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Nigéria/Terrorismo

Ex-reféns do Boko Haram relatam abusos sexuais e sofrem de depressão profunda

Mulheres e crianças libertadas de Boko Haram foram transportadas para o campo de refugiados de Yola, em Adamawa na Nigéria.
Mulheres e crianças libertadas de Boko Haram foram transportadas para o campo de refugiados de Yola, em Adamawa na Nigéria. REUTERS/Afolabi Sotunde

Libertadas pelo exército da Nigéria na semana passada, muitas ex-reféns do grupo ultrarradical Boko Haram começaram a relatar o cotidiano de horror e os traumas vividos durante o período de sequestro no nordeste do país. Os depoimentos revelam inúmeras ameaças, fome, privações e casos de abusos sexuais. Muitas mulheres deixaram o calvário sofrendo de uma profunda depressão.

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Cerca de 700 mulheres e crianças foram libertadas das mãos dos extremistas do Boko Haram que as mantinham sequestradas em um de seus principais redutos: a floresta de Sambisa. No domingo à noite, as autoridades nigerianas anunciaram ter transferido 275 mulheres e crianças para um campo de deslocados em Yola, capital do Estado de Adamawa.

As ex-reféns foram entregues à Agência Nacional de Gestão de Emergências (NEMA, na sigla em inglês) para receberem apoio pós-traumático e participarem de um trabalho de reinserção social. Traumatizadas, muitas dessas vítimas sofrem de desnutrição e de depressão.

"Muitas delas revelam sinais de traumatismos e vamos tentar mostrar a essa mulheres que elas têm uma vida pela frente", declarou o coordenador da Agência em Adamawa, Sa'ad Bello.

Um dos porta-vozes da NEMA informou que oito mulheres e 15 crianças foram hospitalizadas devido a ferimentos ocorridos durante a operação de salvamento.

Na chegada ao campo de deslocados, foram distribuídos cobertores, colchões, comida, mosqueteiros e produtos de higiene pessoal. As mulheres passaram por exames para detectar eventuais doenças sexualmente transmissíveis.

Testemunhos chocantes

Uma das reféns, Binta Abdullahi, de 18 anos, foi sequestrada há mais de um ano na sua cidade natal, perto de Madagali, no norte de Adamawa. Ela foi libertada, mas nem todas tiveram a mesma sorte.

"Quando os militares atacaram o campo onde estávamos detidas, nossos sequestradores nos orientaram para nos refugiarmos debaixo de árvores e de arbustos para escaparmos dos bombardeios do exército", contou Binta a jornalistas.

"Mulheres que estavam escondidas debaixo de árvores foram arrastadas por tanques que avançaram sem saber que elas estavam lá", continuou. Segundo a jovem, quando deixavam o local, pelo menos três mulheres e soldados morreram na explosão de uma mina terrestre, após uma refém ter pisado sobre o explosivo.

Casamentos forçados e abusos sexuais

Antes de ser levada para a floresta de Sambisa no mês passado, Binta afirmou ter ficado no "quartel general" do Boko Haram em Gwoza, uma cidade no nordeste da Nigéria. Na região, a organização extremista, que declarou obediência ao grupo Estado Islâmico, proclamou um califado. Suas duas irmãs, também sequestradas, conseguiram fugir, mas Binta decidiu ficar para cuidar de crianças de três e quatro anos que foram separadas de suas mães.

Mulheres e crianças que foram libertadas de Boko Haram, foram transportadas para o campo de refugiados de Yola, em Adamawa na Nigéria.
Mulheres e crianças que foram libertadas de Boko Haram, foram transportadas para o campo de refugiados de Yola, em Adamawa na Nigéria. REUTERS/Afolabi Sotunde

O depoimento da jovem é parecido com o de muitas outras ex-reféns que disseram terem sido obrigadas a se casar com os radicais e foram vítimas de abusos sexuais de seus sequestradores. Muitas relataram terem sido obrigadas a pegar em armas e combater ao lado dos extremistas.

Segundo Binta, as mulheres que se recusavam a se unir com os combatentes, porque já eram casadas, eram ameaçadas de serem vendidas como escravas.

Outra jovem libertada foi Lami Musa, de 19 anos, grávida de quatro meses quando os homens do Boko Haram invadiram o vilarejo de Chibok, há cinco meses.

Na localidade, os extremistas sequestraram mais de 200 estudantes. O sequestro comoveu a Nigéria, desencadeou uma onda de solidariedade mundial e se tornou o símbolo dos raptos sexuais cometidos pelos homens do Boko Haram. Segundo a Anistia Internacional, cerca de 2 mil mulheres foram sequestradas pelo grupo desde o início de 2014.

Assistentes sociais que trabalham no campo de Yola relatam também que muitas vítimas têm fome e chegaram doentes ao local. Uma das ex-reféns contou que foi sequestrada junto com seu marido em um mercado. Os extremistas o levaram e o executaram em uma floresta e depois obrigaram a mulher a se casar com um membro do Boko Haram. "Não há nada mais traumático", resumiu um dos assistentes.

 

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