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Irã procura evitar escalada, mas tensão pode beneficiar Arábia Saudita

Manifestação no Iraque contra a execução do líder xiita Nimr Baqer al-Nimr pela Arábia Saudita
Manifestação no Iraque contra a execução do líder xiita Nimr Baqer al-Nimr pela Arábia Saudita REUTERS/Alaa al-Marjani

O presidente iraniano Hassan Rohani parece determinado a evitar uma escalada da tensão com a Arábia Saudita. Nesta quarta-feira (6), o líder da República Islâmica de maioria xiita enviou uma carta ao chefe do judiciário, Sadeq Larinjani, exigindo uma punição imediata às pessoas que incendiaram a embaixada e o consulado sauditas no país. A questão é que, talvez, a paz não esteja nos planos de Riad.

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"Punindo os agressores e os idealizadores deste delito evidente, nós encerraremos de uma vez por toda esses atentados e insultos contra a dignidade e a segurança nacional do Irã", escreveu Rohani, em referência à virulenta reação dos vizinhos ao ataque à representação diplomática saudita. A própria Arábia Saudita rompeu relações diplomáticas com Teerã, seguida de uma série de aliados sunitas, como Bahrein, Sudão, Emirados Árabes Unidos e Djibuti. O Kuweit, o Catar e a Jordânia convocaram seus embaixadores no Irã nesta quarta-feira.

O Bahrein anunciou ainda ter desmantelado uma "célula terrorista" ligada aos Guardiães da Revolução Iraniana e ao movimento xiita libanês Hezbollah. De acordo com o ministério do Interior do pequeno reino petrolífero, os serviços de inteligência prenderam dez membros deste grupo que planejava "diversos atentados a bomba" no país. O Omã também lamentou os ataques, mas não tomou nenhuma atitude mais drástica.

Esta forte reação internacional lançou para o segundo plano o motivo da revolta xiita: a Arábia Saudita executou no sábado (2), ao lado de outros 46 prisioneiros acusados de "terrorismo", o líder religioso Nimr al-Nimr, figura fundamental da minoria xiita no país. Mesmo o Conselho de Segurança da ONU, que se reuniu na segunda-feira para discutir a questão, optou por ignorá-la completamente e lançou um comunicado lacônico, condenando a agressão aos órgãos diplomáticos que, vale lembrar, não deixou nenhuma vítima.

Execução: um problema jurídico ou geopolítico?

Nesta quarta-feira, o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, fez uma síntese da posição da comunidade internacional: "As execuções na Arábia Saudita são um problema legal interno. Se gostamos ou não da decisão, isso é uma outra questão". Mas essa visão simplista não é unânime nem dentro de seu governo. Na segunda-feira, o vice-premiê e porta-voz do executivo turco Numan Kurtulmus declarou que "penas de morte, especialmente as que têm motivação política, não ajudam a trazer a paz para a região".

E, disso, a Arábia Saudita sabe muito bem. A petromonarquia podia antever facilmente a avalanche que se seguiria à morte de um opositor-símbolo como Nimr al-Nimr, que liderou os movimentos de contestação à elite governante em 2011 e funcionava como principal porta-voz da minoria xiita no país. Riad sabia que a execução ampliaria o fosso entre sunitas e xiitas. Enquanto, entre xiitas, as revoltas continuam - nesta quarta-feira mesmo, mais de 2 mil milicianos armados foram protestar nas ruas de Bagdá -, os aliados dos sauditas se veem obrigados a se afastar dos iranianos em um momento de gradual reintegração de Teerã à economia mundial.

O Irã, alijado economicamente pela comunidade internacional por conta de seu programa nuclear, conseguiu concluir no ano passado um acordo com as potências estrangeiras que pode suspender as sanções e colocá-lo de volta no mercado externo. Isso significaria uma ameaça real à hegemonia saudita no Golfo Pérsico, sobretudo no setor energético, já que Teerã é uma economia robusta e um sério produtor de petróleo.

