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França

Francês que apanhava da mulher conta vida de martírio em livro

Áudio 03:58
Capa do livro do francês Maxime Gaget, espancado durante um ano pela ex-companheira
Capa do livro do francês Maxime Gaget, espancado durante um ano pela ex-companheira Divulgação

O programador Maxime Gaget, 37 anos, foi espancado durante mais de um ano pela companheira, que conheceu em 2007. Em "Minha companheira, minha carrasca", ele sai do silêncio para denunciar uma situação que parece incomum, mas que atinge centenas de franceses: a estimativa é que a cada 13 dias, um homem morra no país vítima das agressões de suas mulheres.

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Maxime Gaget conheceu sua torturadora em 2007, em um site de namoro. Recém-saído de uma decepção amorosa, em plena transição profissional, ele acaba seduzido por Nadia*, cinco anos mais velha, dois filhos, que o convida imediatamente a dividir seu apartamento em Paris. Rapidamente ela assume o controle do casal, em termos financeiros e emocionais, isolando Maxime do resto do mundo. Ele perde o emprego e se afasta da família e amigos.

Pouco a pouco, Nadia* passa a ter surtos cada vez mais violentos – o francês acaba hospitalizado várias vezes e escapa da morte por pouco. As torturas incluem, além dos espancamentos, a degradação de suas condições de vida: Maxime dorme no chão, não tem direito de usar o banheiro, a atendimento médico e a se alimentar. Quando conseguiu escapar, estava com os oito dedos das mãos quebrados, tinha perdido mais de 30 quilos e tinha o rosto desfigurado.

O prefácio do livro é assinado pelo psicólogo e psicanalista Alain Legrand, diretor do Centro SOS Violência Familiar em Paris, que acompanhou Maxime em seu processo de reconstrução. Confira a entrevista da RFI Brasil com o autor, que conta como se livrou das garras da ex-mulher violenta.

RFI Brasil - Por que escrever um livro? Foi a maneira que você encontrou de exorcizar tudo o que você viveu?

Maxime Gaget: No início foi um jeito de aliviar meu sofrimento. Eu ainda não tinha conseguido verbalizar toda essa história, porque ainda estava bloqueado do ponto de vista psicológico. Para mim pareceu a maneira mais lógica e simples de falar sobre esse assunto. Enquanto eu escrevia, comecei a fazer algumas pesquisas, na tentativa de entender o fenômeno, e ver se existiam outros casos similares. Percebi que não havia nenhum depoimento do gênero. Existem citações em livros mais técnicos, escritos por psicólogos. Mas, na maior parte do tempo, anônimos. Percebi também que havia um verdadeiro tabu em torno do assunto.

RFI Brasil - Depois de lançar o livro, você encontrou outros homens na mesma situação?

MG: Recentemente, uma mulher entrou em contato comigo porque um de seus amigos estava vivendo o mesmo drama. A questão psicológica, como sempre, é muito presente, e estou tentando ajudá-la.

RFI Brasil – Por que você não foi embora depois de apanhar pela primeira vez?

MG: Coloquei a violência de lado na esperança de que fosse uma situação excepcional e marginal, que “pode acontecer”. Foi um grande erro, porque aconteceu de novo, e rapidemente. Em seguida, houve de fato um aumento grande dos atos violentos. E de repente você se vê preso a um 'modus operandi' mórbido.

RFI Brasil – Sua ex-companheira foi punida?

MG: Depois da minha queixa, ela foi colocada sob controle judicial. Como cometeu as violências na frente das crianças e me ameaçou uns 15 dias depois que eu voltei para minha cidade, Charentes (sudoeste da França), prestei uma segunda queixa, por ameaça telefônica. Depois disso ela perdeu a guarda, mas pelo jeito acabou recuperando. Da última vez que nos encontramos no tribunal para uma tentativa de mediação, ela estava acompanhada de seu filho.

RFI Brasil – Como você conseguiu escapar dela?

MG: O irmão dela, com a cumplicidade das crianças, preveniu meus pais. Era um domingo, primeiro de março. No dia seguinte pela manhã, meus pais, que vivem em Charentes, montaram uma “expedição” para Paris para me resgatar com a ajuda de um tio que morava na região. Com a ajuda da polícia nacional, pude ser retirado do apartamento, onde estava enclausurado, e atendido no Pronto Socorro de Angoulème (sudoeste da França) na mesma noite. Uma enfermeira chegou a me dizer que era o pior caso de violência conjugal que ela havia presenciado em 20 anos. Prestei queixa no dia seguinte. Mesmo seus parentes, que desconfiavam de alguma coisa, não tinham ideia da metade do que  acontecia nesse estúdio.

* O nome foi trocado a pedido do entrevistado
 

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