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O Mundo Agora

Grécia: “Não” em referendo vai “derreter” economia e isolar o país

Áudio 04:38
Manifestante exibe bandeira grega durante um protesto anti-austeridade em Atenas, Grécia, 29 de junho de 2015.
Manifestante exibe bandeira grega durante um protesto anti-austeridade em Atenas, Grécia, 29 de junho de 2015. REUTERS/Yannis Behrakis TPX IMAGES OF THE DAY

O primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, decidiu entrar, pé na tábua, num beco sem saída. Qualificando a última oferta de acordo com a União Europeia de “chantagem” e convocando um referendo popular para domingo próximo, Tsipras aposta pesado. E ainda por cima insulta os seus interlocutores europeus conclamando os gregos a votarem contra. A idéia é tentar convencer os seus compatriotas que no final a Europa não vai ter outro jeito senão ceder.

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Desde o início do seu mandato, há cinco meses, Tsipras vem dizendo que a Europa vai terminar “pedindo pinico” porque não tem condições de sobreviver a uma saída da Grécia do euro. Ledo engano: a paciência se esgotou e o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, declarou que os gregos “não precisavam se suicidar por medo da morte”. Resultado: Atenas foi obrigada a decretar um “corralito” – bancos fechados, controle das remessas para o exterior, crise generalizada no país. E os europeus avisaram: o referendo será um voto a favor ou contra a Europa e o euro.

Para a Grécia, o risco de um voto negativo é simplesmente um “derretimento” da economia nacional e um isolamento total. Para o resto da Europa, o risco é mais político do que econômico – apesar de que não se pode ignorar a possibilidade, remota, de um pânico nos mercados. Se a Grécia abandonar a União Europeia, cria um precedente perigoso para a estabilidade da construção europeia e representaria um fracasso dos dirigentes europeus para lidar com um problema de um Estado membro que só representa 3% do PIB da zona euro.

É por essa razão que a chanceler Angela Merkel também avisou que pode retomar as negociações depois do referendo. Se o resultado for positivo, é claro. Só que o governo grego já deu, hoje, um calote na dívida com o FMI e que o povo grego vai votar contra ou a favor de um acordo que não está mais na mesa. Qualquer nova negociação vai ter que ser diferente.

A questão de fundo é que os gregos passaram anos gastando o que tinham e o que não tinham graças às ajudas financeiras europeias e que agora, mesmo com ajustes fiscais pesados, eles não têm condições de pagar as dívidas acumuladas. A União Europeia, e até os mais intransigentes como a Alemanha, querem tirar a Grécia do buraco, mas desta vez com contrapartidas claras e verificáveis: reformas estruturais e ajustes fiscais pesados, com números, nomes e datas para serem implementados.

Ninguém tem mais confiança em ninguém: os europeus não estão a fim de perdoar a dívida grega e os gregos respondem que não dá para pagar a dívida com os ajustes exigidos. Como sair desse impasse?

Proposta de Strauss-Kahn para sair do impasse

Curiosamente, alguém acaba de lançar uma boa ideia. Trata-se de Dominique Strauss-Kahn, antigo diretor-geral do FMI que passou anos tendo que se defender na Justiça das conseqüências do seu gosto pelas surubas, hoje documentadas em todos os jornais do mundo. Mas em matéria de política, ressuscitar é sempre possível. DSK, como ele é conhecido, continua sendo um ótimo economista com faro político e negociador. Sua proposta é simples: aumentar a maturidade da dívida grega e perdoar a parte devida aos governos.

Em contrapartida, não dar mais um tostão para Grécia. Ela que se vire sem poder arrumar dinheiro nem da Europa, nem nos mercados. A responsabilidade fiscal e estrutural fica nas mãos do governo de Atenas que não poderá mais argüir que está sendo submetido a uma “chantagem”. É claro que essa idéia pode não dar certo, já que Tsipras e seu partido continuam acreditando em ameaças e provocações ideológicas. Mas a vantagem é que coloca toda a responsabilidade das reformas e dos ajustes nas mãos dos gregos.

O problema é saber se os obstáculos políticos domésticos nos outros países europeus ainda deixam algum espaço para este tipo de composição. De qualquer maneira, Tsipras está jogando seu futuro político e o futuro econômico do seu país num referendo fajuto e feito às pressas. Porém, qualquer que seja o resultado, o problema grego não vai desaparecer.

Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, escreve às terças-feiras para a RFI.
 

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