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Fato em Foco

Corrupção da polícia é fundamental para redes de tráfico de imigrantes

Áudio 04:49
Andrea Di Nicola e Giampaolo Musumeci, autores de "Trafiquants d’hommes".
Andrea Di Nicola e Giampaolo Musumeci, autores de "Trafiquants d’hommes". You tube

Quem assiste pela televisão às imagens dos barcos precários levando centenas de imigrantes ilegais para a Europa tem a impressão de que se tratam de viagens improvisadas. Mas dois italianos que investigaram as entranhas das redes de tráfico humano mostram a que ponto cada passo é planejado pelos atravessadores, em um verdadeiro negócio que conta com a colaboração da polícia.

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O jornalista Giampaolo Musumeci e o criminologista Andrea di Nicola passaram dois anos apurando o funcionamento das redes de traficantes, distribuídas por todos os países banhados pelo Mediterrâneo. O trabalho, publicado no livro Trafiquants d’hommes (ed. Liana Levi), desvenda os bastidores do que eles chamaram de “a mais implacável agência de turismo do mundo” – um negócio que se baseia nas relações de confiança para avançar.

“As cumplicidades locais são muito importantes para eles, inclusive junto à polícia. Essa é uma parte essencial do trabalho dos traficantes: estabelecer um contato com os policiais capazes de abrir as portas. Eles têm as chaves das fronteiras”, explica Musumeci. “Estar no bom lugar e no bom momento é a base de funcionamento das redes de traficantes.”

Em escala mundial, o tráfico humano só é menos rentável que o de drogas. O transporte ilegal de pessoas rende de US$ 3 a 10 bilhões aos criminosos a cada ano, dos quais até US$ 600 milhões são gerados apenas no Mediterrâneo.

Para chegar a cifras tão altas, os atravessadores estão sempre se adaptando a condições adversas. Quando uma rota se fecha, eles analisam onde abrir outra alternativa. Estudam a legislação dos países e estão atentos a cada passo dos governos, como agora, em que a União Europeia tenta adotar uma política migratória comum para o bloco.

“Quando pensamos nas imagens da imigração ilegal, pensamos naqueles barcos de pescadores, com 300 ou 400 pessoas dentro. Mas o que mais acontece não é bem isso. Os traficantes são geniais, embora criminosos”, observa. “Eles usam iates que parecem com os de turismo para ir da costa turca até o sul da Itália. Não há controle algum, porque parece um iate de turismo, mas dentro eles levam entre 40 e 50 imigrantes afegãos ou de outras nacionalidades. E cada um pagou US$ 10 mil dólares.”

Movimentação financeira

Um dos sintomas mais visíveis dessa “genialidade” é a maneira como o dinheiro circula entre os contatos, nos diferentes países. Os traficantes adotam um sistema paralelo chamado Hawala banking, à margem dos bancos, ou então pagam uns aos outros com serviços.

“Não há uma transferência propriamente dita do dinheiro. A transferência é pela confiança, baseada em créditos e dívidas a longo prazo. Ou seja, há movimentações muito grandes de dinheiro, mas não fisicamente”, detalha o jornalista. “Desta forma, a polícia não consegue ter controle de todo esse dinheiro que circula, baseado na confiança.”

Uso das redes sociais

Os atravessadores se apropriaram das ferramentas digitais para atrair clientela. Nas redes sociais, fazem propaganda dos “serviços”, atraindo candidatos a asilo na Europa. Muitas dessas pessoas têm o perfil adequado para serem aceitos como refugiados, mas não encontram interlocutores oficiais para adiantar o pedido em seus países de origem.

“Faz dois anos que Facebook tem um papel muito importante. Chega a ser interessante ver como eles se expõem para oferecer o ‘serviço’, com os preços, o tipo de viagem”, relata Musumeci. “Eles mostram fotos de grandes barcos, apresentam excelentes condições, mas a realidade é totalmente diferente. O uso das redes sociais mostra a habilidade dos traficantes em usar métodos bem modernos, mas ao mesmo tempo eles utilizam métodos arcaicos, como o sistema Hawala banking, para fazer as transferências de dinheiro entre os países.”

Na opinião dos autores, a Europa erra ao iniciar uma operação militar para combater os atravessadores, uma medida que não vai atenuar o problema. Eles defendem a colaboração europeia para o desenvolvimento da África e do Oriente Médio, a única solução para diminuir o número de migrantes dispostos a arriscar a vida para tentar um futuro na Europa – deixando, no caminho, todas as economias nas mãos das redes de tráfico humano.

 

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