Não à toa, o reino sunita se opôs até onde pôde ao acordo nuclear, num movimento que o chefe da diplomacia iraniana Mohammad Javad Zarif classificou nesta quarta-feira como um boicote aos "esforços de paz" do resto do mundo. "Há dois anos e meio que a Arábida Saudita se opõe a todos os esforços da diplomacia iraniana", declarou o ministro. Nada pessoal: o ouro negro é a base da economia saudita e a raiz de sua influência política, econômica e ideológica no mundo.

Guerra especulativa

A entrada em cena do Irã poderia complicar ainda mais um jogo arriscado em que os sauditas se envolveram na segunda metade de 2014. Vendo que seu grande aliado norte-americano reduzia gradualmente sua presença política e militar no Oriente Médio, interessado em atirar-se sem demora na disputa de "gente grande" contra a China, Riad resolveu tentar um golpe econômico para obrigar os Estados Unidos a permanecer na região.

O único interesse real de Washington no Oriente Médio é o petróleo. Portanto, para sair daquele vespeiro, os Estados Unidos precisariam de uma alternativa energética - e ela veio graças à viabilização econômica do "fracking", o processo de extração do gás de xisto. Na segunda metade de 2014, os americanos atingiram a evolução tecnológica que permitiu explorar o recurso a um preço competitivo, desde que o mercado de petróleo se mantivesse relativamente estável. Mas, quem controla o mercado do petróleo, como líder da OPEP (Organização dos Países Exportatores de Petróleo), é a Arábia Saudita, e Riad simplesmente tentou afundar os planos americanos ampliando drasticamente sua produção.

Com isso, a oferta se sobrepôs à demanda, derrubando o preço do barril a um nível inferior ao que garantia a viabilidade econômica da cara extração de gás de xisto. Com o barril de petróleo aos cerca de US$ 60 que atingiu na metade de 2015, os produtores americanos de xisto começaram a quebrar, ameaçando o próprio sistema bancário norte-americano, que havia liberado créditos abundantes para o fracking. Claro que essa política de desvalorização afetou todos os produtores de petróleo do planeta - o Irã entre eles.

Movimento desesperado

Mas ao final de 2015, a maioria dos analistas já começava a apontar para o fato de que a Arábia Saudita teria cometido um grave erro de cálculo: a petromonarquia não teria fôlego para manter a superprodução por mais do que dois anos, tempo em que os Estados Unidos teriam desenvolvido a tecnologia necessária para baixar os custos do gás de xisto e restabelecer a concorrência em patamares vantajosos.

Talvez a leitura deste cenário tenha empurrado os sauditas a tentar transformar os conflitos descentralizados em que estão envolvidos, sempre em oposição ao Irã, (Iêmen, Síria, Iraque) em uma guerra entre sunitas e xiitas. A execução de Nimr al-Nimr poderia ser a chave para este câmbio na face do conflito e ainda enterraria qualquer perspectiva de formação de uma coalizão mista para enfrentar o grupo Estado Islâmico.

Afinal, a Arábia Saudita não teria grandes motivos para lutar contra o avanço do grupo Estado Islâmico. Este aliado do ocidente, principal propagador e financiador mundial da ideologia jihadista, tem muito mais semelhanças do que diferenças com a organização ultraconservadora: os dois fazem a mesma leitura fundamentalista do alcorão, os dois aplicam da mesma maneira a lei islâmica sharia, os dois realizam decapitações em massa, os dois são sunitas wahabistas; os dois promovem a misoginia e os dois vendem o jihadismo como ideologia internacional. Talvez a diferença esteja no fato de a Arábia Saudita ser hoje o que o grupo Estado Islâmico luta para se tornar: um estado autoritário regido pela religião e montado em petrodólares.

Além disso, essa é uma guerra que mantém o Ocidente, principal vendedor de armas para Riad e principal comprador de petróleo, mobilizado no Oriente Médio.

Com informações da AFP

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