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O Mundo Agora

Hong Kong acendeu “luz vermelha” em líderes do Partido Comunista chinês

Áudio 04:53
"A população da antiga colônia britânica defende agora, aos brados, um regime democrático. E pede até a ajuda do governo e do Congresso americanos."
"A população da antiga colônia britânica defende agora, aos brados, um regime democrático. E pede até a ajuda do governo e do Congresso americanos." REUTERS/Anushree Fadnavis

Claro, Xi Jinping, é o dirigente chinês mais poderoso desde Mao Tse-tung. Mas dúvidas correm soltas na Cidade Proibida. Xi conseguiu mudar as regras de sucessão dentro do Partido Comunista de maneira a garantir para si próprio uma permanência quase eterna.

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Uma brutal campanha anticorrupção esmagou os seus opositores mais resolutos ou menos amedrontados. Hoje, a mídia chinesa só publica artigos hagiográficos engrandecendo o “pensamento Xi-Jinping” e louvando as decisões infalíveis do novo “Líder do Povo” - uma apelação usada só para o presidente Mao.

Só que o líder chinês não parece mais tão indefectível assim. A gestão hesitante da revolta da população de Hong Kong acendeu uma luz vermelha dentro do pequeno grupo de dirigentes do Partido Comunista. Um regime autocrático, que espera três meses e meio de passeatas e violências urbanas para acabar recuando e aceitando uma só das cinco reivindicações dos manifestantes, não é bem um exemplo de força e sabedoria.

A população da antiga colônia britânica defende agora, aos brados, um regime democrático. E pede até a ajuda do governo e do Congresso americanos. Os mais moderados na direção comunista resmungam que essa concessão deveria ter acontecido há muito tempo, antes que os protestos se radicalizem. Os “linha-dura” querem uma intervenção militar chinesa imediata para acabar com a bagunça.

Só que Xi está numa sinuca. Pequenas concessões arranham a sua imagem de líder inflexível minando o seu poder interno. Sem falar do perigo de contágio das ideias democráticas na própria China continental.

Mas invadir Hong Kong com tanques – e ainda por cima no aniversário do massacre da Praça Tienanmen de 1989 – seria acabar de vez com a narrativa oficial de uma China pacífica, cujo regime se vende como um exemplo para o resto do mundo. Além de liquidar a galinha dos ovos de ouro que é Hong Kong, principal canal de contato com a economia mundial, mealheiro das elites chinesas, e cujo estatuto particular – “um país, dois sistemas” – Pequim se comprometeu respeitar. E que oferece como saída para uma reunificação pacífica com Taiwan.

Onda de riscos políticos e econômicos

Xi Jinping não é cego. Em janeiro passado, numa reunião dos principais dirigentes do Partido, ele avisou que o país estava enfrentando uma séria onda de riscos políticos e econômicos. A questão central continua sendo o crescimento econômico profundamente abalado pela enfrentamento com os Estados Unidos.

Sem prosperidade econômica, o Partido Comunista vai ralar para se manter no poder. E muitos outros líderes comunistas não estão plenamente convencidos da estratégia de Xi de falar grosso e ganhar tempo, esperando que Trump não seja reeleito.

A crise comercial poderia ter sido resolvida com o acordo alcançado há poucos meses atrás. Mas, na última hora, o presidente chinês recusou as concessões feitas pelos seus negociadores. Uma decisão que pesa ainda mais sobre a performance econômica da China.

Pior ainda: para neutralizar possíveis contestações internas, Xi Jinping está apelando para uma retórica nacionalista, com louvores permanentes ao poderio das Forças Armadas e expansões militares no mar da China meridional e no Índico. Um expansionismo que está alimentando a desconfiança dos vizinhos e atraindo ainda mais o poderio militar dos Estados Unidos para a região.

Pequim sabe perfeitamente que não tem condições de manter um enfrentamento militar direto com Washington, mas a retórica de Xi está atiçando essa presença americana. Trump decidiu se retirar do tratado com a Rússia que proibia mísseis de alcance intermediário, sobretudo para poder ameaçar a China, justamente com esse tipo de armamento.

É muita areia, até para o caminhãozão de Xi Jinping. Os outros mandachuvas do Partido Comunista que só pensam na própria sobrevida – e que tremem diante do poder acumulado do chefe supremo – já não estão tão seguros de que um Xi autocrata, tomando decisões aventurosas, seja a melhor solução para garantir, por mais algumas décadas, o poder absoluto do partido de Mao Tse-tung.

*** O cientistas político Alfredo Valadão publica suas colunas todas as segundas-feiras na RFI Brasil

 

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