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Como as crianças reagem à pandemia de coronavírus? "Lave as duas mãos!", diz Alice, 4 anos

Os riscos, os cuidados e até as multas, nada escapa aos desenhos da pequena Juliana.
Os riscos, os cuidados e até as multas, nada escapa aos desenhos da pequena Juliana. © arquivo pessoal

Como as crianças percebem a pandemia do coronavírus? Quando a França vive sua segunda semana de aulas presenciais suspensas, em meio às medidas para frear o contágio da Covid-19, muito se fala sobre como “entreter” os pequenos em casa em tempos de confinamento ou sobre a eficiência ou não dos cursos a distância às vésperas do Baccalauréat, um tipo de Enem francês. Mas pouco parece se discutir sobre o efeito psicológico causado por esta ameaça invisível mundial que mudou completamente a ordem dos dias dos pequenos cidadãos.

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Sobram nas mídias e nas redes sociais sugestões de como “passar o tempo” durante o confinamento, quando a realidade dos pais e seus filhos é bem diversa de um alegre clima de férias antecipadas. Adultos estressados com a ameaça real da doença, sobrecarregados com o trabalho realizado remotamente, preocupados com as finanças e com um risco de desemprego, e que ainda precisam gerenciar a presença de seus filhos, agora em casa 24 horas por dia, toda essa pressão pode deixar traumas nesta geração que vive sua primeira experiência de confinamento ainda tão cedo.

Atentos a essa situação um tanto inédita e urgente, psicólogos e psicanalistas redobram seus cuidados ao público infantil e tentam oferecer ainda mais suporte aos pais. Impossibilitado de dar continuidade às suas atividades presenciais, o núcleo parisiense do grupo Mulheres do Brasil organizou um ciclo de palestras virtuais, transmitidas pelo seu perfil no Instagram. O tema do primeiro debate, que acontece nesta quarta-feira (25), às 20h (horário de Paris, às 16h pelo horário de Brasília), será “Como falar com seus filhos sobre o coronavírus”, com a psicóloga e psicanalista Juliana Machado Campocasso.

Psicóloga também do Programa de Assistência aos Brasileiros do Consulado do Brasil em Paris, Campocasso destaca o diálogo como o melhor “mecanismo de defesa” para se preservar o clima saudável dentro de casa. Em todos os sentidos. Omitir informações sobre a pandemia, ao contrário de proteger as crianças, como pensam alguns, permite que elas imaginem situações ainda muito piores do que a realidade.

Filhos sentem a preocupação dos pais

“É o perigo dos não-ditos defendido por Freud. Os filhos sentem a preocupação dos pais, mas se não damos a eles o direito de saber o que está acontecendo, esta dúvida poderá se revelar de muitas maneiras: pela ansiedade, pelo aumento ou perda do apetite, crises de irritação, pesadelos, regressão do desenvolvimento, perda de concentração, demanda por ainda mais atenção, quando os pais já não sabem mais como ocupá-los”, adverte.

Como estabelecer esse diálogo, no entanto, pode não ser tão evidente para todos os pais. Por isso, Campocasso sugere que se explique, dentro do contexto infantil, o que é esse inimigo invisível, porque e como devemos tomar precauções, porque a criança está sendo privada da escola e do convívio social, ela sugere que se dê nome às coisas. “O inominável e o indizível causam muito mais estragos”, adverte.

Ela enfatiza ainda a importância de se construir ou aprimorar nas crianças, neste momento, a medida saudável em relação ao medo, que pode ser um aliado, quando nos ensina a nos protegermos, ou um vilão, quando nos paralisa. “E se a criança for muito pequena, isso pode ser passado de uma forma mais lúdica, como um teatrinho ou em qualquer outra linguagem que permita a criança de expressar suas dúvidas ou o que está sentindo. Proponha a seu filho: vamos desenhar?”.

Apesar das cores, desenhos revelam as preocupações das crianças.
Apesar das cores, desenhos revelam as preocupações das crianças. © arquivo pessoal

Desenhar, o melhor antídoto

E desenhar tem sido o melhor antídoto que os publicitários Vitor Azambuja e Gilberto Barroso têm usado para “curar” o medo e a desinformação entre crianças em todo o mundo. O projeto De Criança Para Criança, idealizado pela dupla, que cria animações com desenhos e narrativas desenvolvidos pelas crianças, está atualmente engajado em dar cor e voz aos depoimentos de crianças em diversos países, em que estas revelam e compartilham suas percepções do coronavírus e suas expectativas – nem sempre otimistas! - para o planeta pós-pandemia.

Azambuja explica que “o De Criança Para Criança foi criado para dar voz às crianças. O projeto propõe um diálogo universal entre elas. Entendemos que o que uma criança escreve, fala ou desenha é entendido por todas as outras, não importa a língua que falem nem o lugar em que vivam. E foi pensando neste momento que estão passando, com o surgimento do coronavírus, que resolvemos perguntar às crianças em todo o mundo o que estão pensando e como acham que será o mundo depois da pandemia”.

Um mundo mais unido e solidário. Pelo menos é o que espera Maria Fernanda, 12, que mora em Málaga, na Espanha. "Acredito que depois desse período de coronavírus as pessoas estarão mais unidas, pensando mais no próximo. Também terão trabalhos muito valorizados, como o dos médicos que estão lá todos os dias arriscando suas vidas para salvar outras. Acredito também que a natureza estará menos poluída, não haverá tanto desmatamento, não haverá mais animais em extinção. É como se a Terra estivesse pedindo um tempo para se recuperar sozinha."

