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A Semana na Imprensa

Para escritor Salman Rushdie, Ocidente tem "cegueira estúpida" sobre jihadismo

Áudio 02:54
Capa da revista L'Obs mostra o escritor Salman Rushdie diante de cartaz sobre terrorismo
Capa da revista L'Obs mostra o escritor Salman Rushdie diante de cartaz sobre terrorismo L'Obs/Philippe Matsas/Opale/Leemage

Em raríssima entrevista, concedida à revista francesa Le Point desta semana, o escritor indo-britânico, ameaçado de morte desde 1989, fala sobre jihadismo, Donald Trump, populismo, e revela detalhes do seu novo livro. 

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Em 14 de fevereiro de 1989, o aiatolá Ruhollah Khomeini, líder religioso do Irã na época, lançou uma fatwa - sentença religiosa muçulmana - exigindo a morte do autor indo-britânico Salman Rushdie. O seu livro "Os versos satânicos", publicado em 1988, teria blasfêmias contra Maomé, o profeta do Islã. Desde então, o escritor vive refugiado nos Estados Unidos e foi obrigado a renunciar à vida pública.

Durante um encontro internacional em Lyon, a jornalista Sara Daniel, da revista francesa L'Obs, teve oportunidade de conversar com Rushdie sobre temas impactantes, começando pelo terrorismo. Sua primeira pergunta foi se o jihadismo é fruto de uma radicalização do Islã ou de uma revolta niilista que se cristalizou no islamismo.

"Estou em desacordo com as pessoas de esquerda que fazem tudo para dissociar o fundamentalismo do Islã. Há 50 anos o Islã se radicalizou. Do lado xiita, teve o imã Khomeini e sua revolução islâmica. No mundo sunita, teve a Arábia Saudita, que utilizou seus imensos recursos para financiar a difusão do fanatismo. Mas esta evolução histórica aconteceu no seio do Islã e não no exterior. Quando os combatentes suicidas do grupo Estado Islâmico explodem suas bombas gritando "Allahou Akbar", como podemos dizer que não tem nada a ver com o Islã? É preciso parar com esta cegueira estúpida. Claro, eu entendo que a razão desta negação é evitar a estigmatização do Islã. Mas justamente, para evitar essa estigmatização, é mais eficaz reconhecer a natureza do problema e tratá-lo", observa o escritor, lamentando que Marine Le Pen analise o islamismo com mais pertinência do que a esquerda. "É muito preocupante ver que a extrema-direita é capaz de medir a ameaça de forma mais clara do que a esquerda".

Rushdie ressalta que é importante dizer que a maioria dos muçulmanos não são extremistas. "Mas, no entanto, a maioria dos russos não aprovava os goulags e a maior parte dos alemães não era nazista. No entanto, a União Soviética e a Alemanha de Hitler existiram. Quando um desvio se desenvolve e cresce dentro de um sistema, ele pode devorá-lo, e é o que se passa hoje com o fundamentalismo no Islã", reflete Rushdie.

"Esta regressão do Islã esclarecido é uma tragédia"

O escritor lembra que quando começou a ser alvo dos ataques dos islamitas, alguns jornais americanos de esquerda apoiaram Khomeini porque ele lutava contra o poder do ocidente. "A esquerda tem o pressuposto de que o mundo ocidental é mau", ele diz.

Salman Rushdie considera que a ignorância e o obscurantismo estão criando muros intransponíveis e perigosos. Ele recorda que o sufismo, esse outro Islã, amplamente difundido no passado, hoje é alvo de ataques violentos por parte dos salafistas. "Na minha família muçulmana, quando eu era criança, podíamos discordar com os dogmas, questionar a existência de Deus, e ninguém seria ameaçado por isso. Beirute, Damasco e Teerã eram cidades cosmopolitas. Sim, houve um Islã esclarecido, mas não é ele que está hoje no poder. Esta regressão é uma tragédia", lamenta.

Quanto ao seu novo livro, "The Golden House" (A Casa Dourada, em tradução livre), Rushdie explica que é um romance novaiorquino sobre o destino de uma família originária da Índia. "Eles mudaram de nome e tentaram reinventar uma trajetória bem americana, mas o passado acaba ressurgindo, pleno de terríveis segredos", ele revela, contando que a história se passa durante os oito anos da presidência de Barack Obama.

Vivemos na época do "tudo pode acontecer"

"Nos Estados Unidos, as barreiras morais que impediam os piores comportamentos, caíram"

Comentando a última eleição presidencial americana, Salman Rushdie confessa que tinha um mau pressentimento. "Hillary Clinton fez uma campanha péssima, teve a interferência do FBI nas eleições, o caso da Rússia, os esquecidos do "american dream", todos esses fatores se reuniram e levaram à eleição de Trump. Mas há também o racismo, fator determinante no resultado, uma parte da América branca passou oito anos engolindo o ódio de ter um presidente negro. Esses brancos votaram pela supremacia branca. Algo estranho está acontecendo no mundo. O Brexit, a onda populista na Áustria, Holanda, França... Vivemos na época do "tudo pode acontecer". Nos Estados Unidos, as barreiras morais que impediam os piores comportamentos caíram".

Salman Rushdie termina a entrevista com literatura, revelando os auotres que está lendo no momento: Joseph Brodsky, Czeslaw Milosz, Zbigniew Herbert..."Como uma chicotada que me imponho, leio um poema todas as manhãs antes de começar a escrever, isso me lembra a exigência do estilo, a intensidade da linguagem, porque a prosa deve estar ao nível da poesia", conclui o "escritor maldito", cuja cabeça está a prêmio por US$3,9 milhões.

 

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