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O Mundo Agora

Um dia o embargo acaba e Cuba será inundada de investimentos capitalistas

Áudio 04:46
Jovem cubana junto à mural com a imagem do revolucionário Ernesto "Che" Guevara, em Cuba, em foto desta segunda-feira, 22 de dezembro de 2014, após os Estados Unidos anunciarem o fim de 50 anos de embargos contra a ilha de Fidel Castro.
Jovem cubana junto à mural com a imagem do revolucionário Ernesto "Che" Guevara, em Cuba, em foto desta segunda-feira, 22 de dezembro de 2014, após os Estados Unidos anunciarem o fim de 50 anos de embargos contra a ilha de Fidel Castro. REUTERS/Enrique De La Osa

O ex-presidente do Uruguai e velho Tupamaro, Pepe Mujica, saiu do seu “fusca” e proferiu uma ideia definitiva: para a América Latina, o reatamento das relações entre Cuba e os Estados Unidos “equivale à queda do Muro de Berlim”. Verdade verdadeira: para esquerda e muitos populistas ditos “progressistas” latino-americanos, era como se o comunismo soviético não tivesse sido derrotado em 1989.

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Longe, muito longe dos palcos centrais da Guerra Fria na Europa e na Ásia, para eles a última esperança não era o regime da Alemanha oriental e seu famigerado muro, mas o “paraíso” comunista cubano. Enquanto os irmãos Castro podiam encarnar a resistência ao “imperialismo”, todos podiam continuar afirmando que a “luta continua” sem precisar ter que aceitar que o mundo mudou e que já é hora de passar para outra.

Junto com a Coreia do Norte, Cuba era o último vestígio da velha Guerra Fria. Um resquício que tinha mais ver com a política interna nos Estados Unidos do que com um enfrentamento ideológico planetário. Na verdade, foi a revolução cubana, no começo dos anos 1960, que inaugurou para valer a Guerra Fria na América Latina. A famosa crise dos mísseis nucleares, em 1962, foi um dos piores traumatismos na história dos norte-americanos. Pela primeira vez, uma potência estrangeira poderia ter tido a capacidade de destruir todas as grandes cidades do país em menos de 10 minutos. A resposta do presidente Kennedy foi peitar diretamente a ameaça, ganhar a parada com Moscou e colocar Cuba numa geladeira. Ao mesmo tempo, a ilha se transformou numa base avançada soviética no hemisfério americano. Havana apoiava as oposições armadas no continente e Washington os governos militares ditatoriais.

Desde as independências latino-americanas, no começo do século XIX, o horizonte político das relações entre latinos e norte-americanos foi o pan-americanismo e mais tarde a criação, depois da Segunda Guerra Mundial, da Organização dos Estados Americanos. Com altos e baixos, ressentimentos e alternâncias de tempestades e calmarias, as relações entre o Norte e o Sul do hemisfério eram pautadas pela necessidade da cooperação, da solução pacífica dos problemas, da defesa da democracia e da promoção do comércio. A Guerra Fria local, com o seu símbolo em Cuba, acabou com esta pauta. Ditadores e guerrilheiros não queriam saber nem de diálogo, nem de cooperação, nem de democracia. Mas o Muro de Berlim acabou caindo. Só que nas Américas sobrou Cuba para alimentar a retórica e os populismos anti-imperialistas das viúvas da União Soviética e da Guerra Fria.

Os Estados Unidos, o lobby dos exilados cubanos na Flórida – Estado chave para qualquer eleição presidencial americana – e a memória do trauma da crise dos mísseis tornavam impossível, politicamente, acabar com a hostilidade e com o embargo contra o regime castrista. A abertura de Obama só foi possível quando a segunda e terceira geração de cubano-americanos tomaram consciência de que o embargo só servia para fortalecer a ditadura dos irmãos Castro, e quando parte do establishment em Washington começou a achar ridículo continuar se preocupando com uma ilhota atrasada e falida de 11 milhões de habitantes.

Cuba viveu anos com a mesada de Moscou e enfrentou uma crise aguda com a implosão da União Soviética. E só conseguiu uma sobrevida graças aos presentes de petróleo venezuelano. Mas Raúl Castro sabe que a economia da Venezuela está se desmanchando e não tem mais condições de ajudar quem quer que seja. Não havia outra saída senão optar pelo pragmatismo. O futuro de Cuba é de novo os Estados Unidos e não há dúvida que um dia desses o embargo vai acabar e que a ilha será inundada de investimentos capitalistas. Vovô Fidel e Raúl podem conclamar que o comunismo cubano sempre viverá, mas a verdade é que o sonho – ou pesadelo – acabaram. A questão é saber quanto tempo vai levar para que a esquerda e os populistas pró-castristas na América Latina aceitem a realidade da queda do “Muro de Havana”.

 

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