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O Mundo Agora

Às voltas com corrupção, partido no poder na Catalunha usa voto como jogada política

Áudio 04:52
Presidente do governo catalão Artur Mas duante a consulta popular.
Presidente do governo catalão Artur Mas duante a consulta popular. REUTERS/Gustau Nacarino

Artur Mas tem boas razões de celebrar. O presidente do governo catalão, a Generalitat, organizou um referendo fajuto com uma vitória fajuta e todo mundo está dizendo que foi um sucesso. Foi mais sondagem de opinião do que voto: não houve censo dos cidadãos habilitados a votar, não houve instância eleitoral para controlar a idoneidade das operações e a contagem dos sufrágios, e a Corte Suprema espanhola já havia declarado que o processo era ilegal.

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Por Alfredo Valladão, de Bruxelas. *

Até os promotores do evento avisaram que não haveria consequências políticas vinculantes e, para driblar a ilegalidade da iniciativa, entregaram a organização do processo a um grupo de ONGs favoráveis à independência da Catalunha.

Quanto ao resultado, sim, houve filas imensas diante das urnas improvisadas. Mas o número de votantes (apenas um terço do eleitorado catalão) não ultrapassou a quantidade de votos habitual do conjunto de partidos catalães favoráveis à opção independentista. E mesmo assim, só uns 25% do eleitorado se pronunciaram por sair da Espanha. Nada disso garante que o movimento pela independência possa ganhar um referendo de verdade. Os escoceses que o digam....

Sucesso relativo

Resta que este lusco-fusco eleitoreiro foi uma boa jogada para Artur Mas. Há mais de um ano que a Generalitat vem jogando lenha na fogueira do independentismo e que Mas apostou o próprio futuro político no projeto de convocar um voto de verdade sobre esta questão.

O seu partido, Convergência e União, no poder em Barcelona, está atolado num pesado escândalo de corrupção e ameaçado de ser desbancado nas próximas eleições regionais pela Esquerda Republicana, que mistura nacionalismo e rejeição da monarquia madrilena.

O sucesso relativo dessa imensa sondagem “ao vivo”, que conseguiu congregar praticamente todos os catalães abertamente favoráveis à independência, colocou de novo o presidente da Generalitat em cima do cavalo.

O governo central de Madri, utilizando as contradições entre as forças soberanistas, vinha dizendo que não sabia quem era o interlocutor em Barcelona. Depois do voto, não há dúvida: é Artur Mas. E é ele que vai definir e organizar a agenda de negociações com o governo espanhol, mesmo se não vai ser fácil disciplinar a sua própria coalizão partidária e os outros aliados soberanistas mais extremistas.

Onda de rejeição aos governos centrais

Hoje qualquer espanhol com um mínimo de racionalidade está clamando por uma negociação. Pela simples razão que não dá mais para protelar. As instituições espanholas estão em crise. Na Europa inteira existe uma onda de rejeição e desconfiança com relação aos governos centrais. A crise econômica e financeira mundial dos últimos anos demonstrou claramente que as autoridades nacionais não tinham mais nem poder nem instrumentos consequentes para resolver os problemas sociais e econômicos de suas populações.

A tendência no Velho Continente é a fragmentação. Política, com a emergência de partidos populistas e xenófobos. Regional, com as regiões mais abastadas que não aceitam mais partilhar riqueza com as mais pobres.

Poucos ainda acreditam que os governos nacionais possam garantir a solidariedade entre regiões e entre cidadãos. Na Espanha, a crise foi – e ainda é – terrível. E não são só os 25% de desempregados e os salários despencando. É também um mar de lama envolvendo todos os grandes partidos nacionais e até a monarquia.

O independentismo catalão não é de hoje, e até hoje nunca foi majoritário. Mas nesse clima de desagregação institucional a tentação de fugir para um pequeno Estado independente e soberano é cada vez mais forte. Mesmo se isso provavelmente acabaria numa catástrofe econômica e social, mais para a própria Catalunha do que para a Espanha em si.

A única saída é uma negociação séria sem os radicalismos irresponsáveis, tanto dos catalães quanto do governo conservador de Madri. Bradar por soberanias num mundo cada vez mais profundamente globalizado e interdependente, não faz mais sentido, nem de um lado nem do outro.

* Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, assina esta coluna semanal para a RFI Brasil
 

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