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Reportagem

Polarização entre norte e sul é histórica no Brasil, dizem escritores no Salão do Livro

Áudio 14:52
Os escritores Michel Laub e Ronaldo Correira de Brito no estúdio da RFI no Salão do Livro de Paris, no sábado 21 de março.
Os escritores Michel Laub e Ronaldo Correira de Brito no estúdio da RFI no Salão do Livro de Paris, no sábado 21 de março. RFI/Hugo Passarello

Um debate organizado pela RFI no sábado (21), no Salão do Livro de Paris, contou com a participação do escritor cearense radicado em Recife Ronaldo Correia de Brito e com o gaúcho radicado em São Paulo Michel Laub. Correia de Brito afirmou que a polarização atual entre o nordeste e o sul do país “sempre existiu” e que o preconceito com os nordestinos tem a ver com o fato da região ser mais pobre.

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Michel Laub tem publicado na França o romance “Diário da queda”, pela editora Buchet/Chastel. O livro em um estilo conciso e seco retrata os laços e a desunião de três gerações de uma família de origem judaica.

O médico e escritor Ronaldo Correia de Brito nasceu no interior do Ceará, e mora em Recife. Ele tem dois livros publicados na França, o romance Galileia, que em francês recebeu o título “Le don du mensonge”, pela editora Liana Levi, e o livro de contos Faca, publicado pela Chandeigne com o título “Le jour ou Otacílio Mendes vit le soleil”.

Os dois escritores também têm um conto publicado na antologia “Brasil 25”, organizada por Luiz Ruffato e publicada especialmente pela editora Métailié para o Salão do Livro de Paris, que este ano homenageia a literatura brasileira. Laub assina “Os animais” e Correia de Brito “Um homem atravessando pontes”.

Sertão virou periferia das cidades

A obra de Ronaldo Correia de Brito aborda o conflito entre um Brasil pós-rural e urbano, mas ainda influenciado pela cultura do sertão. O escritor lembra que o 85% dos brasileiros moram em cidades e sentencia “aquilo que se chamava de sertão virou uma periferia de cidades. Não há mais aquele lugar distante, aquelas terras de trás. O que temos hoje são dramas urbanos de periferias urbanas. Esse é o material com que eu trabalho na minha literatura, um material de alta voltagem.”

Michel Laub analisa que, apesar de vir de uma parte muito diversa, também trabalha com essa mesma contradição entre o mundo ancestral rural e o mundo urbano contemporâneo: “Embora eu trate muitas vezes de temas intimistas, que tem a ver com memória, é curioso porque o Rio Grande do Sul é um estado cuja formação é toda rural, uma formação de grandes estâncias. E quem vive nas cidades tem contato constante com as histórias e a mitologia dessa vida rural.”

Oposição norte x sul

Para exemplificar a existência histórica da oposição e do confronto entre o norte e o sul do Brasil, Ronaldo Correia de Brito citou Gilberto Freire: “Quando Freire cria os cânones do movimento regionalista, ele de uma certa maneira quer se contrapor ao movimento modernista de 22, deflagrado em São Paulo por artistas sobretudo de São Paulo e do Rio.”

Lembrando as revoluções pernambucanas do século 19, Ronaldo afirmou que “o nordeste com toda a sua miséria sempre tentou essa autonomia do Brasil”. Laub completou dizendo que o Rio Grande do Sul também tentou essa autonomia com a “Revolução Farroupilha”.
Correia de Brito concluiu dizendo que o fator econômico explica essa oposição. “Isso acontece no mundo todo. As regiões mais pobres sofrem um certo preconceito. Parte da campanha contra o governo do PT, contra a eleição de Dilma era também uma campanha contra os nordestinos que elegeram Dilma. E isso daí é uma coisa que tem a ver com fato do Nordeste ser mais pobre.”

Laub espera que a literatura e o conceito de empatia entre leitor e escritor possa reduzir esses confrontos: “Essa compreensão do outro, que é talvez a grande vantagem da literatura, ela pode ser uma forma de diminuir essas diferenças regionais, esses abismos econômicos”.

Clique acima para ouvir o debate na íntegra:
 

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