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Linha Direta

2015 confirma importância da Rússia na geopolítica internacional

Áudio 04:38
Vladimir Putin, presidente da Rússia
Vladimir Putin, presidente da Rússia REUTERS/Maxim Zmeyev

O ano de 2015 confirmou a importância da Rússia no intricado tabuleiro da geopolítica internacional. Entre tantos atores novos em um mundo cada vez mais multipolar, Moscou se mantém em posição de destaque, apresentando-se cada vez mais como uma firme oposição a muitas ações do chamado Ocidente, principalmente, claro, dos Estados Unidos. O presidente Vladimir Putin foi eleito pela terceira vez consecutiva a pessoa mais poderosa do mundo e sua popularidade na Rússia permanece muito alta.

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Seja aqui na Russia ou externamente, entre apoiadores ou oponentes de Vladimir Putin, a liderança do presidente russo é inquestionável. A revista Forbes concedeu a ele, pela terceira vez consecutiva, o título de pessoa mais poderosa do planeta. E, para justificar este primeiro lugar, a Forbes disse que Putin é "um dos poucos homens no mundo que tem poder suficiente para fazer o que ele quiser – e escapar impune”.

A revista cita também os bombardeios que a Rússia começou na Síria no fim de setembro e o encontro surpresa entre Putin e Assad, em Moscou, que fazem com que os esforços ocidentais na Síria pareçam pequenos perto da importância e influência de Moscou no conflito sírio.

E a Forbes lembra ainda, que apesar das pesadas sanções impostas pelo Ocidente contra a Rússia - em represália pela anexação da Crimeia em março de 2014 -, a economia do país pode até ter sido afetada, mas a popularidade de Putin continua nas alturas. A última pesquisa divulgada aqui na Rússia indica que o presidente russo tem uma aprovação de 89%.

Evento mais importante

O evento mais importante na Rússia foi sem dúvida alguma a celebração do Dia da Vitória em Moscou. Foi o 70° aniversário da vitória soviética contra a Alemanha nazista na Segunda Guerra Mundial, guerra que os russos chamam de a Grande Guerra Patriótica.

O próprio presidente Putin disse há alguns dias que a comemoração do Dia da Vitória em Moscou foi o evento mais importante do ano para a Rússia. Putin disse que os russos celebraram a data em honra aos pais e avós cujos destinos são inspiradores.

A Rússia celebrou com muita pompa e exuberância a data (9 de maio). Mas o evento foi marcado por importantes ausências políticas. Putin convidou os chefes de Estado de diversos países, mas os grandes destaques seriam os três principais aliados da União Soviética contra a Alemanha – Estados Unidos, Reino Unido e França.

Mas os líderes dos três países declinaram o convite. Barack Obama, David Camerom e François Hollande não viajaram a Moscou para o desfile militar do Dia da Vitória, e as ausências foram uma forma de criticar o papel da Rússia no conflito do leste da Ucrânia.

A chanceler alemã, Angela Merkel, também recusou o convite de Putin, mas visitou Moscou no dia seguinte, onde se encontrou com o presidente russo e colocou uma coroa de flores no túmulo do soldado desconhecido, um memorial no Kremlin aos 25 milhões de soldados soviéticos mortos na Segunda Guerra Mundial. A parada militar foi uma das maiores da história da Rússia.

Desvalorização do rublo

O rublo sofreu uma forte desvalorização em dezembro do ano passado e, em 2015, a moeda conseguiu recuperar um pouco essa desvalorização. Entre 2010 e 2013, 1 euro valia entre 38 e 45 rublos. Em dezembro de 2014, 1 euro chegou a valer 91 rublos, que é menos da metade do que valia antes.

Agora, em dezembro de 2015, 1 euro compra aproximadamente 76 rublos. Essa desvalorização está relacionada às sanções impostas pelo Ocidente, mas principalmente ao preço do barril de petróleo, que no fim de 2013 valia 100 dólares e que hoje está em 38 dólares.

A Rússia depende muito da exportação de petróleo e gás. A exportação ds dois produtos representa 18% do PIB russo. A Rússia é o segundo maior exportador de petróleo do mundo. O Banco Central russo já havia alertado este ano que qualquer valor do barril de petróleo inferior a 60 dólares provocaria uma contração na economia russa. Com o barril do petróleo a 50 dólares, a Rússia perde 160 bilhões de dólares em exportações.

O Ministério da Fazenda russa estima que a economia do país encolha 3,8% este ano e que a inflação seja de 12,7%. O serviço estatal de estatísticas, o Rosstat, aponta que 2,3 milhões de pessoas passaram a ser consideradas pobres apenas nos primeiros 9 meses do ano.

Outro destaque na economia foi a falência da companhia aérea Transaero, a primeira companhia aérea privada o país, que era a segunda maior da Rússia. Uma notícia positiva é que o desemprego continua baixo, em 5,5%.

Direitos Humanos

Muitas ONGs foram fechadas este ano no país. Essas organizações foram proibidas de atuar depois da lei de organizações indesejáveis, uma lei federal que dá ao Ministério Público o poder de declarar como “indesejável” qualquer organização estrangeira e internacional e fechá-la.

