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Fato em Foco

Um ano do massacre no México: falta de respostas reforçou mobilização

Áudio 04:58
Na cidade do México, homem passa em frente a um grafite em apoio ao movimento pelos 43 alunos desaparecidos: "Ayotzy, foi o Estado" - 26 de abril de 2015
Na cidade do México, homem passa em frente a um grafite em apoio ao movimento pelos 43 alunos desaparecidos: "Ayotzy, foi o Estado" - 26 de abril de 2015 REUTERS/Tomas Bravo

Na última quinta-feira (24), na cidade do México, o presidente Enrique Peña Nieto se encontrou com os pais dos 43 estudantes desaparecidos no dia 26 de setembro de 2014, quando participavam de uma mobilização na cidade Iguala. Do encontro, requisitado pelos próprios parentes das vítimas, os mais de 100 familiares saíram decepcionados e acusando o presidente de nutrir "uma grande indiferença" pela investigação independente que tenta descobrir o que realmente aconteceu ao grupo de estudantes.

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Para o diretor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais, Gilles Bataillon, as famílias têm razão em criticar o presidente. Para ele, o presidente mexicano "é completamente capaz de levar essa investigação até o fim, (...) se tiver vontade política". Mas talvez não o faça, principalmente pelo fato de que pesam suspeitas sobre a polícia federal e o exército, que teriam ajudado narcotraficantes a desaparecer com os corpos.

A dimensão da tragédia impediu o governo de se livrar do caso com uma explicação qualquer. Um relatório de 500 páginas produzido pela CIDH ( Comissão Interamericana de Direitos Humanos), um agrupamento independente, assistido pela Anistia Internacional, foi apresentado no começo do mês de setembro e contradiz vários pontos da versão oficial. Entre eles, a suspeita de que os corpos teriam sido incendiados.

Para o sociólogo e especialista em movimentos sociais Geoffrey Pleyers, da Universidade católica de Louvain, na Bélgica, os problemas mexicanos são locais, mas também alcançam o âmbito internacional, principalmente quando envolvem o narcotráfico. Isso, na opinião dele, justifica um auxílio exterior: “as instituições internacionais emergem como parte da solução. Como é o caso da comissão estrangeira que investigou o caso de Ayotzinapa. Eles são estrangeiros e é por isso que os mexicanos abraçaram o relatório deles”, explica. Sintoma grave do nível de descrédito que atinge o governo de Enrique Peña Nieto.

Para o pesquisador e professor do Instituto de Altos Estudos da América Latina, em Paris, Jean Rivelois, que esteve presente nas manifestações na Cidade do México entre dezembro e janeiro últimos, o problema é que “a oferta política não corresponde à demanda”. Ele acredita que as instituições estão corroídas pela corrupção, mas há também uma crise de representatividade: “O povo gostaria muito de poder votar por partidos alternativos, mas eles ainda não existem a não ser no Estado de Jalisco, onde o Movimiento Ciudadano ganhou as ultimas eleições regionais”, afirma Rivelois.

Bataillon explica que essa não é a primeira vez que o México vive uma crise de representação política, mas que essa situação costuma derivar de sérios problemas econômicos: “Um momento de descrédito como esse aconteceu só em grandes crises da moeda mexicana ou depois da fraude eleitoral de 88, por exemplo”. Para ele, o momento é decisivo: “estamos diante de um evento que revela todas as fragilidades do estado de direito mexicano e leva as pessoas a desconfiarem do poder presidencial e a se perguntarem para onde vai o país diante de um desafio como este”.

Por que tanta visibilidade?

O caso de Ayotzinapa chocou o México e fez a história dos estudantes camponeses viajar o mundo. Geoffrey Pleyers acredita que o efeito da tragédia nos movimentos sociais aponta as razões para tamanha midiatização do caso: “Tanto o acontecimento em si quanto a mobilização que ele causou rearticularam toda uma rede de movimentos sociais que já existia previamente e que ganhou uma nova dinâmica e um novo sentido com o caso da escola normal”, explica.

“E o que é mais interessante é que isso articulou o setor urbano e rural com manifestações também na cidade, mas com uma raiz no campo, onde também se desenvolveram outros grandes movimentos mexicanos”, completa, lembrando a Revolução Mexicana e toda a militância zapatista.

O que sabemos sobre a noite de 26 de setembro de 2014

De acordo com o relato dos sobreviventes, um grupo de policiais fuzilou um ônibus que transportava estudantes da Escola Normal Rural de Ayotzinapa. Os jovens participavam de um evento de coleta de fundos para a manutenção de uma escola da região e pretendiam seguir depois à marcha nacional em memória dos estudantes mortos em 1968, marcada para o dia 2 de outubro, na cidade do México.

Três dos cinco ônibus do comboio se perderam e foram atacados pela polícia. Os estudantes revidaram com pedras, mas, pouco antes de retomarem o caminho, um novo ataque aconteceu e um dos ônibus não conseguiu escapar. Da noite do dia 26 à madrugada do dia 27 de setembro, os estudantes sofreram quatro ataques. Seis pessoas morreram, 29 ficaram feridas e 43 ainda estão desaparecidas.

No ano passado, o procurador federal declarou que policiais municipais entregaram os estudantes ao cartel do narcotráfico Guerreros Unidos, que teria matado o grupo e incinerado os estudantes em um depósito de lixo de Cocula, cidade vizinha de Iguala, para depois jogar suas cinzas em um rio. Mas a comissão independente rejeitou esta conclusão.

Um especialista em manipulação de fogo disse que para queimar os 43 corpos, seus agressores teriam precisado de 60 toneladas de madeira e pneus, fogo que não passaria despercebido pela população da região.

O gabinete da procuradoria defendeu a investigação oficial, insistindo que um bom número dos 43 estudantes foi incinerado neste local. Os restos mortais do único estudante que foi identificado, Alexander Mora, foram encontrados no fundo de um rio. Mas a comissão independente afirmou que os ossos foram encontrados em um local que está a várias horas de carro do lixão.

 

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