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Linha Direta

"Efeito Brasil" faz estragos nos vizinhos da América do Sul

Áudio 05:54
As exportações da Argentina, Uruguai e Paraguai ao Brasil vêm caindo em torno de 25% ao mês.
As exportações da Argentina, Uruguai e Paraguai ao Brasil vêm caindo em torno de 25% ao mês. EBC

Com metade da população e com mais da metade do Produto Interno Bruto da América do Sul, qualquer problema no Brasil afeta diretamente os seus vizinhos. A combinação de uma elevada desvalorização do real, de uma economia brasileira em recessão e de cortes crescentes no gasto público é uma tempestade perfeita do Brasil para os sul-americanos.

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Marcio Resende, correspondente da RFI Brasil em Buenos Aires

Para piorar essa combinação econômica, a crise política, os escândalos de corrupção e agora a perda do grau de investimento impactam na vizinhança. É o chamado "Efeito Brasil" que faz estragos principalmente em Bolívia, Uruguai, Paraguai e, sobretudo, Argentina.

Crise brasileira

O recuo dos preços das matérias primas a partir do menor ritmo da economia chinesa, a perspectiva de aumento de juros nos Estados Unidos e a crise brasileira afetam diretamente o desempenho econômico dos países sul-americanos.

Mas, para alguns países da vizinhança, é a crise brasileira a principal dor-de-cabeça. Se antes o Brasil era o motor da região, agora esse motor enguiçou. Em menos de três anos, o Brasil passou da euforia à depressão e os vizinhos sentem os efeitos dessa onda expansiva.

O Brasil é o principal mercado comprador de alguns países vizinhos. Uma recessão, agravada por crise política, encolhe esse mercado tão crucial.

Além disso, enquanto o real sofreu uma desvalorização em torno de 70% nos últimos 12 meses, os países vizinhos tiveram uma desvalorização muito menor. Com isso, esses países perderam competitividade.
Em outras palavras, os produtos de alguns vizinhos ficaram mais caros e os produtos brasileiros ficaram mais baratos. Com isso, diminuem drasticamente as exportações desses países para o Brasil enquanto aumentam as exportações brasileiras para a vizinhança.

Como a crise afeta os vizinhos

Segundo o mais recente relatório da Comissão Econômica para a América Latina, a CEPAL, a América do Sul terá uma retração de 0,4%. O relatório, no entanto, foi divulgado em 28 de julho e não leva em consideração a piora das economias da China e do Brasil. A perda do grau de investimento do Brasil, os cortes no gasto público e a maior desvalorização do real vieram depois. Ou seja: a América do Sul está em estagnação ou em recessão e o panorama tende a piorar.

Por exemplo, nesse estudo, a retração da economia brasileira é de 1,5% enquanto agora o mercado já projeta uma retração de 2,5%. A Argentina aparece com crescimento nulo enquanto o mercado também projeta retração por aqui.

Os mais afetados são aqueles que dependem mais da economia brasileira como os sócios do Mercosul: Argentina, Paraguai e Uruguai, mas também a Bolívia que vende gás para o Brasil.

O Brasil absorve cerca de 20% das exportações de Argentina e Uruguai, e cerca de 30% das exportações de Paraguai e Bolívia. As exportações de Argentina, Uruguai e Paraguai ao Brasil têm caído em torno de 25% ao mês.

Só neste ano, o real já se desvalorizou acima de 40% enquanto as moedas dos sócios do Mercosul menos da metade. Então, a desvalorização do real, seguida de recessão, força os vizinhos a desvalorizarem as suas moedas e a conviverem com pressão inflacionária.

Impacto na Argentina

Além disso, o rebaixamento da nota creditícia do Brasil pode ter um efeito sobre os vizinhos porque os países desenvolvidos tendem a perceber a região como uma coisa só, em que um afeta o outro. E de todos os países, o mais prejudicado é a Argentina porque o panorama por aqui é dramático.

O contexto é dramático porque a Argentina já convivia com escassez de dólares, com recessão e com inflação de 30% ao ano. A crise no Brasil chega em pleno processo eleitoral até 25 de outubro.

As exportações argentinas para o Brasil caíram 22,6% neste ano. A cada mês, a queda é maior. Em agosto, diminuíram 27,9%.

O comércio bilateral, o mais intenso de todos na região, caiu 16,8% até setembro. Já tinha caído 22% no ano passado.São dois anos de queda constante. Se compararmos com 2011, melhor ano do comércio bilateral, a queda chega a 40%.

A indústria automotiva argentina tem suspendido parte da produção, orientada basicamente ao Brasil. As fábricas tem dado folgas e reduzido salários.

O panorama da economia brasileira mete mais pressão por uma desvalorização do peso argentino. A cada nova desvalorização no Brasil, mais pressão aqui. A Argentina está contra as cordas.

Mas a presidente Cristina Kirchner não quer pagar o custo político de uma desvalorização até deixar o cargo em 10 de dezembro. E à medida que adia a situação, queima as escassas reservas do Banco Central e diminui a margem de manobra. O próximo presidente terá uma bomba-relógio para ser desativada. A maioria dos analistas prevê uma forte desvalorização da moeda argentina depois das eleições.

 

 

 

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