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O Mundo Agora

Saída dos EUA da Síria é “presente de grego” de Trump para Putin

Áudio 04:33
Soldados americanos na região de Manbij na Síria, em 1° de novembro de 2018.
Soldados americanos na região de Manbij na Síria, em 1° de novembro de 2018. Zoe Garbarino/U.S. Army/Handout via REUTERS

Vladimir Putin recebeu um baita presente de Papai Noel. Donald Trump anunciou de supetão que ia retirar os soldados americanos da Síria, entregando o país para a multidão de protagonistas militares ainda presentes: russos, iranianos, turcos ou curdos. É muita areia para o caminhãozinho sírio. O presidente americano nem se dignou negociar uma contrapartida qualquer, passando por cima das objeções do Pentágono e até de pesos pesados do seu próprio partido Republicano que consideraram o fato consumado como “a decisão estratégica mais imbecil da História”.

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Também não avisou os principais aliados ocidentais que têm tropas na Síria e dependem da logística americana. Pior ainda: abandonou vergonhosamente os combatentes curdos que estão se sacrificando na primeira linha de combate contra o terrorismo islamista. Não é só no Pindorama que acontecem arroubos monocráticos irresponsáveis.

Não há dúvida de que Trump pensou primeiro na política interna. Sobretudo nesse momento onde muito tiro está saindo pela culatra: a derrota eleitoral da Câmara dos Representantes, a briga com a China e a queda vertiginosa das Bolsas, a falta de maioria no Senado para financiar o seu famoso muro anti-imigrantes, a ameaça de ser indiciado no inquérito sobre a ingerência da Rússia na última eleição presidencial, e agora, a demissão do ministro da Defesa, o general Mattis, considerado, por Democratas e Republicanos, como “o último adulto do Gabinete”.

Não importa: o lourão da Casa Branca sabe perfeitamente que a parte mais radical da sua base eleitoral está deslumbrada com a volta dos “boys” para casa – aliás uma das promessas de campanha do candidato Trump.

Esse tipo de decisões individuais e estrambelhadas só servem para tentar se sair de sinucas domésticas – aliás sem grandes possibilidades de êxito. Mas na verdade, a ideia de deixar a Síria ao Deus dará também faz parte de um pensamento estratégico americano que vem desde a presidência de Barack Obama. Os Estados Unidos não estão mais a fim de gastar dinheiro e sangue para servir de “polícia do mundo”.

Interesses estratégicos

O objetivo é intervir, pesadamente se for preciso, só em caso de que os interesses estratégicos diretos americanos estejam ameaçados. A importância da Síria vinha só da presença territorial de um Estados Islâmico terrorista e do fato do país estar situado no Oriente Médio, o poço de petróleo do mundo. Com a derrota dos islamistas e a nova gigantesca produção de gás e petróleo de xisto no território americano, a região não é mais tão importante aos olhos de Washington.

A Casa Branca de Trump está dizendo claramente que não se importa em pacificar a Síria, ou encontrar soluções políticas para reconstruir o país, ou a própria região. A única coisa que conta é a segurança de Israel e a manutenção da aliança com a Arábia Saudita. A estratégia americana é ficar assistindo de camarote os russos e as potências regionais se digladiarem, e intervir de vez em quando para impedir que um deles se torne hegemônico. O resto que se dane. E não só as populações da região, mas também os aliados europeus que se encontram na primeira linha das ameaças terroristas, políticas e econômicas que vêm do Oriente Médio.

"Presente de grego"

Putin não se entusiasmou tanto pelo presente do Papai Noel Trump, porque sabe que é um "presente de grego". Sem a presença americana, a guerra de todos contra todos na Síria vai explodir de novo. Sobretudo se a Turquia decidir atacar o embrião de Estado curdo no Leste sírio. Moscou não quer saber de ficar atolada na região.  Não tem dinheiro para isso.

A Rússia sonha numa solução política rápida que garanta as suas bases militares e que possa servir para convencer os europeus a financiar a reconstrução do país. Mas sem os americanos vai ser difícil acontecer. O resultado é mais guerra para todo mundo – potências locais e europeias – com os Estados Unidos controlando na arquibancada.

 

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