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Fato em Foco

Pouco acostumados com o calor, franceses sofrem com altas temperaturas

Áudio 05:34
Paris conta com uma rede de 108 fontes de água potável distribuídas nas ruas, praças, jardins e bosques. As "Fontaines Wallace".
Paris conta com uma rede de 108 fontes de água potável distribuídas nas ruas, praças, jardins e bosques. As "Fontaines Wallace". REUTERS/Charles Platiau

A França passa por uma semana digna de verão brasileiro: as temperaturas elevadas batem recordes, perto dos 40º à sombra. Em Paris, os termômetros nunca subiram tão alto desde 1947. O fenômeno não é novo – há registros de canicules desde o século 19, época dos primeiros dados armazenados pelo instituto meteorológico francês.

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O verão parisiense costuma ser ameno, com temperaturas em torno de 20ºC. É por isso que, apesar de os picos de calor não serem raros, os franceses não se acostumam com o tempo quente – em geral, eles ficam bastante incomodados.

“Dependendo da idade, a gente pode ter problemas de saúde. Gente que toma bastante medicamento fica mais exposta. Eu levo uma garrafinha de água comigo o dia todo, tento ficar à sombra, fujo do sol”, afirma a professora Roubela. “Me incomoda um pouco, sim. Está quente demais, não tem ar. Tento me hidratar, mas como eu estou fazendo o jejum do ramadã, é ainda mais difícil. A fome eu aguento: o problema é a sede”, diz a aposentada Mamina.

A ONU adverte que as ondas de calor extremo serão cada vez mais frequentes no mundo, uma consequência das mudanças climáticas. Antigamente, os franceses lidavam com picos de altas temperaturas de curta duração. Mas desde os anos 1980, o período de forte calor aumentou.

“Os valores mais altos de temperatura nem sempre são associados a ondas de calor muito longas. É o que está acontecendo agora: a passagem de massas de ar extremamente quentes, que estagnaram na Espanha há vários dias e agora estão passando pela França, a Alemanha e os países do Benelux [Bélgica, Holanda e Luxemburgo]”, observa Robert Vautard, diretor de pesquisas do Laboratório de Ciências do Clima e do Meio Ambiente, um dos maiores institutos de pesquisas sobre o assunto. “Podemos ter picos assim, mas o que os relatórios científicos mostram é que temos cada vez mais períodos longos de onda de calor, que duram vários dias.”

REUTERS/Charles Platiau

Trauma de 2003

Um evento marcou para sempre a percepção dos franceses sobre a gravidade das ondas de calor: a canícula de 2003, que matou 15 mil pessoas no país. A aposentada Varenne Crespin se lembra do quanto sofreu naquele verão.

“A gente suava sem fazer nada. Suava sem parar e não conseguia respirar direito. A gente tinha que ficar fechado no apartamento porque na rua não dava. Foi horrível”, afirma. “Eu pensava que iria morrer.”

Foi a partir deste momento que a França adotou um plano de alerta e prevenção às ondas de calor. Com dias de antecedência, as autoridades advertem a população sobre a chegada do ar quente e divulgam conselhos para as pessoas mais vulneráveis, como crianças e idosos. A recomendação é para que elas sequer saiam de casa. Os hospitais ficam em alerta para o fluxo intenso de pacientes com sintomas de desidratação - medidas simples que não existiam no passado.

“Havia adaptações locais, em pequena escala e que foram aumentando na medida em que a tecnologia de climatização apareceu. Mas as medidas políticas em grande escala surgiram somente em 2003. Não havia nada organizado antes disso”, ressalta Varaud. “Foi a partir dos 15 mil mortos na França – e o triplo de vítimas em toda a Europa – que nós percebemos que era necessário ter um plano, com procedimentos específicos para evitar a repetição de um drama assim.”

REUTERS/Regis Duvignau

Nas ruas, as medidas contam com bastante apoio dos franceses, que se sentem mais seguros desde que o calor passou a ser encarado como um problema de saúde pública. “Eu acho que as medidas são importantes porque temperaturas assim são raras aqui e, por isso, ficam fortes demais para a gente. O plano de emergência é realmente necessário”, comenta Roubela.

Mortalidade aumenta

O pesquisador em meteorologia ressalta que a preocupação pode parecer exagerada – mas não é. Segundo o Vautard, a relação entre a temperatura extrema e o índice de mortalidade é comprovada.

“O índice de mortalidade aumenta bastante quando passamos de 35 graus. A quantidade de mortes vai depender do quanto as pessoas estão preparadas em cada cidade, em relação à moradia, o ar condicionado”, lembra. “E é assim até no Brasil! Não tenho os dados brasileiros, mas tenho certeza de que lá também é assim.”
 

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