Uma lição para a gente

Maria Eduarda, 15, que também vive em Málaga, acredita que o coronavírus seja “como uma lição pra gente”. “Que com ele a gente possa aprender a ter mais empatia, a pensar mais no próximo, a ser mais generoso. E que as famílias fiquem muito mais unidas em casa.”

O risco maior a que estão expostas pessoas portadoras de doenças crônicas e idosos ou mesmo as crianças, multas para aqueles que saem de casa sem permissão, os cuidados pessoais de higiene, o engajamento das equipes médicas, a rotina no confinamento. Nada escapa aos desenhos da francesinha Juliana, 8, que mora na pequena cidade de Andard, na região Pays de la Loire no oeste da França. Apesar da alegria das cores, seus traços denunciam seu olhar atento a tudo que se passa pelo menos em seu país.  

"Separados" da Europa pelo Brexit, mas unidos pelo otimismo, crianças na Inglaterra que participam do projeto também nutrem esperanças, mas sem esconder o medo que a pandemia lhes impõe. O pequeno João Guilherme, 9, que vive em Londres, diz que "hoje o mundo está muito triste, muitas pessoas morrendo de coronavírus, mas só precisa de tempo para melhorar. Por isso que no futuro vai ser muito legal, com todo mundo feliz e ninguém nem vai saber do coronavírus."

Dois anos mais velha, Ana Clara compartilha da opinião do irmão: "O mundo hoje é triste e assustador. A gente não sabe o que vai acontecer depois. Mas para mim, o mundo depois disso vai ser feliz, em paz e todo mundo vai ter um sorriso no rosto."

Nem tão otimistas assim

Do outro lado do Oceano Atlântico, algumas crianças se mostram mais imediatistas e não escondem seus descontentamentos com as mudanças de rotina. Do alto dos seus 7 anos, Fred, que vive em Toronto, no Canadá, brada que o mundo: "Tá bem chato, porque eu não estou conseguindo fazer nada. Tem muitas pessoas com coronavírus e não tá legal porque estou trancado em casa. Mas acho que todo mundo ficará melhor e normal. Até mais legal, pode ser".

Fred, que vive em Toronto, acho o mundo "muito chato", confinado dentro de casa.
Fred, que vive em Toronto, acho o mundo "muito chato", confinado dentro de casa. © arquivo pessoal

Já Felipe, 10, que também vive em Toronto, demonstra sua insatisfação por ver seus hábitos saudáveis ameaçados. Ele, que não come nem açúcar nem gorduras, pelo menos preserva sua rotina de exercícios diários em casa, coma ajuda de séries do YouTube. Mas não esconde seu lado bem fatalista. “Não está tendo mais aula de futebol, e eu acabei de entrar em um time muito competitivo. Eu ia começar uma aula de teatro, e não vou ter mais. Eu amo a escola e agora não tem. Eu acho que no futuro todos serão infectados e irão morrer, porque não estamos tratando bem o mundo, então a gente merece".

Com toda a experiência adquirida em seus 4 anos de vida, Alice é mais pragmática: "Lavem as duas mãos com álcool gel".

Dúvidas e angústias nas entrelinhas

É nas entrelinhas de depoimentos e desenhos que se revelam as dúvidas e angústias infantis a respeito da pandemia do novo coronavírus, muitas vezes muito diversas do que acreditavam os adultos. Para a psicóloga e psicanalista francesa Armêl Mattmann é aí que pousa a oportunidade para os pais preencherem essas lacunas. O equilíbrio perfeito entre em se antecipar e por vezes dar informações demais, condenando à criança a um mundo muito adulto, e sonegar informações, deixando os filhos à margem.

Os gêmeos Fanny e Dorian assistem as notícias com os pais. Em caso de dúvidas, é só perguntar.
Os gêmeos Fanny e Dorian assistem as notícias com os pais. Em caso de dúvidas, é só perguntar. © arquivo pessoal

Esta foi a escolha feita por Séverine e Stéphane Martin. Seus filhos, os gêmeos Fanny e Dorian, de 10 anos, são livres para acompanharem o noticiário com os pais. “E quando eles não entendem alguma coisa, nos perguntam. Eles estão a par de tudo”, explica com naturalidade o pai, que é consultor comercial.

Com isso, o casal parece ter encontrado a fórmula perfeita para que seus filhos saibam realmente dimensionar a gravidade da pandemia. “Eles sabem que é uma doença grave, eles veem o número de mortos, conhecem o risco de não se respeitar a quarentena, mas se sentem seguros em casa. E claro, um confinamento em uma casa no campo é sempre mais tranquilo”, brinca Martin, que mora com sua família em Cépet, cidade próxima de Toulouse no sudoeste da França.

Ninguém está de férias

Livros didáticos sobre a mesa, o pai acompanha os dois filhos nos estudos do ditado, da conjugação dos verbos e da lição de matemática. Tudo para preservar a rotina o mais próxima possível da normalidade. Atitude extremamente recomendada pela psicóloga Armêl Mattmann: “Ninguém está de férias! É preciso acordar na hora, tomar o café e se vestir para começar mais um dia de aula, mesmo que seja em casa, com tempo inclusive para a recreação”.

Em sua opinião, ao manterem o diálogo com os filhos, e ao demandarem deles uma postura comprometida, os pais demonstram ter confiança nas crianças, o que contribui para o desenvolvimento da responsabilidade. Mais do que isso, permite delegar e dividir tarefas em casa, o que pode ser ainda mais bem-vindo em tempos de excesso de convívio imposto por um confinamento cujo prazo ainda é desconhecido.

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