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Fato em Foco

Acúmulo de lixo nas ruas de Beirute reflete crise política do Líbano

Áudio 05:32
Acúmulo de lixo nas ruas de Beiture desde julho provocou a revolta da população libanesa.
Acúmulo de lixo nas ruas de Beiture desde julho provocou a revolta da população libanesa. REUTERS/Jamal Saidi

Mergulhado em uma grave crise política, o Líbano também enfrenta nas últimas semanas o caos gerado pelo acúmulo do lixo nas ruas de Beirute, após o fechamento de um depósito na capital, em julho. Desde então, a Beirute está à beira de uma crise sanitária. Várias ruas chegaram a ser bloqueadas pela imensa quantidade de acúmulo de lixo. Para piorar a situação, algumas regiões do país também registram cortes de energia elétrica e de água.

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Revoltados com a passividade das autoridades sobre a falta de coleta do lixo das ruas da capital, um forte movimento popular sacodiu Beirute no último fim de semana. Com muita violência, a polícia tentou conter os protestos, deixando cerca de 70 feridos.

A crise do lixo, no entanto, é apenas um pano de fundo para uma enorme insatisfação popular contra o governo, que está sem presidente há mais de um ano. Um impasse que só o Parlamento pode resolver, mas que não o faz porque, há vários meses, diante da falta de entendimento entre forças políticas opostas, não consegue nem mesmo se reunir.

Sistema político se esgotou

Para o professor do Departamento de Relações Internacionais da PUC-MG, Danny Zahreddine, o caos no Líbano mostra que o complexo sistema político do país, em vigor desde a década de 30, esgotou-se. "O objetivo desse pacto era principalmente aliviar a tensão entre muçulmanos e cristãos, lembrando que o Líbano conta com 18 comunidades étnicas e religiosas. Então, até hoje, a presidência do Líbano só pode ser ocupada por cristãos maronitas, o primeiro-ministro deve ser sempre um muçulmano sunita, o porta-voz do Parlamento fica com um muçulmano xiita, e os ministérios e as cadeiras são divididas entre cristãos e muçulmanos. Mas, hoje, esse sistema não funciona mais."

O professor de História Contemporânea da Universidade Federal do rio de Janeiro (UFRJ), Murilo Sebe Bon Meihy, defende a necessidade de uma mudança no sistema político para superar o sectarismo no Líbano. "Não ter um presidente por mais de um ano é um sinal muito claro que esse pacto não permite mais o consenso entre os parlamentares. As propostas de revisão desse sistema sempre esbarram em critérios confessionais. A própria maneira como o sistema eleitoral funciona faz com que o eleitor esteja relacionado a uma lista de candidatos vinculados a seu grupo confessional, ainda que hoje exista coalizão de partidos. Por isso, a juventude libanesa reivindica uma mudança política urgente", analisa.

Para Zahreddine, as desavenças sectárias chegaram a um ponto tão crítico que serviços básicos, como o abastecimento de água, a distribuição de energia elétrica, e a coleta de lixo começam a ser utilizadas entre disputas de forças políticas opostas. "O que é muito interessante é observar que as mobilizações nas ruas são realizadas por grupos supra sectários, integradas por manifestantes de várias religiões e etnias, mas que querem o fim dessa situação que põe em risco questões fundamentais da vida da sociedade", ressalta.

Nova Revolução dos Cedros

Em 2005, depois do assassinato do ex-primeiro-ministro Rafik Hariri, um forte movimento popular, a Revolução dos Cedros, resultou na retirada das tropas sírias do Líbano. Na época,  o país era fortemente influenciado por Damasco.

Se a mobilização atual tem poder suficiente para uma nova revolução, ainda é cedo para avaliar, segundo Meihy. "Resultados, os manifestantes produzem. A principal questão agora, no entanto, é se o governo vai dar uma resposta para resolver apenas o problema do lixo, mantendo a política sectária, ou se essa mobilização vai se transformar em um movimento político suficientemente forte para mudar o sistema governamental e eleitoral do Líbano", diz o professor.

Para ele, a crise política não deve ser resolvida nos próximos meses. Mas as manifestações são um forte sinal para os políticos libaneses que o país precisa de transformações urgentes.

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