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Reportagem

Salão do Livro reúne diferentes gerações da "literatura marginal"

Áudio 04:47
Capa do livro "Cidade de Deus" editado pela Companhia Das Letras, romance de Paulo Lins.
Capa do livro "Cidade de Deus" editado pela Companhia Das Letras, romance de Paulo Lins. Divulgação

"Cidade de Deus", de Paulo Lins, é uma obra prima, mas está longe de ser um livro fácil. Não dá respiro, mistura longas prosas a narrativas rasteiras, ora se exibe, ora se entoca pela violência, pelas drogas, pelos barracos, sons e cheiros de uma favela que escala como trepadeira o muro invisível entre os beneficiados e as vítimas do Estado.

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Uma leitura que mostra o quanto são fortes - apesar de poucos - os leitores brasileiros. Afinal, este livro genial e indigesto formou não só novos leitores, mas um movimento literário, como explica Rodrigo Ciríaco, que representa os chamados "marginais" com as coletâneas "Je suis favela" (Anacaona, 2011) e "Je suis toujours favela" (idem, 2014), no Salão do Livro de Paris.

"O próprio Ferréz já falou várias vezes que escreve 'Capão Pecado' influenciado pelo 'Cidade de Deus'. Pela vontade de contar a história da favela, da quebrada, na versão de São Paulo. Aí, você pega Ferréz, depois Sérgio Vaz, você tem todo esse movimento, essa história que a gente tem. Então, o Paulo Lins tem uma importância fundamental, pela obra literária que ele escreveu, pela projeção que o filme teve".

"Maior movimento da história"

O próprio Lins, apesar de ter tardado um pouco a reconhecer a paternidade, tem orgulho da cria. Mais do que isso: para ele, que lança em Paris a versão francesa de seu romance mais recente ("Desde que o Samba é Samba", pela Planeta, ou "Depuis que le samba est samba", pela Asphalte), acha que se trata do maior movimento da história do Brasil.

"O movimento pegou o mundo. E é politizado, é forte, é competente, é bonito, é bem-escrito... Eu acho que a coisa mais importante que aconteceu no Brasil é esse movimento agora, mais do que o Modernismo, mais do que o Concretismo". Isso porque esse olhar da favela sobre a favela é inédito.

Paulo Lins lembra, por exemplo, que o negro Lima Barreto, vivia em um bairro de classe média da Zona Norte do Rio. Plínio Marcos, apesar das raízes humildes na Baixada Santista, não estava inserido em um movimento coletivo. E a coletividade é a característica primordial desta "literatura marginal", para a qual os saraus são até mais importantes do que a tinta e o papel.

Literatura militante

"Além do significado da palavra no papel, (essa literatura) envolve transformação social, formação de leitores, questões que acho que deveriam ser de interesse dos escritores em geral. Não são", alfineta Rodrigo. "Mas deveriam ser pelo contexto da sociedade em que a gente vive, que tem um período de letramento muito tardio, com índices de analfabetismo funcional muito grandes".

Talvez essa nova literatura seja o exemplo mais concreto da definição cunhada na abertura do Salão do Livro pelo ministro da Cultura, Juca Ferreira: "a mais solitária das atividades e, ao mesmo tempo, uma das mais coletivas".

"Cada autor, no momento em que coloca palavras no papel, está isolado de tudo, mas chama para si a memória de todas as experiências possíveis de se evocar através da escrita", discursou o ministro. Uma vez contada em livro, uma vivência coletiva não pode mais ser entendida sem ele.

Sem dúvida, uma cidade como São Paulo que, há anos, não pode mais ser entendida sem passar pela discografia dos Racionais MCs, pelo bar do Binho, pelos versos de Sergio Vaz, pelo Sarau da Cooperifa, pelos franco-rimadores, enfim, que narram a cidade das extremidades para o centro.
 

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