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O Mundo Agora

Queda de avião russo no Egito complica estratégia de Putin

Áudio 04:48
Funeral em São Petersburgo de uma das 224 vítimas do Airbus A321M operado pela empresa KogalimAvia.
Funeral em São Petersburgo de uma das 224 vítimas do Airbus A321M operado pela empresa KogalimAvia. REUTERS/Peter Kovalev

O porta-voz do Kremlin não deixou por menos: acusou o jornal satírico francês, Charlie Hebdo, de “blasfêmia”. Para quem não se lembra, o Charlie Hebdo é aquele semanário humorístico cujos dirigentes foram massacrados por um comando terrorista islamista por ter publicado caricaturas de Maomé. Desta vez, foi só uma gozação – de mau gosto, diga-se de passagem – que o Charlie fez do atentado à bomba contra o avião de linha russo que caiu há dez dias atrás no Sinai. Que o governo russo não tenha achado nenhuma graça é perfeitamente compreensível. Mas daí a enveredar para acusações de cunho religioso é pelo menos curioso.

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A queda do avião russo no Egito, cheio de turistas, foi um baque sério para os cálculos estratégicos de Vladimir Putin. Há mais de um mês, a força aérea russa vem bombardeando os grupos islamistas ou laicos sírios que ameaçam diretamente o regime alauita de Bashar Al-Assad – e poupando cinicamente o grupo terrorista “Estado Islâmico”.

Os pilotos russos estão apoiando uma ofensiva terrestre de tropas de soldados do regime sírio, combatentes do Hezbollah – a milícia xiita libanesa – e militares xiitas iranianos. Só que todos os primeiros avanços dessa coalizão xiita com cobertura russa, já foram revertidos.

Os russos estão aprendendo mais uma vez a lição que os americanos também tiveram que engolir: uma guerra se ganha com botas no chão e não só com bombardeios aéreos.

O problema é que a Rússia apoiando os xiitas está sendo considerada na região como “inimiga” dos sunitas. E o atentado contra o avião de linha russo parece ser obra de terroristas sunitas do dito “Estado Islâmico”. Nada pior para Putin do que acabar atolado numa intervenção militar no meio de uma guerra de todos contra todos no Oriente Médio.

A população, e boa parte dos dirigentes russos, não esqueceu a desastrosa intervenção soviética no Afeganistão. Putin ainda é popular dentro de casa, mas ninguém quer repetir a experiência.

Intervenção russa pode "importar" terroristas

A ideia inicial era salvar o regime de Bashar Al-Assad, que estava quase caindo, e a partir de alguns sucessos militares angariar cacife para sentar na mesa com os Americanos, os Europeus e as potências regionais para negociar o futuro político da região. Tudo bem baratinho, sem perdas humanas russas.

Não estava nos planos do Kremlin ter que enfrentar atentados de grupos terroristas sunitas contra civis russos. Pior ainda: quase 4.000 combatentes chechenos estão na Síria, junto com o “Estado Islâmico”, com vontade de vingança contra o regime russo que esmagou a revolta da Chechênia em 1999.

A Rússia sempre teve a sua chamada “barriga mole”: as regiões do sul do país, do Cáucaso ao mar Cáspio, onde vivem quase 20 milhões de muçulmanos sunitas. A intervenção russa na Síria pode perfeitamente acabar importando grupos e técnicas do terrorismo sunita para dentro da Rússia e uma guerra latente dos sunitas contra Moscou.

Sem falar no ressentimento das potências sunitas regionais, a Turquia e a Arábia Saudita, que não acham a mínima graça em ver o Irã sair reforçado pela aliança com Moscou, e a força aérea russa bombardear os seus aliados sírios, “esquecendo” os extremistas do “Estado Islâmico”.

"Tiro pela culatra"

Entrar numa briga é fácil, sair é que é difícil. A jogada de Putin na Síria também era para esquecer o atoleiro em que ele se meteu na Ucrânia, onde ele só conseguiu provocar pesadas sanções econômicas contra a Rússia e ficar com os custos de uma ocupação paramilitar sem futuro. Uma campanha rápida e brilhante no Oriente Médio ia limpar a barra. Mas o tiro saiu pela culatra.

A Rússia virou só mais um dos grupos atolados na Síria, sem esperança de sair do buraco rapidamente e aumentando, em muito, os próprios problemas de terrorismo interno. Falar de “blasfêmias”, junto com a Igreja ortodoxa russa, é acrescentar mais uma confusão religiosa ao problema. A verdade é que Putin quanto mais fraco, mais quer mostrar os músculos. Mas o beco é sem saída.
 

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