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Linha Direta

Com alta popularidade, Erdogan se fortalece perante EUA e Europa

Áudio 04:39
O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, na manifestação pró-democracia do último domingo (7) em Istambul.
O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, na manifestação pró-democracia do último domingo (7) em Istambul. REUTERS/Osman Orsal

O presidente da Turquia atinge o maior índice de popularidade desde que se tornou chefe de Estado, há dois anos. Recep Tayyip Erdogan conta com 68% de aprovação entre os turcos. O número foi divulgado quase um mês depois da tentativa de golpe militar, que, se por um lado, gerou uma série de manifestações a favor da democracia, por outro, desencadeou milhares de prisões questionáveis no país e no exterior.

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Fernanda Castelhani, correspondente em Istambul

A apreciação positiva de Erdogan é atribuída a vários fatores. Em primeiro lugar, o modo como ele conduziu a tentativa de golpe diante dos holofotes foi decisivo para o fracasso dos golpistas. Depois disso, ao longo deste mês, ele conseguiu usar o sentimento de orgulho popular para fortalecer seu próprio governo.

Na noite de 15 de julho, apesar de os militares terem imposto toque de recolher e lei marcial, o presidente turco entrou ao vivo em rede nacional para convocar as pessoas a marcharem em prol da democracia. Das ruas o povo não saiu até anteontem, quando o próprio Erdogan veio a público declarar o fim das passeatas e agradecer a solidariedade do que ele chamou de “observatórios da democracia”.

Muitos protestos foram conduzidos por seguidores do partido governista, mas, desde o início, mesmo as legendas da oposição se uniram ao AKP contra a tentativa de tomada de poder. No último domingo (7), por exemplo, foi organizado um ato em conjunto com o partido republicano, o CHP, rival histórico de Erdogan, que atraiu três milhões de pessoas em Istambul.

Essa estratégia de abertura para uma reconciliação partidária, mostra que até os que não apoiam Erdogan não querem a volta da ditadura militar à Turquia e não questionam a legitimidade do atual governo. Mais do que isso, essa sondagem, divulgada agora pelo MetroPOLL – um dos institutos mais importantes do país – revela também que quem não votou em Erdogan hoje também o avalia bem. Ele está bem cotado entre dois em cada três turcos, sendo que, na eleição de 2014, conquistou 51% dos eleitores. O que não significa, claro, que não haja resistência.

A mesma pesquisa aponta que o apoio a um dos líderes da oposição, Devlet Bahçeli, do partido nacionalista MHP, dobrou desde o golpe, passando para 40%, enquanto os outros oponentes políticos mantiveram os mesmos resultados. Ou seja, ainda há uma grande parcela de insatisfeitos, mas que veem somente as urnas como solução para uma efetiva mudança.

Expurgo alcança militares em postos no exterior

No discurso, o presidente turco tem convencido o povo falando de democracia, mas na prática iniciou uma limpeza nas instituições logo após o golpe. De acordo com os dados divulgados, nesta semana, pelo Ministério do Interior, até agora, mais de 76 mil servidores públicos foram afastados, quase 17 mil pessoas estão presas e mais de cinco mil, com processos de detenção em andamento.

O Ministério de Relações Exteriores também afirmou, ontem, que dois adidos militares turcos na Grécia tentaram escapar para a Itália, mas foram convocados a retornar à Turquia, assim como um militar que fica na representação diplomática turca no Kuwait, que tentou fugir via Arábia Saudita, e dois generais turcos no Afeganistão, pegos quando voavam para os Emirados Árabes. Além disso, cinco funcionários da embaixada da Turquia na Holanda foram chamados de volta por suspeita de envolvimento no golpe de Estado.

ONU quer investigar denúncias de tortura

O alto comissariado para Direitos Humanos das Nações Unidas pediu, na quarta-feira (10), para o governo de Ancara segurar a sede por vingança. A ONU afirma ter recebido relatos de tortura e maus-tratos dos prisioneiros e tenta agora a visita de monitores independentes para investigar essas denúncias, que as autoridades turcas negam.

Fora do país, a imagem de Erdogan está longe de ser positiva. Ainda nesta semana, o presidente turco deu um ultimato. Declarou para uma multidão que, mais cedo ou mais tarde, o governo americano terá de escolher entre Turquia e Feto, um acrônimo para o que ele chama de “Organização Terrorista Fethullahista” – os seguidores de Fethullah Gülen, acusado pela Turquia de responsabilidade na tentativa de golpe. Mas as autoridades de Washington ainda não deram nenhum sinal de que vão extraditar o clérigo turco que vive na Pensilvânia.

Já para a Europa pesa o fato de Erdogan reiterar que vai ratificar a decisão do Parlamento turco se a pena de morte for aprovada, o que torna inviável a entrada no bloco europeu.

Ergogan toma distância dos EUA e da Europa

Além de Israel, outro país com que o governo de Ancara se reconcilia é a Rússia. Em visita a São Petersburgo, na última segunda-feira (8), Erdogan e Vladimir Putin abordaram acordos comerciais e já ontem se reuniu pela primeira vez um comitê formado por militares, diplomatas e serviços de inteligência dos dois países para tratar da espinhosa diferença que têm sobre a questão Síria.

Os analistas locais concluem que a Turquia não será a ponte entre Oriente e Ocidente nos moldes desejados por Estados Unidos e Europa. Mas vai continuar construindo alianças, sim, em função dos seus próprios interesses imediatos.

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