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Reportagem

Com eleição polarizada, estados “neutros” vão definir segundo turno no Brasil

Áudio 04:08
Os candidatos ao segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, Dilma Rousseff e Aécio Neves.
Os candidatos ao segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, Dilma Rousseff e Aécio Neves. Reuters

Com quase 60% dos votos válidos vindos do Nordeste no primeiro turno das eleições presidenciais do último domingo (5) no Brasil, Dilma Rousseff reafirmou seu domínio na região. No entanto, o resultado suscitou uma série de reações preconceituosas contra a região nordestina e sua população na internet. Cientistas políticos ouvidos pela reportagem da RFI lembram que o preconceito contra nordestinos é histórico no Brasil e que o segundo turno das eleições presidenciais, no dia 26 de outubro, será definido por estados brasileiros onde os votos para Dilma Rousseff ou Aécio Neves ainda não estão cristalizados, como o Rio de Janeiro.

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Taíse Parente, especial para RFI Brasil

A troca de farpas entre norte e sul do país ganhou ainda mais força na última segunda-feira (6), após uma declaração de Fernando Henrique Cardoso. O ex-presidente tucano afirmou em uma entrevista que "o eleitorado do PT vem mudando nos últimos anos" e que a candidatura do partido dos trabalhadores "cresce com o voto dos menos informados".

No dia seguinte, foi a vez de Lula reagir. O ex presidente petista afirmou no facebook que achava "um absurdo que o Nordeste e os nordestinos fossem caracterizados como ignorantes ou desinformados".

Preconceito histórico

Segundo o cientista político Ricardo Ismael, professor da PUC-Rio, as palavras de Fernando Henrique Cardoso devem ser entendidas em um contexto analítico, mas não são novidade. O eleitorado do PT mudou a partir de 2006, migrando das grandes cidades para o interior, muitas delas dependentes de programas de ajuda do governo, como o "Bolsa Família". Nessas cidades a população tem menos informações, já que a mídia nacional é muito concentrada nas capitais. Isso, diz o professor, em qualquer interior, e não apenas no Nordeste.

Ismael completa dizendo que o problema do preconceito contra nordestinos é histórico, e pode ser explicado pelo fato de que no século XX houve uma migração em massa dos habitantes da região para São Paulo e Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida. Essas populações enfrentaram um processo de incorporação social, muitas vezes difícil.

Polarização eleitoral socioeconômica

No entanto, alguns analistas afirmam que, mais do que um problema geográfico, essa polarização eleitoral está se desenhando como uma divisão socioeconômica. Nesse sentido, a decisão de quem vai ser o novo presidente do país caberia à classe média. Uma pesquisa do Datafolha aponta que a classe alta e a classe média alta votam mais em Aécio Neves. A classe média baixa e o grupo denominado como "excluído" pelo instituto de pesquisa, apoiam Dilma Rousseff. Já a classe média intermediária está dividida entre os dois. Os candidatos devem, então, tentar mudar a opinião dessa classe média, já que as camadas mais extremas da população são também as que têm o voto mais cristalizado.

Já para o cientista político e professor da UNB, Ricardo Caldas, a história não é assim tão simples assim. Ele acha que a classe média não tem o poder de decidir nada no Brasil e que decisão vai estar com alguns estados neutros, que os americanos chamam de 'Swing States'.

O professor lembra que a maioria dos votos do Nordeste e do Norte já está com o PT, com a exceção de Pernambuco. São Paulo está com o Aécio; Minas caminha para um equilíbrio; já o Rio de Janeiro é uma incógnita e ninguém sabe para onde vai. “A eleição presidencial vai depender de estados como o Rio de Janeiro. No momento ele está pró-Dilma, mas isso pode mudar. As coisas não são tão simples, tão preto no branco, sul versus nordeste. A eleição é mais do que isso, não dá nem pra colocar só em termos de classe social, nem em termos de região", explica Ricardo Caldas.

Ou seja, para os especialistas ouvidos, a polêmica lançada esta semana é complexa e vai além de uma eventual rivalidade Norte-Sul. Esse assunto ainda deve agitar as discussões para o segundo turno da eleição presidencial brasileira.

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