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Fato em Foco

Expansão de Roland Garros ameaça jardins históricos do século 19

Áudio 04:52
Versão atual dos jardins datam do século 19.
Versão atual dos jardins datam do século 19. Salix / Wikimedia Commons

O torneio de Roland Garros chega ao fim, mas uma longa disputa encabeçada pela Federação Francesa de Tênis vai continuar do lado de fora das quadras. Desde 2011, os organizadores querem expandir a área do estádio, invadindo um jardim botânico histórico no Bois de Boulogne, uma das duas grandes áreas verdes de Paris. O primeiro-ministro da França, Manuel Valls, autorizou o projeto, que também conta com o apoio da prefeitura da capital francesa.

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Só que um grupo de organizações de defesa do meio ambiente e do patrimônio histórico não pretende se dar por vencido. As associações prometem recorrer aos tribunais para evitar que o jardim dê lugar a uma nova quadra coberta, butiques e mais espaço para a circulação dos visitantes do torneio. A área do estádio passaria dos atuais 8,5 hectares para 13 hectares.

A principal atração do jardim são as estufas, instaladas no século 18 e que abrigam uma diversidade rara de espécies do mundo inteiro. “O rei Luís 15, um apaixonado por botânica, assim como vários príncipes da época, mandou construir dois jardins: os de Auteuil, que depois viraram o jardim botânico de estufas, e o Petit Trianon que, antes da Maria Antonieta, era um dos jardins botânicos mais famosos da Europa, no Iluminismo”, conta o presidente da Sociedade para a Proteção das Paisagens e a Estética da França, Alexandre Gady.

No século 19, o arquiteto Formigère pensou em reorganizar o jardim à imagem de um castelo, em que as estufas principais, de metal e vidro, se tornavam o foco das atenções. "Podemos dizer que as grandes estufas são as primas da Torre Eiffel, do Grand Palais, dos Halles, de toda essa grande arquitetura do século 19 à base de metal”, afirma Gady, que também é professor de História da Arte da Sorbonne.

Árvores centenárias

Pelo projeto da Federação Francesa de Tênis, as estufas principais seriam mantidas, mas as estufas técnicas precisariam ser substituídas por outras menores. Cerca de 150 árvores, entre elas algumas centenárias, devem ser derrubadas. Agnes Popelin, vice-presidente da organização France Nature Environnement, da região parisiense, considera que houve pouco diálogo sobre o projeto com o poder público.

“As estufas quentes são o cofre do jardim botânico. Elas guardam as mais belas coleções vegetais e é ali que se concentram o saber, a técnica, a conservação. É isso que eles querem demolir. Vai ser uma catástrofe”, avalia Popelin. “Um jardim é uma composição, que foi imaginada e desenhada pelo arquiteto. O jardim forma um conjunto paisagístico que não pode ser amputado, senão fica desequilibrado. Essas estufas são uma ode à riqueza vegetal do mundo inteiro, uma biblioteca viva.”

Concorrência internacional

Os dirigentes do tênis alegam que Roland Garros está perdendo espaço no cenário internacional, por estar com a infraestrutura defasada e pequena demais para receber tanto público. O novo local poderia receber 5 mil pessoas, em uma obra estimada em € 400 milhões.

O presidente da federação de tênis, Gilbert Ysern, espera que a reforma esteja concluída no ano que vem. “Quando vemos a globalização desse esporte e os enormes projetos dos novos participantes de novos territórios, como na Ásia, para atrair os grandes jogadores e montar grandes eventos, percebemos que é preciso elevar o padrão de qualidade do nosso torneio”, analisa Ysern, em entrevista ao canal France 3. “É por isso que precisamos que esse projeto dê certo.”

Olimpíadas

O governo francês apoia a proposta, visando manter a atratividade de Paris para grandes eventos. A ampliação de Roland Garros seria um argumento a mais na candidatura da capital francesa para ser a cidade-sede das Olimpíadas de 2024.

Mas para Alexandre Gady, nada garante que, no futuro, o jardim não será ainda mais prejudicado. Os defensores do lugar apresentaram uma proposta alternativa, que avançaria em direção à estrada, e não aos jardins. O problema é que o projeto custaria entre € 10 milhões e € 80 milhões a mais.

“Nós ainda podemos acrescentar a promessa, repetida 100 vezes por Roland Garros, de que a cada vez que eles aumentaram os espaços, seria a última vez. Esse é projeto é inconcebível: os interesses privados de uma federação prevalecem sobre o interesse público”, ressalta. “Sem contar que os lugares preservados em toda a França ficariam ameaçados por esse precedente que seria aberto.”

A próxima etapa desta disputa deve ser na justiça.
 

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