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França

Chefs franceses criticam a proibição do foie gras em São Paulo

Áudio 05:41
O foie gras é uma especiaria tradicional da culinária francesa. Bloco de foie gras com chutneys e geleias de cebola.
O foie gras é uma especiaria tradicional da culinária francesa. Bloco de foie gras com chutneys e geleias de cebola. Flickr/ Creative Commons

Se no Brasil a proibição do foie gras em São Paulo gerou muita polêmica e uma chuva de críticas por parte dos chefs, proprietários de restaurantes e produtores da iguaria, na França, o sentimento é de incredulidade. Para os franceses, que são os maiores produtores e consumidores de foie gras no mundo, a decisão é inconcebível.

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O foie gras, que significa fígado gordo, é um produto tradicional da gastronomia francesa, consumido em ocasiões especiais, como as festas de fim de ano. Ele é feito através da gavagem de patos e gansos, um método força esses animais a se alimentarem muito além do normal, gerando um crescimento excessivo do fígado e um acúmulo de gordura cujo percentual pode chegar a 65%.

Gavagem é a alimentação exagerada e forçada dos gansos e patos utilizados na produção do foie gras.
Gavagem é a alimentação exagerada e forçada dos gansos e patos utilizados na produção do foie gras. http://animaux.l214.com/foie-gras/gavage/gavage

No Brasil, há atualmente apenas três produtores de foie gras, a maioria da produção é comprada por grandes restaurantes de São Paulo. A Lei 16.222, sancionada na semana passada pela prefeitura da capital paulista, prevê a proibição da iguaria para daqui pouco mais de um mês.

Xavier Bélard é proprietário de um dos principais restaurantes na França especializados em pratos feitos com pato, o Au Canard Gourmand, em Samatan, no sudoeste do país. Para ele, a proibição do foie gras em São Paulo é um ataque à cultura e à culinária francesas: "Acho ridículo proibir o foie gras. Ele é um produto base da gastronomia da França, muito importante e que faz parte das nossas tradições".

Lei é hipócrita

Já para a chef franco-brasileira Alessandra Montagne, proprietária dos restaurantes Tempero e do Comptoir Tempero, em Paris, a lei é hipócrita por considerar apenas os maus tratos aos patos e gansos, deixando de lado outros animais, cujo abatimento é tradicionalmente violento, como bois e porcos. "Também é crueldade matar peixe, galinha, vaca. Eu já vi porco sendo morto no Brasil e é muito mais violento: eles dão uma machadada na cabeça do animal para ele desmaiar e depois cortam o pescoço dele para sangrar. Se querem considerar o sofrimento dos animais, é preciso proibir tudo que envolva violência contra os bichos, não apenas o foie gras", acredita.

Na França, várias organizações de defesa dos direitos dos animais lutam há muitos anos contra a produção industrial do foie gras e os maus-tratos de patos e gansos. Em fotos e vídeos veiculados na internet, imagens mostram animais enjaulados em espaços mínimos, feridos, com dificuldades para respirar e sendo alimentados através de tubos presos aos bicos.

Ong francesa comemora decisão

Na França, várias organizações de defesa dos direitos dos animais lutam há muitos anos contra a produção industrial do foie gras e os maus-tratos de patos e gansos. Em fotos e vídeos veiculados na internet, imagens mostram animais enjaulados em espaços mínimos, feridos, com dificuldades para respirar e sendo alimentados através de tubos presos aos bicos.

Para Brigitte Gothière, porta-voz de uma das principais organizações que militam contra a produção de foie gras na França, a L214, a decisão da prefeitura de São Paulo é um avanço para a sociedade brasileira. Embora não tenha esperanças de que a França adote uma lei similar, ela acredita que outras cidades do Brasil e outros países podem se inspirar na proibição.

"Estamos felizes com a sanção da lei em São Paulo: é uma decisão justa. Sabemos que os animais são seres sensíveis e ver desaparecer práticas como essas, extremamente cruéis para os animais, é uma vitória. Na França, há cada vez mais vozes contra a gavagem dos gansos e patos e vemos que essa posição vem sendo compartilhada por vários países em todo o mundo", avalia.

Alternativas menos cruéis

Bélard garante que o foie gras utilizado nos pratos do Canard Gourmand é produzido de forma não agressiva. Para ele, é importante diferenciar a produção industrial da artesanal, a qual, segundo ele, não maltrata as aves.

"Se nos referirmos apenas à produção industrial, é verdade que os animais são submetidos a práticas que eu não chamaria de corretas. É preciso levar em conta que a gavagem é algo natural para as aves migratórias, que armazenam gordura em seus corpos para poder fazer longas viagens. Além disso, ela tem que ser bem feita, ou seja, o animal não pode sofrer. Caso contrário, o foie gras não será de qualidade", defende.

Stop Gavage

Na França, 40 milhões de patos e gansos morrem na produção do foie gras por ano. A campanha Stop Gavage, feita por várias ongs, reuniu recentemente a assinatura de 320 mil pessoas em toda a Europa.

Além da França, na Europa, apenas quatro países autorizam ainda hoje a gavagem: Espanha, Bélgica, Hungria Bulgária. Na América do Sul, além de São Paulo, a Argentina proíbe a prática.

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