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O Mundo Agora

União Europeia virou o bode expiatório da eleição francesa

Áudio 05:04
Acesso à Comissão Europeia em Bruxelas
Acesso à Comissão Europeia em Bruxelas ©Thierry Tronnel/ Getty Images

A eleição presidencial francesa não é só um assunto doméstico. O futuro da União Europeia também está em jogo. Os movimentos populistas europeus – de direita e de esquerda – vêm ganhando espaço eleitoral. Claro, não são todos iguais.

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A extrema-esquerda está disposta a acolher a onda de emigrantes de maneira digna e solidária. Enquanto a extrema-direita xenófoba quer expulsar todos os migrantes e transformar os estrangeiros residentes em cidadãos de segunda classe. Mas os dois extremos compartilham o mesmo objetivo: restabelecer as fronteiras e as soberanias nacionais.

Eles sonham com um tempo em que, pretensamente, os governos nacionais determinavam a vida econômica, o comércio e o intercâmbio de informações com o exterior e até a própria cultura de cada país. Um mundo onde as decisões soberanas não deviam se preocupar com os vizinhos e o resto do planeta. Memória curta.

Essa miragem de países independentes competindo uns com os outros provocou dois suicídios coletivos no Velho Continente, duas guerras civis europeias que viraram guerras mundiais com a exterminação de populações inteiras. E isso depois de séculos de conflitos sangrentos. As últimas sete décadas representam o período de relativa paz mais extenso da história da Europa, desde a guerra de Tróia! Graças à União Europeia, símbolo e realidade da cooperação entre Estados que partilham, voluntariamente, partes de suas soberanias nacionais.

Construção europeia virou bode expiatório

Só que nesse ambiente de extremismos alucinados, de crises econômicas e sociais globalizadas, a construção europeia virou bode expiatório. Todos os populistas – aberta ou sorrateiramente – querem abandonar a moeda única e acabar com a União. Nos últimos anos, os populismos europeus pareciam levar o continente de roldão. Na Grécia, na Hungria, na Polônia ou na Finlândia, movimentos deste tipo chegaram ao poder.

No Reino Unido, uma pequena maioria do eleitorado votou a favor do “Brexit” (a saída da Inglaterra da União Europeia). Na Espanha, nos Países Baixos, na Áustria, na Itália, na Finlândia e até na Alemanha, partidos anti-europeus prosperaram. E na França, a Frente Nacional de Marine Le Pen e a “França Insubmissa” de Jean-Luc Melanchon somadas, atingiram 40% dos votos.

A casa europeia está pegando fogo. E a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, com um programa ultranacionalista e declarações violentas contra a União Europeia e a OTAN, acabou dando mais asas aos extremistas da direita e também, paradoxalmente, da esquerda.

Populações começam a desconfiar do canto das sereias populistas

Mas a boa notícia é que o perigo despertou o público europeu. Todas as sondagens atuais mostram uma maioria acachapante da população da Europa que quer continuar a construção europeia e não quer sair do euro de jeito nenhum. A posição é tão forte que os populistas “governamentais” gregos, húngaros, poloneses e finlandeses já tiveram que colocar uma surdina nos seus programas, acatar as regras europeias e encarar mobilizações pesadas de suas sociedades civis em favor da União e do respeito aos valores e regras comunitárias.

Na Áustria e nos Países Baixos, a extrema direita xenófoba não conseguiu faturar nos últimos pleitos. Na Espanha, o partido “Podemos” está perdendo fôlego, enquanto que a extrema-direita alemã do “AfD” se dividiu e está degringolando nas intenções de voto. Até na Grã-Bretanha, o carro-chefe do voto “Brexit” – o partido UKIP – praticamente desapareceu do mapa, e as pesquisas agora mostram uma maioria de “arrependidos” que querem voltar para a União Europeia. E os líderes da Europa continental conseguiram estabelecer uma posição unânime e dura para negociar com Londres.

Pelo visto as populações estão aprendendo a desconfiar do canto das sereias populistas. Mas a crise social e econômica do Velho Continente não foi embora. Nada foi resolvido. Se Marine Le Pen for eleita e que a França decidir seguir os passos da Inglaterra com um “Frexit”: babau a União Europeia. Por enquanto, o candidato pró-europeu Emmanuel Macron continua liderando as sondagens. Mas ninguém se atreve a prever o resultado do pleito. Mas é melhor ser otimista. Os pessimistas sofrem o tempo inteiro. Os otimistas só sofrem no fim.

*Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris, faz uma crônica de política internacional às segundas-feiras para a RFI

 

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