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Reportagem

Nova geração berlinense retrata os 25 anos da queda do muro com mais humor

Áudio 05:47
Cena do filme Bornholmer Straße, que retrata a queda do muro com humor.
Cena do filme Bornholmer Straße, que retrata a queda do muro com humor. Divulgação

Johanna Links tinha apenas 10 anos quando o Muro de Berlim caiu e seu pai pôde finalmente realizar um sonho: fundar a sua própria editora de livros independente em Berlim Oriental. Desde então, pai e filha já publicaram dezenas de títulos para contar a vida de pessoas que, como eles, viveram na Alemanha comunista e tentam se adaptar ao novo mundo representado pela queda do muro, que completa 25 anos neste domingo (9).

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Em colaboração com a RFI francesa.

O pai de Johanna, Christoph, trabalhava em uma editora da RDA e decidiu abrir o próprio negócio, menos de um mês após a queda do muro, deparando com a tal novidade de possuir uma empresa privada. “Para mim, as lembranças são apenas da escola, dos amigos. Sou parte da geração que não teve problemas com a mudança. Para os meus pais foi difícil, e isso me influenciou e me marcou”, conta Johanna. A berlinense é um desses alemães que, 25 anos depois, começam a se sentir à vontade para fazer humor e ter uma relação mais leve com os quase 30 anos de repressão – e isso começa a se refletir na produção cultural, de filmes a romances.

“Mudamos a perspectiva”, conta a publisher. “No começo era tudo muito sério, apenas estudos de não-ficção, era preciso re-trabalhar a história e problematizar tudo, porque era um tema difícil. Agora começamos a lançar filmes engraçados, livros com histórias de amor. Parece que agora podemos respirar e se dizer que é ok mudar a perspectiva. Continuamos descrevendo aquele sistema, mas usamos ele apenas como pano de fundo”.

Comédia na TV

A sua editora, a Ch.Links, está lançando um título com relatos de personagens típicos de Berlim Oriental que foram viver do outro lado ou que tiveram que se adaptar à nova realidade. As 25 histórias de Die Ostdeutschen também viraram série de TV. Entre eles, está um padeiro tradicional que não conseguiu mais pagar o aluguel porque seu bairro em Berlim Oriental virou hipster. Uma mulher do leste que se mudou para o oeste por causa de trabalho, perdeu o emprego e, com pouco mais de 50 anos, decide voltar ao leste para reencontrar suas raízes e recomeçar uma vida nova.

“O que eles têm em comum é a questão das raízes, da busca de si dentro de um sistema e a experiência de ter vivido uma ruptura”, conta Johanna. “São pessoas que viram a queda do muro, que foram formadas e marcadas por este sistema e seus valores. E quando perdem esse sistema, são obrigadas e se encontrar em um novo mundo”.

Entre as estréias de cinema sobre a queda do muro está Bornholmer Strasse, um longa de Christian Schwochow que conta com humor a história de Harald Jäger, o homem que deu o primeiro golpe para derrubar o muro, abrindo caminho para a multidão naquele 9 de novembro de 1989. O filme foi veiculado na TV alemã na semana passada, se tornando uma grande sensação.

Diferenças econômicas

A primeira geração de jovens berlinenses que se encontrou após a queda do muro teve que lidar não só com as diferenças econômicas, mas também culturais, como conta o cientista político alemão Walter Kreiper: “É preciso considerar que tivemos 40 anos de divisão, com uma socialização diferente que faz com que isso marque uma vida inteira. Por exemplo, no Oeste os jovens aprendiam inglês. No leste, aprenderam russo, o que não servia para muita coisa. Tudo isso que Bordieu chama de "Capital Cultural" foi diferente desde o início, e isso tem um papel importante, mesmo no longo prazo.”

Já as diferenças econômicas entre Berlim Leste e Oeste continuam grandes, embora tenham diminuído drasticamente ao longo dos anos 90, após um investimento massivo de cerca de € 2 trilhões. Também cientista política, Ulrike Guerot, que dirige o Laboratório Europeu da Democracia, conta que os jovens do Leste sofreram muitos anos com estigmatização: “A Alemanha Oriental perdeu 5 milhões de pessoas. Os que foram embora eram justamente os jovens, que partiram logo em 1990. Fora do país, eles se sentiam à vontade para dizer que eram alemães. Porque se estivessem na Alemanha Ocidental, teriam que dizer que eram do leste. Estes jovens todos que foram embora representaram uma braindrain, uma fuga de cérebros. E isso influencia a demografia atual até hoje”.

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