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Brasil-América Latina

Argentinos revivem Vinícius de Moraes e La Fusa em Buenos Aires

Áudio 04:34
Vinícius de Moraes, em 1970.
Vinícius de Moraes, em 1970. Foto: wikipedia

Se a Bossa Nova ganhou o mundo a partir das célebres apresentações no Carnegie Hall de Nova Iorque em 1962, a Argentina teve a sua mini versão no La Fusa em 1970 numa história pouco conhecida no Brasil. Agora, 46 anos depois, os argentinos recriam a passagem mais determinante para a música popular brasileira na Argentina.

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Márcio Resende, correspondente em Buenos Aires

Em 1970, num café chamado La Fusa, em Buenos Aires, um trio de músicos liderado por Vinícius de Moraes faria uma série de apresentações que se tornariam legendárias. Os shows ficariam imortalizados num álbum com o nome do mítico café. O "Vinícius de Moraes en La Fusa" é considerado o disco de música brasileira mais vendido na história da Argentina, a tal ponto que hoje é mais conhecido o título do disco do que o do extinto café.

La Fusa virou sinônimo de Bossa Nova, de Vinícius e de dois então desconhecidos músicos, Toquinho e Maria Creuza. Maria Creuza, aliás, até hoje é mais popular na Argentina do que no Brasil. O sucesso do disco foi tanto que, no ano seguinte, seria gravado um segundo álbum, desta vez com Maria Bethânia no lugar de Maria Creuza, no La Fusa de Mar del Plata (havia ainda uma terceira filial em Punta del Este, Uruguai).

Mas nada se igualaria ao "La Fusa" original. Por isso, 46 anos depois, a lenda do disco continua viva em Buenos Aires e se reproduz todos os sábados numa outra casa, a Notorius, que revive exatamente o ambiente do disco e dos shows de 1970.

Espírito de Vinícius

Lilian Hernández, de 49 anos, cresceu ouvindo o La Fusa. A sua sensação agora é a de ter sido transportada no tempo. "Acho que eles conseguiram recriar o espírito do show e do disco. Eu senti o espírito do Vinícius no palco.
O show é exatamente igual e eu me senti como se estivesse na gravação original", descreve, logo após o show. "Um espírito festivo, mas com um pouco de tristeza. Vinícius tem isso: ele fala sempre de sofrer, de amar, de pranto, de um pouco de saudade. Tudo isso estava presente", conta eufórica.

Crianças e adolescentes argentinos nos anos 70, cresceram ouvindo o disco que os pais punham em casa. As melódicas canções eram absorvidas como cantigas de roda e garantiram a transcendência do disco através das seguintes gerações. No La Fusa, as versões são menos Bossa Nova e mais MPB, dando ao disco um ambiente de alegria e festa.

Vinícius de Moraes descreveria que aquelas "festas intermináveis, madrugada adentro" nas quais o La Fusa fora gravado tiveram um "espírito de íntima comunicação e informalidade" num "ambiente de boemia" no qual "não faltaram os elementos primordiais: garrafas de uísque e mulheres bonitas".

Brasileiros que moram em Buenos Aires, como Marcio de Azevedo, de 41 anos, descrevem o sentimento que lhes provoca. "Satisfação e alegria porque essa é a melhor música que o Brasil já produziu e ela é reconhecida no mundo inteiro. Não importa o país, não importa a língua de quem está escutando", orgulha-se.

Integração plena

Muito antes que existisse Mercosul, Vinícius de Moraes já tinha integrado músicos argentinos às suas apresentações de Bossa Nova. O mesmo se repete agora. O violão (Deryck Santos) e o baixo (Fabrício Pereira) são brasileiros. O piano (Alejo Scalco) e a bateria (Daniel Corrado), argentinos.

"Quando toco música brasileira sinto muitas coisas. É uma música muito rica em rítmica e a bateria é a responsável por isso. Mesmo sendo argentino, eu me conecto com essa música", conta o baterista argentino, Daniel Corrado.

Na voz, a pernambucana Josi Dias incorpora Maria Creuza e dá um show dentro do espetáculo: "Eu acho que a Bossa Nova é a nossa melhor imagem no exterior. A presença do Vinícius, do Toquinho e da Maria Creuza com esse disco da Fusa é fundamental para a propagação da música brasileira na Argentina. Graças a eles, a gente tem uma abertura de mercado impressionante. Quando os argentinos querem escutar boa música brasileira, sempre se referem ao La Fusa", explica.

Para o pianista Alejo Scalco, a Bossa Nova é "uma das músicas na qual a letra é uma engrenagem perfeita na maquinaria com a música". "Nem todos os estilos conseguem que a letra se encaixe nessa maquinaria como um relógio suíço perfeito", compara.

Alejo também faz outra comparação que, para os brasileiros parece normal, mas que chama a atenção no exterior: o da parceria. "Se eu sou um grande músico, mas não tenho habilidade com a letra, não perco tempo. Chamo um poeta. Uno as duas energias canalizadas para um mesmo lugar. Isso não acontece com outras músicas do mundo. É comum ver que, no Brasil, são dois os autores. O resultado são maravilhas incríveis.", admira.

Silêncio na torcida brasileira

Só há uma diferença com o disco original. O La Fusa foi gravado em julho de 1970. O Brasil tinha acabado de ser tricampeão do mundo no México. Vinícius atreveu-se a abrir o disco com a canção "Copa do Mundo" na qual "a taça do mundo é nossa" e "com o brasileiro não há quem possa". Na versão Notorius, 46 anos depois, não há nenhuma menção ao futebol."São povos que vivem muito o futebol e isso gera brigas. Acho que é muito delicado tocar nesse assunto", acredita Scalco.

Para a cantora Josi Dias, depois do fiasco da seleção brasileira na Copa de 2014 e do bom desempenho da Argentina no último Mundial, ficou difícil unir a música brasileira ao futebol.
"A gente tenta não falar da questão futebolística no show nem cantar músicas com referência à futebol porque na última Copa do Mundo o Brasil ficou meio triste", revela entre risos.

Neste sábado, a Notorius vai ficar novamente lotada com 100 pessoas num ambiente intimista que revive aquelas memoráveis noites de Bossa Nova, de Vinícius, de Toquinho e de Maria Creuza. Já passaram por aqui cerca de 7 mil pessoas desde o começo do ciclo.
 

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