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Fato em Foco

Agricultores franceses destroem frango brasileiro em protesto

Áudio 05:06
REUTERS/Jacky Naegelen

Desde o início de julho, os produtores franceses se manifestam contra a queda dos preços do gado, porco e leite. Nesta semana, o movimento se amplificou: dezenas de estradas foram bloqueadas por tratores e a pressão aumenta por medidas a longo prazo, para manter as tarifas em um valor sustentável para a produção. Neste contexto de incertezas, os agricultores condenam a entrada de carne estrangeira na França: um caminhão carregado de frango brasileiro chegou a ser interceptado por produtores, na Bretanha.

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Em protesto, a carne foi toda jogada no chão, em frente à prefeitura. Apesar das barreiras impostas à importação, os agricultores alegam que a França está deixando o mercado ser preenchido por frigoríficos internacionais, principalmente da própria Europa.

Nos supermercados, a maioria da carne é francesa. Nos restaurantes, porém, o produto nacional tem dado lugar à carne espanhola, alemã ou irlandesa. Os agricultores reclamam que o país perdeu espaço no mercado internacional

“O que vemos hoje é que há um verdadeiro problema de competitividade da agricultura francesa. Os nossos vizinhos espanhóis produziam de 40 a 42 milhões de porcos há três anos, hoje produzem 48 milhões. Na França, nós produzíamos 24 milhões há 10 anos e neste ano vamos chegar a no máximo 20 milhões”, explica Luc Smessaert, vice-presidente da Federação Nacional dos Sindicatos dos Agricultores. “Os nossos vizinhos europeus estão produzindo por nós. A nossa mensagem é que é necessário apoiar a produção francesa, a diversidade e a riqueza da agricultura francesa. E o consumir precisa ter essa consciência."

Já faz tempo que a carne brasileira incomoda os produtores franceses. Em 2010, o grupo Carrefour foi obrigado a suspender a venda de carne bovina do Brasil a preços promocionais na França, por causa da pressão da categoria nacional.

O geógrafo francês Hervé Thery, professor da USP (Universidade de São Paulo), acompanhou a expansão da agricultura no Brasil nos últimos anos. Ele viu o país se transformar no maior exportador mundial de gado e frango.

“Para começar, o Brasil é 16 vezes maior do que a França, e o espaço consagrado à pecuária aumentou muito, em especial na Amazônia, onde o grosso da conquista de terras foi para a pecuária. O clima lá é quente, chove bastante, a grama cresce muito – chega a crescer meio metro por ano – e tem poucas doenças”, afirma Thery. “Ou seja, são condições quase ideais. No passado, ninguém pensava em criar gado na Amazônia. Mas uma vez que começou, não parou mais e hoje são milhões de cabeças.”

Preço atraente

A produção em massa faz com que a carne brasileira chegue ao exterior custando menos do que a europeia. E para a maioria dos consumidores, o fator determinante na hora da escolha é o preço.

“Uma fazendinha francesa com cerca de 30 vacas não tem como competir na massa. É impossível. Não adianta nem tentar fazer mais barato do que o Brasil, porque não vai dar”, atesta o pesquisador. “Me chama a atenção que, no Brasil, tem mais bois do que gente: tem 200 milhões de brasileiros e 210 milhões de bois e vacas.”

Qualidade

A carne bovina brasileira tem pouca penetração no mercado francês, ao contrário da de frango. Diante da concorrência internacional, os produtores franceses se focam na produção de uma carne de alta qualidade, com tarifas mais elevadas. Thery lembra que as raças de gado europeias são conhecidas pela excelência.

“Tem uma diferença de qualidade por uma razão simples: as espécies que foram desenvolvidas ao longo dos séculos na Europa. Na França, tem o charolais e o limousin, os ingleses têm o angus. Foram longos séculos até chegar a animais que tenham uma carne macia, gostosa; uma adaptação às condições naturais e ao gosto do freguês”, comenta. “Já no Brasil, não tem tanta seleção porque a ideia é produzir em massa, com gados resistentes. No Mato Grosso, por exemplo, eles largam o gado no campo e praticamente só vão buscar na hora de abater.”

Segundo o ministério da Agricultura da França, cerca de 10% dos produtores franceses estão à beira da falência. O governo anunciou uma ajuda emergencial de 600 milhões de euros para o setor e vai facilitar a renegociação das dívidas dos agricultores – soluções consideradas pela categoria como apenas provisórias.
 

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