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O Mundo Agora

Fechar fronteiras precipitaria a Europa numa profunda crise

Áudio 05:03
Policiais param um grupo de migrantes perto da cidade de Roszke, na fronteira serbo-húngara, em 9 de setembro de 2015.
Policiais param um grupo de migrantes perto da cidade de Roszke, na fronteira serbo-húngara, em 9 de setembro de 2015. AFP PHOTO / CSABA SEGESVARI

Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. É o dilema dos europeus diante do desafio migratório. Manter-se fiel aos valores humanistas e às convenções internacionais sobre o direito de asilo e arriscar uma crise política e social que pode destruir a Europa. Resolver o problema na origem, restabelecendo paz e prosperidade nas regiões em guerra no Oriente Médio e na África, e se atolar no beco sem saída das aventuras militares. Claro, essas escolhas poderiam ser evitadas se não fosse a urgência.

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A Alemanha sacudiu a Europa declarando que ia acolher 800.000 refugiados sírios. Mas foi obrigada a restabelecer o controle das fronteiras para canalizar uma enxurrada massiva de novos exilados. O dever e os valores humanitários e legais bateram na realidade política: diante do tsunami de pedidos de asilo sem fim à vista, não há governo ou sociedade − por mais acolhedores que sejam − que consiga eternamente integrar refugiados sem provocar xenofobia, rejeições violentas e graves crises políticas internas.

O governo de extrema-direita húngaro já construiu um muro intransponível na fronteira com a Sérvia. Outros países do Leste europeu, que sonhavam em emigrar para o Ocidente durante a ocupação soviética, são hoje os mais ferrenhos adversários de um sistema de quotas para acolher os prófugos. Países da Europa ocidental, como a Holanda ou a Áustria, também restabeleceram os controles.

Livre circulação está ameaçada

Os acordos de Schengen, que garantiram durante 20 anos a livre circulação das pessoas dentro da União Europeia, estão ameaçados. Mas a livre circulação é a viga mestra da construção europeia e o fundamento do bom funcionamento da sua economia. A volta de fronteiras fechadas precipitaria a Europa numa profunda crise econômica e social. Nada melhor para os partidos políticos chauvinistas e racistas que promovem o ódio contra os migrantes e refugiados, mas também contra os próprios vizinhos europeus e até cidadãos nacionais “culpados” de ter outra religião ou cor de pele. A História já mostrou que quando a Europa entra nesse clima, uma guerra continental não está longe. E todos nós sabemos que um conflito europeu pode rapidamente virar uma guerra mundial.

O problema é que o número de refugiados só vai aumentar, com ou sem muros nas fronteiras. Não dá mais para continuar empurrando com a barriga. Inventar um sistema coletivo para integrar os refugiados de maneira organizada e politicamente aceitável é a única maneira de evitar a desintegração da construção europeia e o aparecimento de grupos radicais propondo alternativas hediondas como campos de concentração ou até o extermínio dos requerentes de asilo. Só que isso não basta. É impossível encarar o desafio sem atacar o mal pela raiz.

Os quatro milhões de sírios que desembarcam na Europa e nos países vizinhos do Oriente Médio estão fugindo da selvageria tanto do “Estado Islâmico” quanto do governo de Bashar Al-Assad. Para estancar esse fluxo não há solução senão derrotar um e outro e restabelecer um país viável e em paz.

Intervenções militares parecem inevitáveis

Queiram ou não os europeus, isso terá de passar por uma intervenção militar. A diplomacia pode e deve ajudar, mas não vai resolver. Também não dá para evitar ações militares para ajudar países africanos que enfrentam ofensivas terroristas de grande envergadura, como as de Boko Haram ou dos radicais islamitas que arvoram a bandeira do Estado Islâmico. Só que, desde 1945, a Europa se habituou a viver protegida pelo guarda-chuva militar americano. Tirando a França e a Grã-Bretanha, a grande maioria das opiniões públicas europeias não quer saber de aventuras militares, nem mesmo para defender seus próprios valores. A questão é que hoje, os Estados Unidos não estão mais a fim de fazer todo o trabalho de defesa no lugar dos europeus.

Se quiser sobreviver, a Europa está diante de uma verdadeira revolução: aceitar ter sociedades mais multiculturais e multireligiosas, e assumir a sua parte das intervenções militares para estabilizar as regiões em crise que provocam migrações de massa. Nada disso vai ser fácil e o resto do mundo vai sentir na pele o impacto das escolhas que serão feitas por esta tão velha Europa.

Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz uma crônica de política internacional às terças-feiras para a RFI Brasil

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