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China/Entrevista

Chineses se preocupam com expectativa exagerada sobre o país, diz Oliver Stuenkel

O professor de Economia da FGV, Oliver Stuenkel, durante lançamento de seu livro em Pequim.
O professor de Economia da FGV, Oliver Stuenkel, durante lançamento de seu livro em Pequim. Foto: RFI Brasil

Professor de Relações Internacionais na Fundação Getúlio Vargas em São Paulo, onde coordena a Escola de Ciências Sociais e o MBA em Relações Internacionais, Oliver Stuenkel acaba de passar uma pequena temporada pela China, onde lançou dois de seus livros traduzidos para o chinês. Ele visitou universidades, participou de debates com professores e alunos. Discutiu os desafios globais, os rumos das nações desenvolvidas e desenvolvimento, e a ascensão da China.

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Vivian Oswald, correspondente da RFI em Pequim

Num país em que há muitas limitações e controles à liberdade de expressão, muitas das perguntas mais espontâneas feitas ao professor aconteciam no final dos seminários, em pequenos círculos fora do alcance público. Para ter seus livros publicados neste mercado imenso, Stuenkel teve de concordar com o corte de alguns trechos dos livros, que já estão à venda na China: “BRICS e o futuro da ordem global”, e “O mundo pós-Ocidental”, que, para o público chinês passou a ser chamar “A governança da China: fim da era do Ocidente”. Na entrevista à RFI Stuenkel fala do papel crescente da China na cena global e de um certo temor que notou entre os chineses sobre o que podem ser até expectativas exageradas do mundo em relação à atuação do país.

-Como lançar um livro na China?

Tem sido uma experiência muito interessante. Existe um interesse muito grande na China sobre o que os outros pensam da China. Eu senti uma abertura bastante grande, não apenas em relação ao papel da China, mas sobretudo em relação à percepção que o mundo tem da sociedade chinesa. Existe uma preocupação muito grande em relação a atratividade da cultura chinesa. Muitas pessoas se preocupam sobre como melhorar a imagem do país. Esse é um assunto que surgiu. Acho que, claramente, as pessoas percebem que a China se tornará em breve, ou melhor já é, um ator crucial na ordem internacional. Então, tem-se a sensação de que, de fato, a China terá um impacto grande também em outros países. Vejo que tem um interesse muito grande nessa percepção de outros sobre a China, mas, obviamente, em função das limitações também, algumas limitações em relação à liberdade de expressão, nem todas as perguntas podem ser feitas. Então, os próprios alunos e professores, às vezes, vêm depois do evento fazer as perguntas que eles não gostariam de fazer publicamente. Isso é um elemento que a gente não tem no Brasil, por exemplo.

-Mas um livro em um país em que existe censura em vários aspectos… O seu livro, eu imagino que, para entrar no mercado chinês, tenha tido alguns cortes

Sim. Tem isso e, no caso de um dos livros, o título também foi adaptado, não necessariamente em função da censura, mas para tornar o livro mais atraente para o leitor chinês. O livro trata da influência crescente do mundo emergente, mas o título do livro aqui na China aponta apenas para o papel chinês nesse processo. Então, claramente, existe uma confiança muito maior agora. A editora avaliou que acentuar e enfatizar o papel chinês nessa grande mudança, ia tornar o livro mais atraente para o leitor. Isso certamente é algo que mudou muito. No passado, havia uma hesitação grande (sobre o papel chinês), apenas alguns anos atrás, quando se discutia a responsabilidade global da China, a importância global do país. Hoje existe uma vontade muito maior de debater essas questões.

-Durante as suas palestras, quais foram os temas que mais interessaram os chineses. Havia uma necessidade de se comparar como Brasil? Nós conhecemos pouco a China, mas os chineses também conhece pouco o Brasil.

Acima de tudo, a China hoje se compara com os Estados Unidos. É cada vez mais uma sensação de que o país tem sido comparado, não só por eles, mas pelo resto do mundo, com os Estados Unidos. Há até uma certa preocupação com o recuo dos Estados Unidos. Há uma percepção clara de que a China está no processo de preencher, de certa maneira, o vácuo de poder que os Estados Unidos estão deixando para trás, o que, inicialmente, gerou bastante animação. Mas, agora, depois de um ano do presidente (Donald) Trump, o governo e a população se preocupam com as expectativas exageradas que o mundo pode ter em relação à China. Algumas pessoas durante as palestras, ou depois, perguntavam se o mundo não tinha uma expectativa excessiva em relação às contribuições que a China poderia fazer neste momento, agora, no nível global, também em função dos grandes desafios. Existe uma mistura interessante de uma confiança muito grande, mas, ao mesmo tempo, uma insegurança enorme de que pode haver uma demanda muito grande, uma expectativa excessiva em relação ao país. Eu acho que muita gente sabe que ainda não se pode comparar a China aos Estados Unidos. Ela é um país que enfrenta grandes desafios econômicos, sobretudo internos…

-O presidente Xi Jinping inaugura em março o seu segundo mandato de cinco anos. O que esperar da China a partir de 2018? O crescimento vai ser o que o governo chama de “novo normal”, mesmo para essa nova era que foi anunciada pelo presidente durante o 19o. Congresso do Partido Comunista? A China vai crescer um pouco menos, mas terá uma expansão mais sustentada?

