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O Mundo Agora

Separatismo na Catalunha é sintoma de doença na Europa

Áudio 05:03
Nacionalistas vencem eleições na Catalunha
Nacionalistas vencem eleições na Catalunha REUTERS/Andrea Comas

O resultado das eleições na Catalunha é muito mais um sintoma do que um terremoto político. Não é só a Espanha que anda doente. É a Europa inteira. Os catalães favoráveis à independência ganharam uma curta maioria na Câmara, mas perderam o que eles próprios chamavam de “referendo”.

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A maioria dos eleitores votou contra a secessão. O chefão do independentismo, Artur Mas, já declarou que a maioria parlamentar bastava para negociar o divórcio com Madri. Só que os independentistas, que vão da direita nacionalista à extrema-esquerda anticapitalista, estão divididos. E não há consenso se o divórcio tem que ser amigável ou uma ruptura brutal. Além disso, vai ser muito difícil proclamar uma Catalunha independente contra uma maioria da população e, sobretudo, contra a capital, Barcelona, que não quer saber de aventuras.

Mesmo se tudo isso der com os burros n’água, o fato de passar dois anos negociando uma secessão só pode criar instabilidade e crises na Espanha e, por tabela, no resto da Europa. Dois políticos flamengos, que querem ver a Flandres romper com a Bélgica, já começaram a celebrar. Os nacionalistas escoceses que, no ano passado, perderam um referendo para sair da Grã-Bretanha, já querem recomeçar. Outros movimentos regionalistas – independentistas, autonomistas ou que reivindicam só uma maior devolução de poderes – estão ganhando força em muitos países europeus.

Conjunção de ameaças abala democracia

Esse nacionalismo local vem se misturando com um fenômeno muito mais inquietador: o sucesso cada vez maior de partidos nacionalistas e soberanistas, claramente xenófobos e racistas. Pior ainda, esse nacionalismo exacerbado e até chauvinista está atraindo tanto a extrema-direita quanto a extrema-esquerda, abalando a democracia em vários estados europeus.

Esse coquetel tóxico está ameaçando toda a construção europeia que já não precisava de um problema adicional. A Europa está enfrentando a famosa “tempestade perfeita”: uma crise econômica que não acaba, milhares de refugiados e migrantes chegando a cada dia, a crise grega que ainda não passou, a ameaça russa na Ucrânia e nas fronteiras da Europa do Leste, os atentados terroristas... É areia demais, até para o caminhãozão europeu. É aliás essa conjunção de ameaças que está dando corda aos movimentos soberanistas.

Os nacionalistas à antiga e os nacionalistas regionalistas tem uma coisa em comum: estão convencidos que seus governos nacionais vivem numa bolha tecnocrática e perderam qualquer capacidade de resolver os problemas da população.

Metade dos catalães consideram que Madri é um grande sanguessuga que os explora. E que um Estado independente, mesmo pequeno, é a melhor opção para sair do buraco. Quanto aos soberanistas nacionais, eles culpam as instituições europeias por todos os males e acusam os líderes de suas capitais respectivas de trair o interesse nacional em nome de uma União Europeia que sufoca as nações. Daí a ideia de fechar de novo as fronteiras e tomar o poder para instalar governos fortes e autoritários para resolver tudo na marra.

Pior é que os grandes e pequenos nacionalismos europeus não combinam. Os grandes querem se ver livres da Europa, enquanto os pequenos sabem que não teriam nenhuma chance de sobreviver economicamente, e até do ponto de vista da segurança, sem o guarda-chuva das instituições europeias. É claro que no mundo globalizado de hoje nenhum país europeu tem condições de prosperar sozinho com muros em volta.

Mais Europa

O fim da União Europeia seria uma catástrofe econômica terminal para praticamente todos os Estados membros. Por outro lado, uma Europa fragmentada em pequenas regiões soberanas não teria condições de manter a sua unidade e coesão. Com 28 membros já é difícil, imaginem com cinqüenta! Não há dúvida de que os governos nacionais estão perdendo espaço diante dos desafios globais.

Voltar para os Estados do começo do século XX, ou sonhar com a fragmentação regionalista do continente, só pode acelerar a crise atual e desmanchar as instituições democráticas nacionais, regionais ou supranacionais. No Velho Continente, já sabemos como isso acaba: em horríveis guerras que sempre levam o resto do mundo de roldão. Hoje, os Europeus estão precisando de muito mais Europa, e não de menos.

Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz uma crônica de política internacional às terças-feiras para a RFI Brasil.

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