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Linha Direta

Direto de Calais: correspondente conta como é a vida dos migrantes

Áudio 06:40
REUTERS/Regis Duvignau

A cidade de Calais, no norte da França, é um reduto tradicional de migrantes e refugiados que esperam uma oportunidade para cruzar clandestinamente o Eurotúnel, para chegar à Inglaterra. O agravamento da crise de refugiados coloca a "New Jungle", como ficou conhecida a área onde milhares se alojam temporariamente na cidade, como um dos locais-chave para entender o novo fluxo migratório.

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Sandro Fernandes, correspondente da RFI em Calais

A New Jungle tem aproximadamente 18 hectares (equivalente a cerca de 18 campos de futebol), 3 mil residentes e é dividida por países. Cada nacionalidade se aglomera em determinadas regiões dessa mini-cidade. Em volta dessas áreas, os pequenos comércios vão se desenvolvendo para atender à demanda que surge. Por exemplo, perto do acampamento dos afegãos foram criados restaurantes que servem comida típica do país.

O local também conta com uma igreja católica, seis mesquitas, uma biblioteca, um centro cultural e até boate. Tudo feito com pedaços de madeira, galhos de árvore e forros de plástico.

Uma parte do acampamento da New Jungle chama atenção por ter várias nacionalidades – é o mini-bairro de classe média e média alta. Pessoas de vários países diferentes que têm uma situação financeira um pouco melhor se organizam, juntos, em um acampamento com melhor estrutura. Ontem, um sírio, que pediu pra não ser identificado, contou que estava instalando uma cozinha nessa área onde ficam pessoas de classe média, que conta com mais ou menos 150 habitantes.

Mas os grupos também se misturam. Assim, o inglês acaba sendo o idioma que todo mundo usa para conversar entre si e para conversar com os voluntários que trabalham no local.

O coordenador da Ong Albergue de Migrantes, François Guennoc, disse que o número de residentes diminuiu nos meses anteriores, já que muita gente conseguiu atravessar o Canal da Mancha. Mas a New Jungle voltou a crescer nas últimas semanas, com mais refugiados chegando à Europa.

Travessia para a Inglaterra

A New Jungle fica a cerca de sete quilômetros da entrada do Eurotúnel, por onde os migrantes tentam atravessar para a Inglaterra. Devido à distância, muitos deles acampam nos arredores e tentam todos os dias a perigosa travessia. Quando a comida do acampamento improvisado acaba, eles voltam para a New Jungle, passam alguns dias descansando, se preparando, fazendo exercícios físicos e depois voltam a acampar na região do Eurotúnel.

Na New Jungle, há muitos feridos, pessoas de muleta ou com membros engessados: consequências das tentativas de tentar fazer a travessia até a Inglaterra. Todos os habitantes conhecem pessoas que conseguiram chegar ao país vizinho, assim como contam histórias de conhecidos que morreram ou sofreram graves acidentes tentando entrar clandestinamente no Eurotúnel.

A insistência em chegar do outro lado do túnel tem um principal motivo: o idioma. A dificuldade em aprender francês ou alemão é uma razão para que estas pessoas, que já sabem inglês, queiram ir pra Inglaterra.

Perfil dos migrantes

Na rota que os refugiados fazem para entrar na Europa pelos Bálcãs, a maioria absoluta (80%) é de sírios que saíram há pouco tempo do país em guerra ou que estavam na Turquia, esperando uma oportunidade para entrar na Europa. E nos Bálcãs, pelo menos 35% das pessoas são mulheres e crianças. Na rota que leva a Calais, o perfil é diferente – apenas 5% são mulheres ou crianças e eles ficam quase todos em um acampamento separado, de melhor qualidade, organizado por uma Ong.

Muitos habitantes da New Jungle são recém-chegados de países em conflito, principalmente da África. Mas no local também há pessoas que já estão há anos na Europa em um "limbo legal" e decidiram tentar a sorte no Reino Unido.

Perfis heterogêneos

Os perfis em Calais são muito heterogêneos, como um afegão que fala francês perfeitamente e que mora há sete anos na França, mas que diz que não quer mais morar no país. Ele já teve problemas com a polícia, por venda de drogas, e passou mais tempo preso do que em liberdade.

Outro jovem, da Etiópia, estudante de Direito, contou que fugiu do país por falta de liberdade política. Ele fala bem inglês e seu único sonho por enquanto é terminar os estudos.

Manifestação

Duzentas pessoas se manifestaram nesse fim de semana em Calais pelo acolhimento dos migrantes. No centro da cidade, carregaram cartazes em inglês e em francês, com frases como “Fim das fronteiras”, “Nenhum ser-humano é ilegal” ou “Não somos perigosos. Estamos em perigo”.

Quase todos os participantes eram refugiados e migrantes. A polícia cercou o centro da cidade, visivelmente preparada para possíveis confrontos, carregando gás pimenta e outras armas de efeito moral. Mas a manifestação acabou ocorrendo sem grandes problemas.

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