As primeiras listas não-oficiais de organizações “indesejáveis” incluíam a histórica ONG russa Memorial (que recebe dinheiro de fora e que por isso é considerada agente estrangeiro) e também organizações como a Anistia Internacional e o Human Rights Watch. Por enquanto, duas ONGs ligadas ao bilionário americano George Soros já foram oficialmente proibidas de atuar na Rússia.

Outro assunto que sempre repercute muito no Ocidente é a atuação com as minorias sexuais. Em julho, a fundadora de um grupo de apoio a adolescentes LGBT foi multada por infringir a lei federal russa que proíbe o que eles chamam de propaganda de orientação sexual não tradicional a menores de idade.

Em setembro, Vladimir Putin disse que nenhuma pessoa deve sofrer perseguição com base em sua raça, etnia, religião ou orientação sexual. Putin disse que pessoas com orientação sexual não-tradicional vivem em paz na Rússia, são promovidas e ganham honrarias do Estado pelas suas conquistas na ciência, na arte e em outras áreas.

Putin criticou o fato de a homossexualidade ser considerada crime em quatro Estados americanos. O presidente russo disse que essa proibição não foi completamente removida da legislação americana.

Boris Nemtstov

E um outro assunto que a gente pode incluir na questão de direitos humanos é sem dúvida a morte de Boris Nemtsov, um dos principais líderes da oposição russa. Nemtsov foi assassinado no dia 27 de fevereiro, em uma ponte que fica ao lado do Kremlin e da Praça Vermelha. Nemtsov estava preparando um relatório que comprovaria a presença de militares russos no leste da Ucrânia.

No dia 29 de dezembro, o Comitê de Investigação da Rússia divulgou que o mandante da morte do líder oposicionista russo é Ruslan Mukhudinov, um soldado de uma divisão tchetchena das tropas especiais do Ministério dos Assuntos Internos da Rússia.

Mas o advogado da família de Nemtsov não aceita esta versão do Comitê de Investigação e diz que a pessoa apontada como mandante do assassinato está apenas sendo usada para encobrir o verdadeiro responsável pelo crime, que teria motivação política.

Política externa

O grande destaque da política externa russa esse ano foi o início da intervenção aérea de Moscou no conflito sírio, no dia 30 de setembro, para combater o avanço do Estado Islâmico.

A Rússia declarou que os ataques aéreos foram solicitados pelo governo sírio de Bashar Al Assad e que, por isso, seriam legítimos. O Ocidente acusa a Rússia de não estar atacando o Estado Islâmico e, sim, combatendo a oposição síria pra fortalecer Assad. A oposição síria é apoiada pelo Ocidente.

A Síria é aliada da Rússia desde 1956 e é o principal aliado de Moscou na região. Moscou acredita que a resolução do conflito sírio e a luta contra o Estado Islâmico devem contar com o apoio de Assad. Os Estados Unidos, por outro lado, que lideram uma coalizão internacional que atua na região desde junho de 2014, diz que a queda de Assad é uma das condições para que o conflito seja resolvido.

E essa intervenção russa na Síria, além do quiprocó com o Ocidente, também teve como consequência um cruel atentado terrorista contra um avião russo na península do Sinai, no Egito, no dia 31 de outubro. O Estado Islâmico derrubou o avião russo em represália a essa incursão militar aérea de Moscou na Síria. O atentado deixou 224 mortos.

Derrubada de avião

Outro ponto que mereceu destaque na política externa russa foi a dura resposta de Moscou à derrubada de um avião russo pelo governo turco, no dia 24 de novembro. A Turquia diz que a Rússia invadiu o espaço aéreo turco. A Rússia nega. Em represália pela derrubada do avião, que terminou com a morte de um piloto e de um outro militar, durante o resgate, a Rússia impôs varias sanções econômicas à Turquia, proibindo a importação de diversos produtos do país, decidiu começar a exigir visto para turistas turcos que visitem a Rússia e disse que o que a Turquia fez foi uma “punhalada pelas costas”. E acusou o governo turco de ser conivente com o Estado Islâmico e de estar comprando petróleo do grupo terrorista.

E tem ainda o conflito na Ucrânia. Putin admitiu pela primeira vez, agora em dezembro, que militares russos estiveram, sim, no leste da Ucrânia, fazendo atividades diversas, mas negou que forças permanentes russas tenham ido à região separatista da Ucrânia. O conflito esse ano deu, sem dúvida, uma acalmada, mas as tensões entre a Ucrânia e a Rússia continuam.

Em maio, a Ucrânia suspendeu o acordo de cooperação militar com a Rússia. Em agosto, a Rússia anunciou que vai proibir a importação de produtos agrícolas da Ucrânia a partir de janeiro de 2016. Em dezembro, a Ucrânia aprovou um embargo comercial sobre a Rússia em retaliação à decisão russa.

Em outubro desse ano, a Ucrânia proibiu todos os voos diretos entre a Ucrânia e a Rússia. E em novembro de 2015, a Ucrânia fechou seu espaço aéreo a todos os aviões militares e civis russos.

E a Crimeia, anexada em março de 2014, continua sendo parte de-facto da Rússia, já há mais de um ano e meio e, apesar do não-reconhecimento da comunidade internacional e dos problemas econômicos na região, bem, não parece que a Crimeia vai voltar a ser controlado pela Ucrânia.

Pelo visto, 2016 vai ser mais um ano em que a gente tem que ficar atento às decisões aqui de Moscou.

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