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O Mundo Agora

Europeus estão paralisados diante dos desafios do mundo globalizado

Áudio 04:51
Telão mostra os resultados das eleições europeias dentro do Parlamento, em Bruxelas, neste domingo, 25 de maio de 2014.
Telão mostra os resultados das eleições europeias dentro do Parlamento, em Bruxelas, neste domingo, 25 de maio de 2014. REUTERS/Eric Vidal

As eleições europeias foram um paradoxo ambulante. A primeira lição do escrutínio é "acachapante": os partidos populistas, extremistas de direita e de esquerda, e sobretudo que querem desmanchar a União Europeia, ganharam votos de maneira impressionante. Nas duas grandes e velhas potências europeias ocidentais, a França e a Inglaterra, os inimigos ferrenhos da Europa − a Frente Nacional (FN) e o Partido Independentista do Reino Unido (Ukip) − foram até os grupos políticos mais votados.

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Um verdadeiro terremoto eleitoral nas duas mais antigas democracias do velho continente. De repente, o Parlamento Europeu vai ter 20% de seus membros, que já anunciaram a intenção de acabar com o próprio parlamento, a Comissão e todas as outras instituições comuns criadas desde 1957, e voltar para a total autonomia dos estados nacionais. Só que a segunda lição é que apesar do recuo dos grandes partidos centristas e pró - europeus, a relação de forças no Parlamento não mudou.

A direita tradicional continua com o maior número de deputados seguido pela esquerda social-democrata e os liberais. Apesar dos pesares − mas sem entusiasmo − mais de 70% dos votantes do continente decidiram continuar acreditando no projeto europeu. Um projeto que os ucranianos, que estão de fora e ameaçados pelo vizinho russo, plebiscitaram de maneira estrondosa numa eleição presidencial paralela realizada no mesmo dia. Só que isto também quer dizer que apesar do voto raivoso antieuropeu em vários países importantes, praticamente nada vai mudar em Bruxelas. E isso é muito perigoso.

Claro que a crise econômica, o desemprego e a incapacidade dos políticos em apresentar respostas convincentes explica boa parte do voto de protesto. Mas isso não explica tudo. O fundo da questão é uma angústia difusa, uma sensação cada vez mais forte de que a Europa está em declínio, que não consegue mais se adaptar aos desafios do mundo globalizado e da extraordinária revolução tecnológica que vem da potência americana. Pior ainda, as instituições europeias demonstraram uma incapacidade preocupante na administração da crise econômica dos últimos anos.

Os tecnocratas de Bruxelas desapareceram do mapa e só sobrou a chanceler Angela Merkel para tentar segurar o euro e o futuro coletivo do continente. Um continente ameaçado pelas novas ambições expansionistas russas, pela desordem e o terrorismo na África do Norte e no Oriente Médio, a concorrência dos países emergentes e o declínio de suas indústrias. E não é só Bruxelas que é incapaz de enfrentar essa nova realidade, os governos europeus também estão paralisados. Boa parte da população europeia não acredita mais nos seus líderes nacionais. E é isso que alimenta o populismo e a ideia de que a única solução é varrer todos os políticos e instituições tradicionais.

A tragédia é que essa ilusão de querer se fechar dentro do velho estado nacional, protegido por uma nova elite política que se proclama pura e sem mácula, só pode acelerar a crise e o declínio. No mundo de hoje, um país sozinho se comportando como uma fortaleza ameaçada não tem mais a mínima condição de resolver seus problemas econômicos e sociais internos.

Não é por acaso que os partidos populistas e antieuropeus nunca apresentaram um programa econômico com um mínimo de credibilidade. Eles preferem acusar bodes expiatórios: os imigrantes, os estrangeiros, Bruxelas, a velha classe política e a globalização em geral. O perigo mortal é que na Europa, quando se começa a procurar inimigos externos, a violência nunca fica longe. Quando não sobra mais ninguém para jogar a culpa, sobra sempre os países vizinhos. E desde o século XVI a Europa é o continente que mais guerras teve.

O fato de que a França e a Inglaterra, as nações mais importantes da Europa junto com a Alemanha, estejam caindo na tentação do nacionalismo frustrado e frustrante é um sinal mais do que inquietador, não só para a perenidade das instituições europeias, que garantiram a paz durante mais de meio século, mas também para o próprio futuro da Europa. Os europeus que dominaram o mundo durante 400 anos já se suicidaram duas vezes no século passado. Uma terceira vez, agora, seria fatal. Definitivamente.

Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris (SciencesPo), publica sua coluna às terças-feiras.

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