah. A maior preocupação dos regimes do Golfo é terem que enfrentar novamente a velha aliança iraniana-americana destruída quando da chegada do aiatolá Khomeini ao poder.

Só que até os grandes atores estatais da região também estão cada dia mais frágeis. A grande estratégia iraniana de construir um “arco xiita” indo do Hezbollah libanês ao governo iraquiano de Maliki está afundando no lamaçal de guerras e terror alimentado pelo conflito na Síria. Teerã hoje, está cada vez mais isolado e decidiu se agarrar nos Estados Unidos. Os Saud estão sentados num vulcão social e tentam escapar ajudando os grupos armados sunitas.

Só que isto também ajuda os terroristas da Al-Qaeda inimigos figadais do regime de Riad. E a Turquia em plena crise política interna se embaralha toda sustentando perigosos guerrilheiros sunitas extremistas e negociando com os curdos mas sem saber para onde vai. O Oriente Médio sempre foi uma terra de Impérios. Mas quando os Imperadores não querem mais saber de imperar, a região sempre entra num ciclo de massacres sem fim. Até que algum poder externo decida intervir para acabar com a matança.

Clique no botão acima para ouvir a crônica de política internacional de Alfredo Valladão

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