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Egito / Migrantes / Refugiados

Jornal denuncia tráfico de órgãos de migrantes africanos que sonham em chegar à Europa

Capa do jornal Libération desta sexta-feira (2) destacando o trafico ilegal de órgãos no Egito.
Capa do jornal Libération desta sexta-feira (2) destacando o trafico ilegal de órgãos no Egito. Fotomontagem RFI

O jornal Libération desta sexta-feira (2) destaca em sua capa uma reportagem sobre o tráfico ilegal de órgãos que se aproveita da situação precária de migrantes dispostos a vender um rim para financiar uma travessia em direção à Europa.

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“Temos dois rins, não é mesmo. Me explicaram que eu poderia viver com um só e eu precisava do dinheiro”, contou o jovem Alghaliy, de 29 anos, ao correspondente do Libé no Egito, Eric de Lavarene. “Me propuseram US$ 5 mil. Você entende o que isso representa para alguém como eu? ”, explicou o sudanês, que acabou sendo enganado.

“Me fizeram entrar numa sala de cirurgia de uma clínica chique do Cairo. Naquela hora, fui muito bem recebido. Fui para a anestesia geral, e quando eu acordei, já tinham me levado de volta para casa. Fiquei vários dias deitado com dores terríveis. Ainda sangrava um pouco e tinha dificuldades para respirar”, relatou Alghaliy.

O jornalista conta que o jovem, sem documentos, sem plano de saúde, chegou ao Cairo através de um esquema de tráfico humano que leva sudaneses, etíopes e eritreus a Israel e Europa. Pouco após chegar à capital egípcia, Alghaliy caiu nas mãos de traficantes de órgãos, que junto com os contrabandistas desenvolveram um negócio lucrativo de venda de rins.

Mas a promessa financeira para convencer os migrantes nunca é cumprida. “Me deram US$ 1.500 e me ameaçaram caso eu reclamasse. Nunca mais os vi”, lamentou o jovem sudanês.

Milhares de vítimas

Como ele, já são milhares de vítimas que acabam sem forças para continuar o caminho do sonho europeu. Na sede do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados no Cairo, o fluxo de pessoas operadas clandestinamente é tão grande que os responsáveis não conseguem ajudar como gostariam. “Tentamos ajudar com conselhos de como viver com um órgão a menos. Também pedimos para que consultem um médico pois há provavelmente cuidados a serem tomados após uma cirurgia desse tipo”, relatou Christine Bashay, assessora de imprensa do Alto Comissariado.  

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) o Egito é um dos países que mais sofre com transplantes ilegais de órgãos, ficando atrás somente da China, Filipinas e Índia. Um dos motivos seria a legislação local que proíbe a retirada de órgãos de forma legal, por motivos religiosos.

Oferta maior que a demanda

Com isso, a procura por órgãos no mercado paralelo não para de crescer. “A oferta é muito maior que a demanda. A equação é simples: os doadores são em sua maioria pobres, os que recebem são pessoas ricas. Com mais de 60% da população vivendo abaixo da linha da pobreza e milhares de imigrantes ilegais, encontrar órgãos é muito fácil.

Para o professor Mohamed Ghoneim, entrevistado pelo jornal, “há uma vontade do Estado de acabar com tais práticas. Seria preciso sair das polêmicas culturais e religiosas e permitir o acesso aos órgãos de pessoas que vieram a óbito”.

O correspondente do Libé conclui sua reportagem contando que o jovem Alghaliy pensa agora em doar parte de seu fígado para pagar seu retorno ao Sudão.

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