No âmbito externo, o Xi Jinping representa uma grande mudança, porque a China hoje se projeta de maneira mais confiante ao mundo. Cinco anos atrás, ainda não se podia falar sobre influência chinesa no mundo. Qualquer conversa sobre intervenções chinesas em todos países era rejeitada, e hoje existe um reconhecimento de que a China tem papel fundamental, não só econômico, mas político sobre outros países. E surgem temas como intervenção construtiva, intervenção criativa, que, de certa maneira, representam uma adaptação do pensamento chinês. A gente vai ver uma atuação chinesa muito mais assertiva, muito mais visível, em outros países. Isso vai gerar uma reação forte, muita preocupação. A gente já vê isso na Austrália, muito claramente, onde o grande debate público hoje é sobre o papel chinês na política interna australiana. Na Nova Zelândia também. Isso é apenas o começo. Então, a China vai ter que aprender a lidar com isso. No nível externo, esse vai ser o grande tema do Xi Jinping: a preocupação de como a China consegue mostrar ao mundo de que a ascensão chinesa também tem um impacto positivo para o resto do mundo, acima de tudo por meio da provisão de bens públicos pelo país, seja financiamento para infra, seja liderança on combate à mudança climática, seja o envio de tropas para missões de paz. Isso de certa maneira vai globalizar o país cada vez mais, porque a China vai se envolver com assuntos que, antigamente, não eram tão importantes para a atenção da China. Ao mesmo tempo, parcialmente em função do crescimento (econômico) menor, a gente pode ver um controle maior interno, porque claramente o processo de consolidar e estabilizar a economia é um processo arriscado, não é? A população chinesa se adaptou, ao longo da s últimas décadas, a um crescimento enorme. A gente apenas pode imaginar como seria se o Brasil tivesse crescido a sete a dez por cento ao ano ao longo dos últimos 30 anos… Ou seja, a expectativa dos chineses é que cada ano fica melhor, que os salários aumentam. Muitas vezes o planejamento financeiro chinês é otimista em relação ao futuro. E o Partido Comunista precisa preparar (a população) e gerenciar essas expectativas, claramente, o partido se preocupa com a possível frustração que um crescimento mais baixo pode gerar.

- Quais as suas impressões aqui na China, depois de viajar por grandes cidades chinesas, sobre as mudanças que acontecem no país. O senhor deve ter visto coisas sobre as quais costuma ler, mas que ainda não tinha presenciado.

A China é hoje um país bastante globalizado. Mesmo em cidades um pouco menores, há uma grande presença de alunos estrangeiros. Ou seja, claramente, a gente vê que, em função do crescimento econômico, o país se torna atraente para pessoas do mundo inteiro, mesmo em cidades não tão conhecidas. Há muitos alunos africanos, americanos. Nesse sentido, o país se abriu muito mais. É um país que, ao longo dos últimos anos, tem se transformado muito pela infraestrutura, que tem se modernizado, e onde, de fato, apesar das limitações ao debate público, há uma inovação constante, seja do uso de aplicativos, seja em relação a todo tipo de atividade social que muda rapidamente hábitos de consumo. É um país que está num processo muito rápido de transformação, e, apesar de todos os seus desafios, é um país onde se sente um otimismo muito claro. Mesmo pessoas jovens, a princípio, pensam sobre suas carreiras de maneiras muito positiva enxergam muitas oportunidades. Isso me impressionou bastante, é algo que não tinha sentido (com essa intensidade) alguns anos atrás. Aliás, eu acho que há um grande contraste em relação à sensação que se tem hoje em dia em sociedades europeias e nos Estados Unidos, onde há muita preocupação em relação ao futuro.

-E no Brasil?

No Brasil também. Acho que existe um pessimismo mais tangível. Dá para sentir mais uma preocupação com o que virá. Isso aqui não tem de maneira tão clara. Obviamente o debate sobre a política aqui ocorre muito país a portas fechadas, não ocorre de maneira tão aberta. Mas, mesmo em conversas privadas, a crítica ao governo não faz com que as pessoas tenham preocupações mais profundas com o futuro.

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