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Jornais analisam falhas na inteligência que possibilitaram atentados em Paris

"Por que não pegamos eles?", pegunta o Libération.
"Por que não pegamos eles?", pegunta o Libération. Reprodução

Os atentados de Paris continuam nas manchetes dos jornais franceses. A questão que tanto Libération quanto Le Figaro se colocam nas edições desta quinta-feira (26) é: como quase dez terroristas conseguiram passar por todos os serviços de inteligência europeus e realizar um ataque planejado durante cerca de oito meses no coração da capital da França? Os dois jornais concordam que os ataques da sexta-feira 13 obrigam a União Europeia a repensar sua estratégia em matéria de segurança.

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Libération dedica dez páginas à análise das razões que levaram ao cheque mate da inteligência europeia pelos jihadistas. Em editorial, o jornal lembra que, logo depois dos atentados, o ministro francês do Interior, Bernard Cazeneuve, negou a existência de falhas na investigação e no acompanhamento dos radicais. E pede transparência, afirmando que a "negação não reduz a ameaça". Para especialistas ouvidos pelo jornal, é inegável que os serviços de inteligência precisam passar por uma espécie de revolução cultural: eles ficaram parados na lógica da guerra fria, quando o importante era o tratamento longo e paciente de informações secretas.

"O terrorismo é um problema de curto prazo, baseado na troca de informações". E é justamente na troca de informações que se encontra um dos maiores gargalos: os países europeus, apesar da unidade econômica, não têm uma cultura de cooperação na área de segurança e sequer dispõem de órgãos eficientes para isso. A inteligência, a polícia, a justiça e a defesa permanecem no plano nacional. "Foi só depois dos atentados de 2015, que os Estados começaram a compartilhar efetivamente listas de nomes".

Libération observa ainda que a atualização, quando acontece, é mal-feita: a França, por exemplo, tem se dedicado à inovação tecnológica no setor de inteligência, em detrimento da análise. Assim, investe-se em supercomputadores e equipes inteiras de engenheiros e profissionais de TI, sem que haja uma equipe à altura para interpretar os dados que eles compilam.

Idas e vindas entre Europa e Síria

Para Libération, o próprio percurso de cada um dos terroristas evidencia as falhas. Mesmo sendo o jihadista mais procurado da Europa, o belga Abdelhamid Abaooud, mentor dos atentados, conseguiu entrar e sair do bloco várias vezes, sem quase ser incomodado. O jornal, que analisa individualmente o processo de radicalização de cada um deles, observa que o belga chegou a ser controlado pela polícia de Colônia, na Alemanha, um janeiro de 2014, quando embarcava para Istambul.

Ele já era procurado e viajava com documentos verdadeiros para um notório ponto de passagem dos candidatos à jihad na Síria. Mas as forças de segurança alegaram que ele não se parecia fisicamente com a foto no mandado internacional de prisão emitido contra ele por envolvimento com atividades terroristas. O caso dos irmãos Brahim e Salah Abdeslam é mais complicado porque os dois eram conhecidos da polícia por crimes comuns, como tráfico de armas e drogas. Como não figurava na lista de suspeitos de terrorismo, Salah pôde passar por uma barreira policial no norte da França depois dos atentados e continua foragido. Brahim se explodiu diante do Stade de France.

Guru da jihad

Le Figaro traz um mapa das ligações entre diversos jihadistas, que mostra como peças-chave da radicalização de jovens franceses atuam debaixo das barbas dos serviços de inteligência. Um deles, a quem Le Figaro dedica o editorial, é o "Emir Branco", Olivier Corel.

Este homem, chamado de "guru da célula jihadista de Arigat-Toulouse", doutrinou os irmãos Clain, que aparecem no vídeo de reivindicação dos ataques contra Paris. Também estiveram sob sua tutela os irmãos Abdelkader e Mohamed Merah. Em março de 2012, este último, conhecido como o assassino de Toulouse, matou três militares, um professor de uma escola judaica e seus dois filhos, antes de ser cercado em um apartamento e morto pela tropa de choque da polícia francesa.

Olivier Corel foi ouvido pela polícia apenas na última terça-feira (24) e condenado a apenas seis meses de prisão.

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