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França

França culpa internet e videogames pela morte de três jovens em explosão

Áudio 06:39
Os três adolescentes que morreram na explosão durante fabricação caseira de explosivos em Bas-en-Basset, na região da Haute Loire, centro da França.
Os três adolescentes que morreram na explosão durante fabricação caseira de explosivos em Bas-en-Basset, na região da Haute Loire, centro da França. Captura vídeo

O caso de três adolescentes franceses que morreram em uma explosão gerada pela má combinação de substâncias químicas, no último sábado (13), gerou uma onda de comoção na França. Os garotos da cidade de Bas-en-Basset, na região de Haute Loire, eram praticantes do jogo Airsoft, uma espécie de simulação de guerra ao ar livre, praticada com armas falsas, similar ao paintball. Para obter tiros explosivos, eles manipularam uma mistura fatal de acetona e ácido clorídrico que encontraram na internet.

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As autoridades francesas reclamam da falta de regulamentação na internet, onde receitas de explosivos são facilmente encontradas, e onde o Airsoft se popularizou, especialmente entre os que jogam videogames.  "Esses jovens são vítimas de um jogo imbecil recomendado na web por pessoas irresponsáveis", afirma um dos responsáveis pelas investigações, Yves Dubuy.

Já o presidente da Federação Francesa de Airsoft (FFA), Benoit Marius, acredita que falta informação sobre a atividade, inclusive entre os próprios praticantes. "É necessário ter mais abertura sobre a questão que já é delicada porque nosso jogo utiliza armas fictícias. Como ficou popular na internet, há muitas pessoas praticando essa atividade fora de clubes ou associações. É por isso há muitos jogadores irresponsáveis", diz.

O Airsoft teve origem no Japão, com o desenvolvimento de réplicas de armas para colecionadores e chegou nos anos 80 na França. A FFA conta atualmente com cerca de 3 mil inscritos em 170 clubes. "Poucos sabem que o principal valor do Airsoft é o fairplay. Jogar com responsabilidade faz parte de nossos princípios", reitera Marius.

Jovens estão mais violentos?

A relação entre a violência de jogos e o aumento da agressividade dos jovens também voltou à tona com o caso. Mas, para a professora do Departamento de Psicologia e Educação da Universidade Federal do Paraná, Lidia Weber, a busca por situações de risco é típica da idade. "Há inúmeros estudos da neurociência que mostram que os adolescentes buscam situações de risco porque elas trariam uma maior recompensa para eles", explica.

Além disso, a especialista lembra que o cérebro dos adolescentes funciona de forma diferente dos adultos, o que interfere na noção que os jovens têm de responsabilidade e consequência. "Nessa fase da juventude, o cérebro passa por uma reorganização, os adolescentes perdem uma série de sinapses e ganham outras. A área do cérebro chamada de ‘região de recompensa’ funciona pouco. Por isso, eles buscam novas sensações em busca de satisfação", reitera.

Por esse motivo, Lidia Weber aconselha o monitoramento frequente dos jovens pelos pais. "É paradoxal porque é na adolescência que eles precisam encontrar sua autonomia, construir sua identidade e se transformar aos poucos em adultos. Mas esse comportamento é inerente a essa fase da vida onde há maiores riscos", adverte.

Videogames

Sobre a polêmica da violência estar sendo incitada pelos videogames, Lidia Weber acredita que a relação é possível, mas com ressalvas. "Há vários estudos que mostram que existe uma relação clara entre jogos violentos e uma maior propensão para a agressividade. Mas essas pesquisas também mostram que, para desenvolver esse comportamento violento, é preciso que o jovem esteja em uma situação mais vulnerável e jogar com muita frequência", pondera.

Já para o designer de games e professor de Criação Digital da ESPM, Vicente Martin Mastrocola, a relação direta entre jogos e comportamento agressivo é exagerada. "Essa é uma tentativa de simplificar demais a nossa sociedade. Fala-se muito do lado negativo do videogame, mas ele também tem um lado positivo, como qualquer mídia."

Mastrocola defende um maior acompanhamento dos pais para estarem a par do que seus filhos estão jogando.  "É preciso pesquisar mais o que são esses jogos antes de demonizá-los. Acho que a situação é muito mais complexa do que justificarmos que o jovem ficou violento porque jogou um videogame", completa.

Regulamentação da internet

As investigações sobre o caso dos jovens da Haute Loire continuam em andamento. O ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve, acredita que o episódio serve para ressaltar a discussão sobre um melhor sistema de proteção da internet, um espaço que, para ele, deve ser submetido a uma regulamentação mais rígida.

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