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Saúde

Vítimas dos atentados de Paris enfrentam danos psicológicos

Áudio 05:06
Pessoas se abraçam diante do Bataclan, sala de shows onde 90 pessoas foram mortas.
Pessoas se abraçam diante do Bataclan, sala de shows onde 90 pessoas foram mortas. REUTERS/Christian Hartmann

Quase dois meses após os atentados de 13 de novembro em Paris, a ferida do trauma ainda está aberta. Muitas pessoas que vivenciaram os ataques, ou familiares e amigos de vítimas, e até mesmo quem não teve uma relação direta com o triste episódio, mas o acompanhou através das mídias, descobriu que não é tão simples superá-lo.

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Nas últimas semanas, psicólogos e psiquiatras parisienses foram extremamente solicitados. A maioria das pessoas acreditava que havia virado a página, mas muitos descobriram que o caminho para compreender e aceitar a tragédia é muito mais longo.

A psicóloga franco-brasileira Elisângela Deserbais trata de alguns desses casos e ressalta que a volta à realidade é uma etapa difícil na vida das pessoas que viveram incidentes graves, como os atentados. "Depois que passa o estado de choque, a pessoa pensa que superou o trauma. Mas aí aparecem sintomas como insônia, aumentam os níveis de cortisol, que é o hormônio do stress; assim como os níveis dos hormônios da hipófise e da tireoide, além de desenvolver ansiedade, a dificuldade de frequentar lugares onde há muitas pessoas. E aí a pessoa percebe que não consegue voltar ao normal”, explica.

É o caso da jovem Clarisse. Ela estava no Bataclan no último dia 13 de novembro e foi ferida pelos terroristas que invadiram o local, durante o show do grupo de rock Eagles of Death Metal. Depois da tragédia, a francesa de 24 anos deixou para trás a vida em Paris e voltou para a casa dos pais, na região de Morbihan, no noroeste da França, onde tenta se recuperar. Ela conta que as feridas físicas foram curadas, mas que enfrenta graves danos psicológicos. “Não vivo mais normalmente. Tem algo que mudou em mim. Sinto um medo profundo e constante, como se houvesse uma nuvem preta todo o tempo sobre a minha cabeça. Sem dúvidas, guardo uma ‘ferida psicólogica’ desse ataque. É preciso que eu tome consciência disso. Não é fácil.”

O francês Laurent também estava no Bataclan no 13 de novembro. A RFI ele contou que, para superar o trauma, sua estratégia é se concentrar na solidariedade e na coragem que presenciou nesse dia. “Ainda estou tentando lidar com isso na minha cabeça. O que sinto é que preciso evitar, a qualquer custo, que eu me deixe vencer pela raiva. Então, em nome da minha saúde psicológica, eu me apego às belas coisas que eu pude vivenciar nesta fatídica noite, como o comportamento corajoso e solidário das pessoas que, mesmo em perigo, pensaram primeiro em ajudar os outros. Eu compreendi que, para manter minha saúde mental, eu sei que não posso me deixar ganhar pelo ódio ou por sentimentos negativos. Preciso me apegar a coisas positivas para superar essa experiência traumatizante.”

Reações e recuperação variam

Deserbais ressalta que as reações do stress pós-traumático variam de acordo com a pessoa. “Algumas pessoas sentem muita angústia, outras não conseguem esquecer o que viveram, outras desenvolvem uma insensibilidade afetiva, e muitas estão em constante vigilância. De todo o jeito, é importante lembrar que esses comportamentos variam em relação a cada um.”

Segundo a psicóloga, ao sentir que a dificuldade de superar o trauma atrapalha a rotina e o controle das emoções, é necessário buscar ajuda especializada. Ela explica que o mais importante é que as pessoas falem sobre o que viveram para aliviar o sofrimento. “Passado o stress, quando as emoções estão mais estáveis, tentamos ajudar as pessoas a organizar suas ideias e seus sentimentos. Por fim, há o tratamento a longo prazo, uma terapia que pode durar meses ou anos, com o objetivo de promover a catarse”, explica.

Deserbais ressalta que “o que cura é a palavra”. Ela lembra que deixar que o paciente fale para expressar suas emoções, aliviar a tensão, possibilitando que a pessoa volte a viver normalmente. Paralelo à terapia, existem outras técnicas, como a hipnose e tratamentos ansiolíticos, no caso de experiências como essas desencadearem doenças como depressão.

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