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O Mundo Agora

Quantos milhões de migrantes a Europa pode digerir sem perigosas convulsões internas?

Áudio 04:53
Refugiados caminham por uma rua da estação de trem Keleti, em Budapeste, Hungria, 05 de setembro de 2015.
Refugiados caminham por uma rua da estação de trem Keleti, em Budapeste, Hungria, 05 de setembro de 2015. Reuters/David W Cerny

Foi preciso uma fotografia trágica – o pequeno Aylan morto numa praia turca – para que as populações e os governos da Europa admitissem que o problema dos refugiados e imigrantes não vai desaparecer tão cedo. Fazem meses que milhares de homens, mulheres e crianças morrem afogadas nas águas do Mediterrâneo tentando alcançar a Europa. Só que ninguém se mexia seriamente. Só uma imensa emoção coletiva pôde obrigar políticos e governos a tomar decisões difíceis.

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O insuportável destino fotografado de Aylan mudou o panorama. E os milhares de refugiados sírios marchando a pé para a fronteira austríaca, sem que as tropas de choque do governo húngaro tivessem condições morais para impedi-los, foi a gota d’água. 

Só há um verdadeiro homem de Estado na Europa: Angela Merkel. A chanceler alemã mudou o jogo declarando que a Alemanha está disposta a acolher 800.000 refugiados, começando pelos que estavam atravessando o território húngaro – 20.000 pessoas em dois dias. Berlim também apóia a proposta visando a obrigar cada país da União a aceitar uma percentagem de requerentes de asilo. Uma atitude corajosa – nessa Europa às turras com movimentos xenófobos e racistas – que obrigou os chefes de Estado vizinhos a reagirem. Começando pela França que até então tinha feito corpo mole para cumprir o seu dever humanitário e que agora também declarou que vai integrar mais de 20.000 refugiados. 

Fenômeno pode piorar

Na verdade, todos tomaram consciência de que o êxodo de pessoas fugindo guerras, governos ditatoriais, situações econômicas catastróficas e ameaças climáticas é um fenômeno mundial e que só pode piorar. No mundo há quase 60 milhões de pessoas deslocadas, quase todas vivendo em verdadeiros campos de concentração nos países do Sul e a mercê de traficantes sem escrúpulos. Não adianta fechar os olhos que a dor não vai passar. Está na hora de enfrentar o problema. Senão vai levar de roldão todos os valores e a estabilidade não só dos países pobres expostos aos fluxos migratórios, mas também a própria Europa. Encarar esse desafio é uma questão de vida ou morte para as instituições e a paz europeias. 

Por enquanto, na onda da emoção humanitária, a idéia é respeitar a lei internacional e acolher todas as pessoas que entram na categoria de “refugiados políticos”. E portanto separar os refugiados dos emigrantes por motivos econômicos. Sírios, eritreus, iraquianos serão aceitos, a maioria dos africanos não. Ou melhor: para os emigrantes econômicos, Merkel já anunciou um sistema de quotas em função das vagas de trabalho que precisam ser preenchidas no país. Essa solução é meio humanitária, meio interessada: a Alemanha e outros países europeus estão precisando de jovens trabalhadores estrangeiros para manter o crescimento econômico e o financiamento dos generosos sistemas sociais do Velho Continente. Só que isso tem limites. Até quantas centenas, ou milhões, de prófugos a Europa pode digerir sem perigosas convulsões internas? 

Intervenções militares, políticas e econômicas

Portanto não haverá solução sustentável se os problemas na origem das migrações de massa não forem tratados diretamente. Ninguém abandona a sua terra e se arrisca morrer no caminho do exílio por gosto, mas porque não tem outro remédio. É a guerra na Síria que criou os 4 milhões de refugiados sírios. É urgente encontrar uma maneira de resolver o conflito e reconstruir o país para que todos possam retornar viver em casa. Idem para o Iraque, o Afeganistão ou a Eritreia. Não vai ser mais possível tolerar ditaduras africanas corruptas, que impedem o desenvolvimento de seus próprios países, obrigando milhões de pessoas a fugir e se exilar.

Todas as soluções passam pelo restabelecimento da paz e pela construção de governos responsáveis e legítimos capazes de garantir os modelos econômicos necessários para promover uma vida digna para as populações. Só que isso quer dizer intervenções pesadas – militares, políticas e econômicas – no caos dos países “falidos”. Quem está disposto e quem decide? Deverão ser criados “protetorados internacionais” administrados pela ONU? Claro, ninguém quer por em causa a sacrossanta soberania dos Estados. Mas alguma coisa vai ter que ser feita com um Estado soberano cuja política tornou-se uma ameaça direta para os vizinhos e até para a paz no mundo.

Alfredo Valladão , do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz uma crônica para a RFI às terças-feiras

 

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