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O Mundo Agora

Com ataque à Síria, Trump quis dar recado às outras potências mundiais

Áudio 04:40
Um homem respira com uma máscara de oxigênio, após resgate descrito como um ataque de gás na cidade de Sheikhoun Khan , Síria 04 de abril de 2017.
Um homem respira com uma máscara de oxigênio, após resgate descrito como um ataque de gás na cidade de Sheikhoun Khan , Síria 04 de abril de 2017. REUTERS/Ammar Abdullah

É uma reviravolta e tanto. Donald Trump queria se entender com a Rússia e chegou a declarar que na Síria não havia solução sem o presidente Bachar Al-Assad, protegido do Kremlin e do Irã. De repente, o magnata-presidente sai defrontando os russos com uma pirotecnia militar e afirma que Assad vai ter ir embora.  

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Trump alegou uma imensa emoção diante do caráter hediondo de crianças sufocadas com gás de sarin pela aviação de Damasco. E não há dúvida de que se trata de uma crime de guerra e de uma violação explícita da convenção internacional sobre armas químicas. E não é a primeira vez que o governo sírio utiliza esse tipo de armas contra a sua própria população. Mas tem algo mais tradicional na ação americana do que a emoção do presidente. Desperdiçar 60 mísseis de cruzeiro Tomahawk (que custam um milhão e meio de dólares cada) contra uma base aérea quase vazia é um ato simbólico dos mais persuasivos.

Os Estados Unidos têm condições e vontade política para intervir de maneira unilateral quando achar que seus interesses são ameaçados, e ninguém, nem a Rússia nem a China, tem capacidades militares e econômicas para encarar um enfrentamento direto. Aliás, Washington avisou Moscou com uma hora de antecedência para não criar atritos inúteis, e as forças armadas russas na Síria não ativaram suas defesas antiaéreas contra os Tomahawks pela mesma razão.

Mas a situação na Síria tem pouco a ver. O sinal enviado por Trump é destinado ao mundo inteiro e sobretudo às outras potências militares. O slogan de Trump – “Primeiro a América” – não reflete um novo isolacionismo americano. A nova Casa Branca não está a fim de brincar de polícia do mundo, mas continua disposta a defender –unilateralmente se for preciso – os seus interesses nacionais e globais, e a manter o papel de avalista em última instância da segurança do planeta. E quando os dois combinam, melhor ainda: o presidente fez questão de declarar que o respeito aos acordos internacionais sobre armas químicas fazia parte dos interesses nacionais americanos.

Pirotecnia militar

De repente, o magnata-presidente sai defrontando os russos com uma pirotecnia militar e afirma que Assad vai ter ir embora. Como, aliás, também aos acordos de não-proliferação nuclear: Washington avisou que se Pequim não tomasse providências para interromper o programa nuclear da Coréia do Norte, as forças armadas americanas teriam que resolver o problema sozinhas. E para mostrar que não era pilhéria, Trump tomou a decisão de bombardear a base aérea síria durante o jantar com o presidente chinês Xi Jinping e mandou um poderoso grupo aeronaval da US Navy para as costas coreanas.

Mas a grande novidade – que pouca gente esperava do magnata louro – é deixar bem claro para os outros membros permanentes do Conselho de Segurança, e para potências regionais hostis, de que é melhor se entender previamente com os Estados Unidos antes de tomar decisões contrárias irreversíveis. A Rússia, o Irã ou a Turquia não devem nem pensar em resolver o conflito na Síria sem o aval da Casa Branca. E a China que cuide de convencer seriamente os norte-coreanos de abandonar a corrida nuclear, e de moderar as provocações navais no mar da China meridional. Para Trump, isso é novidade, mas não é tanto para a política externa americana.

Rússia sempre foi adversária

A reviravolta está vinculada ao fato de que a chamada “comunidade de segurança” americana – o Pentágono, a CIA, a NSA, a Segurança Interna, e o Conselho de Segurança da Casa Branca, todos comandados por generais – conseguiram afastar a facção mais isolacionista que defendia uma relação de amizade com Vladimir Putin. É a volta do establishment da política externa, defensor de uma Europa unida e de uma OTAN forte, que sempre considerou a Rússia como um adversário e que não está a fim de abandonar os aliados europeus ou asiáticos frente às ameaças russas ou chinesas. Apesar das emoções do magnata no poder, a nova visão da Casa Branca tem mais continuidade do que originalidade. Resta saber se o mercurial Donald Trump não vai de novo mudar de ideia.
 

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